quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Estou ficando sem respostas

Chego em casa depois de um dia atribulado no trabalho, mais de 60 kms de chão, auxiliar doméstica de licença médica, mas... tento por um sorriso no rosto para falar com as meninas.
Não é fácil. Sou pouco paciente, quero falar coisas de adulto, estou de tpm, mas me esforço.
Em dado momento, ouvindo como foi o dia, extensão de férias não programadas, games, passeios com o cachorro, amigos, histórias da gata nova.
Preciso interferir para orientar uma atitute e tomo a palavra.

Quando termino, minha primogênita me diz:

- sabe, eu aprendi a deixar os adultos no vácuo...

Evito rir e pergunto: e o que significa isso?

- ah, eu sorrio, escuto, concordo com tudo e saio andando

Bom, já é tarde, hora de ir para cama!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O velho Nicolino se foi

Há onze anos. Mas nunca me convencerei disso.
Era um cara legal o meu pai. Ele jamais compraria uma editora para eu publicar meus livros, já que sonho ser escritora. Tão pouco compraria uma agência para eu ser a criativa, a midia, o atendimento, a dona.
Não, ele não.
Ele me ensinou que é preciso estudar, refinar o talento que se descubra, persistir, torcer, cair, levantar e seguir em frente.
Estar entre os bons, sempre, e ter metas altas. Se o amigo tirou 7 na prova esse não é o parâmetro, aquele que tira 10 sim e para alcançá-lo é preciso tirar 10 com louvor.
É, ele não era amigo de Nelson Piquet...
Tenho saudades dos seus olhos azuis. Das suas piadas, sempre as mesmas.
Das histórias da fazenda.
Das pegadinhas, muitas eu ja sabia a resposta mas fingia que não sabia. E ele sabia que era só pra agradar, ah... eu era muito esperta pra não saber aquela bobagem!
Um acordo tácito.
Um balde de pipocas, um jogo do palmeiras, um chinelo havaianas e uma camiseta confortável.
Para sempre meus dias serão sem o velho Nicolino, mas ele está em mim.
Está nos olhos azuis e na curiosidade da minha irmã mais velha, na generosidade da minha segunda irmã, no caráter do meu irmão, no amor da minha irmã caçula, em comunhão com a minha mãe, que nos abençõa com seus olhos verdes.
Pai, será que o Muricy vai dar conta do nosso time? Eu não vou muito com a cara dele mas espero que ele se dê bem!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Parada de ônibus

Não conseguia explicar o prazer que a leitura lhe dava.
E não conseguia explicar a ira que o invadia quando algo qualquer dava errado.
Tão simples. Tão complicado. Tão inútil tentar explicar. Mas tão difícil conviver com a dualidade.
Guardava na memória trechos de livros.
Alguns filmes também, mas o cinema apesar de apaixonante sempre exercera uma força mais tênue.
Histórias de filmes pareciam névoa, enquanto histórias de livros sempre vieram carregadas de cor, não importando se de amor, de dor, engraçadas, infantis, realismo fantástico.
Sim, realismo fantástico parecia a sua existência.
Seus vários humores escapando nos momentos mais impróprios.
Como fixar uma imagem?
Viu um espetáculo de dança em que tentáculos gerenciavam todo o movimento.
Polvo, aranha, centopeia, bichos de muitas pernas e poucas palavras.
Despertou aflito, o ônibus já estava parado em seu ponto, pessoas desciam e ele estava muito enroscado em pernas e pés e braços e bolsas:
- com licença, eu também vou descer!