sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Notícia

Recebeu a notícia como quem já sabia e se comportou bem.
Por um tempo que pareceu interminável manteve um sorriso leve no rosto.
Depois desabou e chorou tudo o que estava acumulado.
Depois as horas foram escorrendo pelos relógios e o coração acertou o compasso.

Recebeu a notícia com a surpresa dos que vivem em outro mundo.
Por um tempo que pareceu interminável apertou as mãos, balançou os pés, escancarou um sorriso.
Depois gritou de alegria e rodopiou como se alguém lhe tivesse dado corda.
Depois as horas foram escorrendo pelos relógios e o coração acertou o compasso.

Entre o riso e o choro, extremos de calmaria.
Entre o medo e a alegria, um coração que comanda o fígado.
Entre os dedos que apertam marcando as palmas das mãos com unhas fortes, anéis inquebráveis.
Depois as horas foram escorrendo e ficaram fotografias em máquinas digitais.
Não há mais papel.
Não há mais nada entre os extremos a não ser uma espera que não antecipa.
Rabiscou em um pedaço de papel o trecho da velha canção... nem um santo tem pena de mim...
E riu de si mesmo enquanto as horas escorriam.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Più Mentali

Pensei em tudo e em nada.
Queria só encontrar o gênio da lâmpada, pedir 3 coisas simples.
3 coisas humildes.
O ar é pesado.
O tom é duro.
A mensagem não é clara.
Para os outros ou para mim?
O barulho irrita. O vento artificial do ar condicionado atrapalha.
O riso foge pelos dedos das mãos.
Se tudo depende de mim, como mudar isso?
Se há um bloqueio, pode ser mais mental que físico?
Fiquei pensando na linda foto que recebi da minha amiga querida.
Que vive longe e perto.
Pensei em tudo e em nada.
Eu gostava de mudar o mundo. Nem que fosse o das formigas.
Impedir a água de destruir o formigueiro. Deixar as folhas mais perto.
Tornar-me tão pequenina e forte como uma delas.
Mas isso é para quando eu estiver pensando com mais clareza.
Por enquanto, vou olhar de novo para a foto e enxergar-me ali, enquanto não encontro o gênio.
Alguém sabe onde se esconde?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Anhanguera

Anhanguera, apelido de Bartolomeu Bueno da Silva, bandeirante que ameaçou os índios dizendo que iria colocar fogo na água deles se não lhe entregassem o ouro que tinham.
Anhanguera, espírito maligno, diabo velho.
A Rodovia se recente desse nome. Corre quase paralela à Rodovia dos Bandeirantes. Esse nome sim, justa homenagem.
E ela sabe também que não é a minha preferida, que quando por ali estou é porque a Bandeirantes sofreu algum contratempo, obras ou acidentes que retardam a viagem.
E me olha de lado, estreita as pistas, faz brotar caminhões e ônibus e carros mais acelerados do que indicam as placas.
E se curva, sinuosidades sem sensualidade, assustadoras.
E enquanto me assusta, me afronta, exibindo suas margens verdejantes de uma beleza que não posso admirar.
Atenção redobrada que tensiona as mãos. 
Anhanguera.
Ela se recente do apelido e atropela os incautos.
Abre uma faixa extra como quem vai receber bem e de repente se dobra em curva e se recolhe em sua estreiteza.
Escancara sua mágoa.
Separa ir e vir em muro duro, baixo, carrancudo.
A Anhanguera tem mágoas que não posso descrever.
Acumula histórias que não sei narrar.
Vou insistir na conquista.
Vou desacelerar.
Vou olhar os morros.
Vou encontrar uma árvore magnífica para fotografar.
Como bandeirante vou desbravar sem pedir nada em troca, a não ser, que me deixe passar!
Carregamos nossos nomes, ela precisa aprender que isso não pode nos martirizar.