segunda-feira, 18 de agosto de 2014

No parque

Olhou por um tempo o céu de um azul claro, cálido.
Tirou o bloquinho do bolso e rabiscou um perfil de rosto desconhecido.
Deixou a caneta balançando entre os dedos e lembrou-se das brincadeiras do tempo de escola em que balançava uma caneta bic entre dois dedos e ela parecia derreter-se.
Esticou as pernas. Um princípio de câimbra.
Olhou para o bico do tênis, sujo de barro.
Um passarinho cantava despreocupado.
A mãe passou arrastando um menino que equilibrava desajeitado a bolsa da escola e um picolé de maneira que não pingasse na camiseta do uniforme.
Ainda olhou para ele quando dobrou a alameda do parque.
Uma câimbra mais forte.
Uma dor que foi subindo pela perna.  Forte, forte.
Guardou o bloco, mas a caneta caiu.
Tombou a cabeça no banco sem encosto de cabeça.
No fim do dia o menino falou, mas a mãe não deu atenção...
- olha mãe, esse moço ainda tá aí, faz tanto tempo que até dormiu 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

De tudo já fui um pouco mais

De tudo eu já fui um pouco mais.
Um pouco mais rica. Um pouco mais magra.
Já fui um pouco mais sincera nos comentários.
Um pouco mais fria. Um pouco mais educada.
Eu já fui um pouco mais delicada.
Um pouco mais arrojada.
Já fui um pouco mais modesta.
De tudo eu já fui um pouco mais.
Já fui um pouco mais pobre. Um pouco mais pontual.
Um pouco mais sozinha, um pouco mais sentimental.
Eu já fui um pouco mais ousada, um pouco mais comedida.
Eu já fui um pouco mais ardida, um pouco mais sentida.
De tudo eu já fui um pouco mais.
Um pouco mais branda, um pouco mais branca.
Eu já fui um pouco mais sardenta. Um pouco mais teimosa.
Eu já fui um pouco mais menina.
De tudo eu já fui um pouco mais.
Eu já fui um pouco mais literal.


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Desacerto

Aplacada a fúria resolveu pensar.
É, de fato, era pouco problema para muita palavra usada na reclamação.
O tom de voz tinha se alterado.
Mesmo que a voz tivesse se mantido no timbre certo, a bochecha vermelha certamente entregaria a movimentação sanguínea acelerada.
Era sempre assim. Qualquer coisa irritava muito e irritava tanto que esgotava qualquer possibilidade de paz.
Mas, não tinha sido sempre assim.
Não se lembrava de quando havia começado, mas havia começado em algum momento.
Começou e cresceu.
Não se aplacava mais a fúria com um longo suspirar e uma contagem de um a dez.
Quando a moça do supermercado só olhou, não respondeu e disfarçou um meio sorriso, entendeu que era tempo de pedir ajuda.