quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Tempo

Quero um tempo mais ameno.
Um tempo de respostas mais rápidas.
De almoço mais lento.
Um tempo para ver um filme novo.
Quero um tempo mais enquadrado
no que precisa ser modificado.
Uma resposta que me tire da cadeira.
Um tempo sem pernilongos.
Quero dias de descanso para os pensamentos.
Um tempo de frases curtas,
mas de sorrisos longos.
Quero um tempo de mãos que acenam
na chegada.
Quero um livro novo.
Quero uma poesia de duas linhas.
Um suco gelado, mas sem pedras de gelo.
Um jantar quente e um despertador desligado.
Quero um tempo mais ameno.
Se eu ficar quieta ele vai chegar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Salvo pelo gongo

E se hoje eu não escrevesse nada?
Hoje que estou cansada, sem idéias, perdida em pensamentos que não querem fazer sentido.
Quem se daria conta?
Eu.
Eu e minha cobrança de mim mesma.
Eu devia levar a vida menos a sério.
Estudar, por exemplo, a origem da expressão salvo pelo gongo.
Dizem que na Inglaterra, a combinação da bebida alcoólica com o tipo de metal da taça derrubava uma pessoa de tal modo que muitas vezes era dada como morta e enterrada.
Como rapidamente precisam tirar os ossos para dar lugar a outros mortos, percebia-se que algo tinha dado errado. Para evitar isso, começaram a amarrar um lado de uma fita no braço das pessoas que morriam e a outra ponta em um sino e uma pessoa ficava sete dias de plantão. Se o morto-vivo acordasse e fizesse movimentos seria logo socorrido - daí a expressão saved by the bell.
Gosto das expressões. Gosto de saber suas origens.
Ontem usei essa expressão com o manobrista do estacionamento e não soube explicar a origem.
Gosto de perguntas inteligentes. Elas me estimulam.
Hoje eu já sei.
É, eu devia levar a vida menos a sério.
Estou preocupada, de fato, com os quero-queros em Campinas.
O Santos estava jogando com a Ponte Preta e um casal deles estava desesperado tentando proteger os filhotinhos.
E, entre o peixe e a macaca, que empatavam em um a um, eu torço para os quero-queros. Tomara que eles sejam salvos pelo gongo do apito final!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Destino retorcido

Estava sozinha quando eu entrei.
Quase bem cuidada.
Uma ou outra folha amarela, aceitaria água sem cerimônia, um calor típico de verão atípico de tão quente.
Vaso bonito.
Rodas de acrílico transparente indicando que ela não atrapalha a limpeza da sala.
Quase não nos falamos, mas pude perceber o seu constrangimento.
Parecia temer as perguntas que meus olhos formulavam:
- mas a quem parece bonito esse tronco submetido à tortura da trança?
- são três ou quatro mudas obrigadas a crescerem juntas, contrariando a natureza dos siameses que só almejam se separar?
- que dor é essa que deixa cicatriz quando os galhos que querem crescer precisam ser cortados para não atrapalhar a harmonia da obra?
Constrangedor olhar para ela com um misto de pena e admiração.
Já sem chance alguma de levar uma vida normal, crescer, abrir os galhos para me abraçar.
Não, a ela coube apenas o destino de ocupar um canto na sala desprovida de charme.
Uma mesa redonda, três cadeiras, dois quadros com fotos da construção branca de Carlos Paez Vilaro, Casa del Pueblo, em Punta del Leste. Já estive lá.
Mas nem a lembrança dessa viagem gostosa, nem  a conversa agradável conseguem desviar minha atenção do destino das coisas que, ainda que vivas, não podem se valer de humanidade.