sexta-feira, 13 de março de 2015

José Otávio

O menino não gostava do que tinha. Não gostava do que calçava, do que vestia, do que comia, dos poucos brinquedos que tinha. Olhava sem brilho para a casa que brilhava de limpa, mas que era pobre, muito pobre.
E porque não gostava de nada falava pouco, muito pouco.
Não reclamava porque sabia que a mãe choraria.
Não gritava porque sabia que chamaria atenção para si.
Era um menino encolhido em si mesmo. Mais olhos que boca. Mais ouvidos que nariz, mais queixo que testa.
Era um menino bem bonito escondido na sujeira das brincadeiras de rua. Bola, bate-lata, polícia e ladrão, pneu.
Mas não eram brincadeiras alegres. Ele arremessava a bola com força, mirando as costas de qualquer um. Gostava do barulho da bola ardendo a pele de quem gritava. Qualquer um.
Corria pra dentro quando a mãe chamava.
Tomava um banho porco sem esfregar atrás da orelha e no meio dos dedos dos pés como a mãe recomendava.
O menino não gostava do que tinha e a despeito disso foi crescendo calçado, vestido, alimentado, até começar a deixar de lado o caminhão de plástico que ganhava no natal.
A mãe se esmerava para ter um menino estudado, mas era pobre, muito pobre.
Mesmo encolhido cresceu. A mãe nem se deu conta do momento em que o perdeu. Batia com os punhos no moço da polícia que confirmava os dados.  O menino não gostava mesmo do que tinha, nem do nome, José Otávio.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Verbear

Pensou que pensava sem já fazer muito sentido.
Gostava de transformar as palavras em verbos. Qualquer palavra que já não fosse um verbo.
Verbear palavras é sempre tão mais fácil quando se sabe o que dizer, mas as palavras se escondem, escapam ligeiras. Elas não querem a responsabilidade de corroborar o que há entre o olhar e a boca, o fígado e o coração, as mariposas do estômago e o balançar dos pés.
Inventar palavras também já não é desse tempo que é tempo só de reduzir.
Não a pó, a vc, tá, tbém, pq. Palavras cortadas, magoadas.
Pensou que pensava, mas já não passava de um desfilar de sentimentos.
Embrulhado quando frio.
Esparramado quando calor.
Amar é mais. Pensar é pouco.
Verbear ajuda a transitar pela indelével tarefa de ser.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

De assalto

Tinha um frio na barriga desde que nasceu.
Mas levou mais de cinquenta anos para entender que o frio na barriga era só medo do futuro.
O futuro nunca chega. A gente vai vivendo devagar e tem a sensação que o futuro vai acontecer como uma apoteose.
Como quando vamos dormir em noite de tempestade e acordamos com um céu claro, azul vibrante, sol brilhando de ofuscar o olho mais escuro que se pode encontrar.
Quando entendeu que o frio na barriga era medo do futuro começou a listar os “ses” e quase se desesperou.
E se tivesse largado os estudos, se casado com o primo do sítio e apenas criasse galinhas?
E se tivesse estudado inglês, alemão, francês e se tivesse feito jornalismo e viajado o mundo escrevendo histórias maiores.
E se tivesse tido filhos?
E se tivesse tido um gato, um cachorro ou mesmo um papagaio?
E se tivesse se atrevido a beijar aquele moreno na quermesse da igreja?
E se tivesse prestado um concurso público e tivesse um trabalho burocrático e silencioso onde o problema maior seria atualizar os carimbos no final do ano?
E se tivesse frequentado a igreja e se tornado uma voluntária?
E se tivesse se tornado uma nadadora de mar aberto?
E se tivesse aprendido a sambar e se trabalhasse o ano todo só pra juntar o dinheiro pra fantasia e pra passagem até o Rio de Janeiro em todo fevereiro?
Por mais que listasse os “ses” o frio na barriga não passava.
Quando esquentou foi de repente e ela demorou um tempo para entender que o menino que pedia a bolsa no ponto de ônibus tinha uma faca bem afiada.
Morreu.