terça-feira, 30 de junho de 2009

O bêbado da missa

Eu o vi na fila para receber a comunhão cristã, a hóstia sagrada, da missa da noite do domingo.
Não precisei mais do que um segundo para saber que estava embriagado.
Alto, magro, não sei quantos anos, mas não muitos, entre 50 - 55. Não sou boa nisso.
Um blusão escrito São Paulo atrás, mas não me convenceu de que fosse o seu time do coração.
Barba por fazer.
Manteve-se na fila e vi o padre lhe dispensar um olhar diferente, mas não fez nada além disso.
Tratou-o como qualquer outra pessoa da fila e seguiu seu ritual.
Ele saiu pelo corredor lateral e pude vê-lo de frente.
Alguém, além de mim, sofreu sua dor naquele momento? Acho que não.
As pessoas embriagadas despertam em mim comiseração. Não os bêbados de balada. Não os bêbados do futebol. Não os bêbados da faculdade.
Os embriagados das igrejas e das casas silenciosas, recolhidos em sua dor.
Ajoelhou-se atrás de uma pilastra, não muito longe de onde eu estava e com gestos suaves parecia conversar com um Deus mais que presente.
Depois, ficou por ali esperando a missa acabar e deixei-o ajoelhado no nicho de São José, orando uma oração infinita.
O frio do domingo à noite é diferente para quem tem uma segunda-feira para recomeçar.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

o conceito de coragem para mulheres

Sexta-feira cortei o cabelo. Mais uma vez, e ele já é bem curto.
E, precisava de uma cor em minha vida, porque não vermelho?
Vibrante, estimulante, diferente.
Para espanto de muitos. Para bocas abertas de outras clientes que escovavam seus cabelos longos há quinze, vinte anos.
Sempre igual! Corta só um dedinho! Não tenho coragem, não quero nem pensar em cortar. Uma vez arrisquei até o ombro e chorei meses!
E o que me espanta é o espanto delas!
Submetem-se a cirurgias impensáveis para eliminar gorduras que só elas enxergam!
Ok, muitas vezes nós também as vemos, mas nada que uma disciplina alimentar e de exercícios não ajudasse!
Uma amiga liga e comenta: ai, errei o tempo da recuperação, pedi uma semana, mas precisarei de mais uns quinze dias! Estou parecendo uma múmia e dói tudo.
Outra precisou alugar uma cama hospitalar e contar com a ajuda da filha para ir ao banheiro!
Uma terceira me diz que tem um degrau, que daria até para por um vaso de flor e que, apesar de toda a dor da recuperação, vai corrigir isso.
Isso sim é que é coragem! Admiro, porque não tenho.
Já o meu cabelo, ah, esse cresce e dá pra cortar de novo, pintar de outra cor, encaracolar, alisar, sem dor e por um custo bem mais amigo do meu fluxo de caixa!
Mas vaidade não se discute e podemos falar de futebol!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Uma lágrima por Michael

Que nasceu americano em 29 de agosto não exatamente a seu gosto.
Que teve muitos irmãos.
Que teve que viver o sonho do seu pai.
Que teve uma infância esquisita, cantando e fazendo sucesso sem bem entender o que era isso.
Que proporção isso tomaria.
Uma lágrima por Michael que passou a vida de mal do seu nariz.
Que não queria enxergar a sua boca negra.
Que não encontrou a sua raiz.
Que lutou contra a sua pele.
Que precisou se virar do avesso para procurar o que nunca encontrou.
Uma lágrima por Michael que quis procriar.
Que escondeu os filhos sem mãe, que os pendurou pela janela, que os nomeou em sua própria homenagem.
Que repetiu seu pai tatuando um destino irreparável em crianças desconexas.
Uma lágrima por mãos e pés etéreos de um dançarino leve que sempre escondeu, durante as mágicas coreografias, o peso de ser quem era.