segunda-feira, 7 de junho de 2010

Crime

Ficou paralisada com um pedaço de pano na mão.
Não sabia como reagir. De repente lembrara-se de tudo. De tudo aquilo que certamente foi mais saudável esquecer.
Daquilo que tantas vezes a indagaram sem sucesso achando que ela simplesmente não queria falar.
Mas não, ela não se lembrava mesmo.
E agora, depois de tanto tempo, ao pegar o pano para limpar o chão lembrou-se de tudo.
Como um filme que com a rotação acelerada vai mostrando as imagens com som distorcido, não ouve mas entende tudo o que está acontecendo.
Era isso. Então era isso que tinha se passado.
Caminhava pela calçada desviando dos buracos, com a sacola pesada, o sol escaldante criando gotas de suor na testa quando sentiu o puxão.
A sacola rasgou, algumas beterrabas rolaram vermelhas, o pé dobrou e uma dor lancinante confundiu-se com a luz do sol que a cegou.
O mato seco, restos de tijolos que lhe machucavam as costas, a mão áspera tapando a boca, mas os olhos registraram aqueles olhos.
Olhos negros de branco encardido.
Olhos tortos de homem perdido.
Cicatriz em forma de m na testa suada, de pele áspera.
E não viu mais nada depois que um pano sujo tapou olhos, boca e nariz e não importava o quanto tentava livrar-se tudo foi se apagando até que acordou no hospital.
Não sabia como tinha ido parar ali nem quanto tempo fazia. Dolorida, assustada, com a mãe rezando a um canto.
Largou o pano enojada.
Sentou-se na cadeira da cozinha e tomou um gole do café esquecido na garrafa térmica.
Os olhos encheram-se de lágrimas, as mãos cravaram as unhas mal feitas na palma da mão.
Desenhou um m no ar e jurou encontrar aqueles olhos fedorentos.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Somos o que nem sabemos

Ele se chamava Diogo.
Eu o chamava de "seu" Diogo, porque eu era criança e ele era adulto e crianças respeitavam os adultos chamando-os de senhor e senhora ou dona.
Ela se chamava dona Joana.
Eles eram nossos vizinhos.
Quando nos mudamos de Osvaldo Cruz para Tupã, eles eram os nossos vizinhos da direita.
À esquerda não tínhamos vizinhos. Era o "quintal" de uma serraria e eu o espiava louca de vontade de pular naquele monte de pó de serra que se acumulava por lá.
O homem da serraria me dava muitos toquinhos de madeira com os quais eu construía mundos!
Mas, voltando ao casal seu Diogo e dona Joana, eles nem sabem disso, talvez eu mesma só tenha descoberto agora, mas eles me ensinaram uma das coisas mais importantes nesse emaranhado de vidas que compõem as famílias.
Eles tinham um único filho, o que perto da nossa composição de cinco filhos mais pai e mãe era bem diferente.
E ele era preto. Preto, bem preto. Que preto é o nome da cor, como branca, bem branca é a minha cor.
E ele era adulto. Um moço bem forte de sorriso tão largo, tão bonzinho e atencioso que eu achava que ele por ser preto de pais brancos e tão gentil nunca tinha sido bebê, eu achava que ele tinha aparecido assim na vida do seu Diogo e da dona Joana, para alegrar a vida deles que deveria ter sido triste sem ter nenhum filho bebê.
E foi assim que eles me ensinaram sem saber que para ter família nem sempre é preciso parir.
O seu Diogo jogava na loteria esportiva toda semana e coleciona todas as suas apostas em caixas de sapato.
Enquanto tivemos contato não tive notícias de que ele tenha ganhado alguma coisa.
A dona Joana foi quem disse a meu irmão onde ele poderia encontrar um filhote de gato amarelo quando eu adoeci de saudades do meu gato que ficara em Osvaldo Cruz.
Seu Diogo e dona Joana recebiam a visita de uma mulher muito elegante, que tinha uma filha muito linda que se chamava Laís, de onde se originou o nome de minha irmã caçula, Laís, linda como a menina dos cabelos longos que visitava dona Joana e que, não brincava comigo porque não podia se sujar.
O João me surpreendia brincando no quintal, fazendo sanduíches com sementes de colorau e se dispunha a experimentá-los e elogiar o meu trabalho. Ele era um bom cliente da minha lanchonete de bolinhos de barro enfeitados com flores.
Eles foram anjos que passaram pela minha infância. Dos defeitos que certamente tinham, dada a condição de humanos, não consigo me lembrar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Meias

Eu gosto de meias listradas.
Eu gosto de meias de bolas.
Eu gosto de meias coloridas.
Bola de meia. Divertidas até o fim.
Durmo de meias até no verão.
Minha amiga Rositta, mala cheia de meias sensação.
Meias coloridas, meias diferentes, meias para qualquer estação.
Minha sobrinha Beatriz demorando demais e a mãe a socorrer:
- Precisa de ajuda?
- Eu tô enroscada na calça-meia! Inversão!
Loja de meias, diversão.
Minha família espera a chegada de um novo bebê, Isadora ou Murilo?
Não sei, mas sei que muitas meias há de ter.
Meias fofinhas, meias de bichinho, meias vermelhas, outro dia fiquei com um punhado delas na mão.
Minha caçula Valentina em uma manhã de frio protesta:
- mãe, essa meia não, quero a meia de manga comprida!
Para meia 3/4 uma nova definição.
Meia xadrez, meia escorregadia, meia que vicia.
Meus pés gelados confidenciam segredos para as meias que reinam em minhas gavetas.
Eu sem meias não sou inteira.
O mundo das meias é um mundo sem fim.