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quarta-feira, 1 de abril de 2015

O ateu

Era ateu.
E gostava de deixar isso bem claro!
Fazia caras e bocas para qualquer devoção e para desespero da mãe.
Trabalhava na sexta-feira santa só para provar que não usufruía de feriados religiosos.
Mesmo no Natal fazia cara de quem estava ali porque não poderia estar em nenhum outro lugar.
Era ateu.
Chamava-se Francisco, mas não gostava da relação que faziam com o santo, preferia ser chamado de Chicão.
A mãe abominava.
Balançava a cabeça tão doída de filho tão ateu, mas a Neusa sempre a consolava:
- Faz caso não dona Isaura que toda comida que eu boto pra ele no prato eu benzo. Até mesmo o copo d´água que eu levo eu benzo! E embaixo do colchão dele tem um raminho benzido que eu sempre troco no domingo de ramos. Ele tá mais protegido que a gente!


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O cão

Era religioso apenas com o horário de passear com o cão.
Não importava chuva, chuvisco, garoa. Noites estreladas e noites quase ensolaradas no horário de verão.
Mais que um passeio era uma rotina de oração aos seus pensamentos, que podiam se concentrar no vazio de apenas ser e caminhar.
Uma prece por noite. Um cansaço revigorante escondido atrás do que diziam ser um excelente exemplo de dono de bicho. De um cão saudável e feliz.
Tempo e terço, contas rezadas solitariamente.
Quando o cão adoeceu as preces se misturaram e ficaram confusas.
Quando a coleira sobrou inerte na área de serviço ele voltou a ser ateu.