segunda-feira, 30 de março de 2015

Vida que passa

Apagou a vela com um sopro fraquinho.
Virou-se bem devagar para não fazer ranger a cama velha.
Encarou o mancebo com a manga de camisa pendurada que por tanto tempo lhe sugeriu um fantasma. Já não tinha medo.
Fechou os olhos.
Respirou acompanhando o caminho do ar até onde foi possível.
Pensou na última vez em que esteve na praia, pé descalço na areia quente.
Lembrou que a mãe sempre perguntava sobre a oração antes de dormir.
Mais uma vez desobedeceu.
Santo nenhum dava valor às suas rezas. Não acreditava muito e quando desesperou e rezou também não viu muita diferença.
As coisas passam porque passam.
As coisas acontecem porque tem que acontecer.
Não há mistério.
Não há filosofia.
Sentiu o gato pular no pé da cama.
O cachorro espiou, como sempre, desconfiado.
A vela ficou pela metade.
A cama não fez mais barulho.
A manga da camisa sentiu a leve brisa e balançou. Não seria a última vez, mas já não assustava ninguém.
Quanto tempo demorou a darem falta do Osvaldo ninguém soube contar.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O caminho de cada um

Recebeu um bilhete da professa comentando que um papo seria legal.
Ok.
Olha, eu percebo que a sua filha fica de olho nas meninas que se arrumam para o ballet. Não pensa em colocá-la na aula?
Sorriu enquanto pensava: mas que saco, pra isso me chamou aqui? Se eu pensasse em colocá-la eu colocaria.
A minha filha não dá para o ballet, completou o pensamento, mas quando falou a conversa foi outra.
Você acha? Vou perguntar se ela quer fazer uma aula para ver como é.
E assim ficou combinado.
Ai que desarranjo com os horários, os trâmites, os “quem pega, quem traz”, mas não podia passar uma imagem de mãe que não está nem aí.
Dias depois foi acompanhar a filha na aula experimental.
A vestiu com roupas possíveis, mas não comprou o “enxoval”.
E lá... Mãe, mas todo mundo veste rosa? A minha roupa pode ser azul ou amarela?
E quando a aula começou a graça era apagar com a ponta do pé a marcação a giz que a professora dedicada ia fazendo para marcar a coreografia.
O cabelo não dava para um coque porque era curto. Definitivamente não estava interessada.
Terminou a aula pendurada de ponta cabeça na barra.
Plié, petit jeté, passé, pointe tendu, ficaram ecoando enquanto o caminho seguiu a passos largos e pesados.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Remoção

Cresceu descalço e de calção. Comendo feijão com farinha, de tarde um pedaço de pão com margarina em casa ou na vizinha. De domingo um naco de carne. De vez em quando uma coca-cola comprada com moeda juntada.
A mãe sempre estressada de faxina em faxina no Morumbi.
O pai às vezes por três meses sem aparecer em casa, dormindo na obra em outra cidade.
A irmã caçula sempre na barra da saia da avó.
A escola um saco, merenda mais ou menos e professores desinteressados.
Mas cresceu. Com um tênis e outro, uma calça comprada no Brás.
O maior bem um carro de décima mão, para ajudar a chegar onde quer que alguém precise de serviços gerais.
Mas hoje, o carro pegou fogo na pista local da marginal.
Quando o guarda da CET chegou:
- E aí companheiro? Vai fazer o quê?
- Não sei não, meu celular nem tem crédito pra avisar a dona que eu não vou chegar no serviço.
- Não pode ficar aqui não
- Mas eu tô cansado seu guarda, vou ficar aqui até a vida me remover!