quarta-feira, 3 de março de 2010

Tinha nome a menina?

Dançou uma dança sem coreografia, em um bar sombrio, de gente mais perdida que achada.
Ganhou algum dinheiro, alguma gripe em tempo de noites frias de garoa fina.
Alimentou um sonho que não durava mais que uma semana, quando outro crescia e transformava tudo.
Imaginou um conto que contado não tinha graça, que escrito era tão curto, que pensado servia para acalmar a paz.
Fumou um cigarro de marca não decidida, mas copiada dos amigos, que não decidiam, pagavam pelo que era possível.
Usou um batom vermelho que em boca tão pequena era tão grande e desistiu porque deixava tão evidente que o lábio não era desenhado como supostamente deveria ser.
Amarrou de um jeito diferente o cadarço do all star e nunca esteve tão ausente de sua vida como naquele tempo.
Cantou uma canção aprendida na infância, resgatada sem ferimentos de um baú de brinquedos do coração.
Jantou um macarrão sem graça.
Andou de mãos dadas na chuva, correu, tropeçou, riu e quando entendeu a vida era tarde demais para muita coisa.
Reviu a coreografia, escolheu melhor o bar, a música, a companhia.
Autografou sua biografia, mas se retirou antes mesmo da foto e nunca mais se soube onde está escondida. Eu suspeito, mas devo guardar segredo.

terça-feira, 2 de março de 2010

Renascer

Sei que o que me espera não é a espera pela espera, mas algo maior.
Que pode ser bem pequeno, apenas um jeito novo de esperar.
Derrotar o frio na barriga, o tremor nas pernas, o sorriso quase tímido de medo.
Que reposta? Sim ou não?
Por que ainda estou nesse pedaço da estrada quando tantos já me ultrapassaram?
Talvez porque muitos tenham ficado para trás.
Sorte não é uma palavra mágica, fé não é uma palavra mágica, mágicas são as decisões que vamos tomando ao longo de nossa vida.
Naquele dia estava atrasada e decidi não tomar café para não chegar tarde à reunião de trabalho.
Porque não tomei café fiquei com fome.
Porque fiquei com fome fiquei mais irritada.
Porque fiquei irritada acelerei mais do que precisava em uma ultrapassagem e fiz cara feia para o outro motorista.
Porque fiz cara feia ele me ultrapassou de volta e quase nos envolvemos em um acidente.
Porque quase me envolvi em um acidente fiquei ainda mais nervosa.
Porque estava nervosa não cumprimentei o segurança.
Porque não o cumprimentei ele demorou a me ajudar quando o crachá não funcionou na catraca.
Porque o crachá não funcionou cheguei atrasada.
Porque cheguei atrasada cheguei mal humorada.
Porque cheguei mal humorada não atendi a primeira ligação.
Porque não atendi a primeira ligação recebi tarde um recado que teria mudado todo o meu dia.
No outro dia estava atrasada, mas decidi tomar café.
Porque tomei café estava alimentada, calma e feliz.
Porque estava calma deixei que me ultrapassassem sem risco algum.
Porque dei passagem recebi um aceno do outro motorista.
Porque recebi um aceno fiquei ainda mais feliz.
Porque cheguei feliz cumprimentei todo mundo e nenhum problema se apresentou.
Tudo funcionou perfeitamente.
Decisões.
Casar ou comprar uma bicicleta.
Separar ou vender a bicicleta.
Ainda que estejamos em piloto automático, quando é possível respirar, pensar e depois agir é um mundo totalmente novo.
Para uma pessoa como eu, é praticamente nascer de novo.
É quase triste, se eu decidir contar o por quê.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Hora de dormir

- Boa noite, dorme com Deus e com os anjinhos.
- Boa noite, mãe, até amanhã.
- Até amanhã.
- Mãe, pode apagar a luz do corredor, entra um clarão...
- Pronto.
- Mãe... pode trazer a garrafinha com água?
- Já vai.
- Mãe, está chovendo granizo? Tá um barulho estranho na janela...
- Não, é o vento que faz a água bater direto na janela, mas não são pedrinhas de gelo.
- Amanhã tem aula, né?
- Sim, por isso você precisa dormir, desse jeito não vai dormir tudo, ficará cansada.
- Então conta uma história, assim eu durmo mais rápido.
- Deixa eu pegar um livro.
- Não, uma história inventada, mas não pode começar com Era uma vez... uma história mais moderna.
- Dizia o meu pai...
- Ah não... vai ser de coisa antiga?
- No futuro veremos...
- Tá com cara de história chata, pode tentar outro começo?
- As crianças de hoje em dia estão no comando, isso é assustador para alguns adultos desavisados. A minha sorte é que sou um adulto que guardo uma criança escondidinha em um cantinho aqui dentro, bem atrás do meu coração. Quando as crianças de agora começam a dar ordens, decidir coisas, eu rapidamente consulto a minha criança escondida, para verificar o que é igual, o que é diferente, como posso ganhar a partida desse game, juntas, essa criancinha e eu decidimos se lutaremos em estilo Naruto, se em estilo Pokemon, se vamos apenas sorrir e rodopiar no gelo como em alguns filmes da Barbie e assim vamos montando estratégias. Tudo em real time e aí as crianças de hoje, ao perceberem esse adulto esquisito, mas ligado no que pode acontecer, se preparam para entender a situação e armar estratégias de defesa ou de trégua...
- Hum... tá, tá bom, agora é a minha vez de contar uma história.
- Não, agora é hora de você dormir!
- Mas a minha história vai ser muito melhor!
- Acredito, mas guarda para amanhã, amanhã será sua vez.
- Ai que saco! E não adianta ficar brava porque isso não é nenhum palavrão.
- Dorme com Deus e com os anjinhos.
- Vou contar a minha história pra eles, para os anjinhos, só em pensamento, eles tem muiiito mais paciência. Boa noite mamãe.
- Boa noite.