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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Doce de Abóbora

A avó fazia doce de abóbora com coco. Ela adorava.
Quando penteava seus cabelos repartia ao meio e ela ficava com uma cara gozada. Mas deixava assim mesmo.
A avó rezava o terço, ela fechava os olhos e ficava rolando as continhas entre os dedos, vez ou outra mexia os lábios, meneava de leve a cabeça.
A avó adorava tomar sopa, mesmo no verão. Ela deixava esfriar, tomava depressa para acabar logo e quando a avó ia dormir comia uns biscoitos na despensa.
A avó gostava de passar roupas. Ela aproveitava a quietude e lia poesias para a avó.
Viviam bem. Viviam juntas. Os únicos momentos de tensão, ansiados e postergados, eram os momentos em que experimentava perguntar sobre a mãe.
A avó enchia a boca de doce de abóbora e fazia sinal de que com a boca cheia não podia falar.
E a questão engordava a menina, que já não brincava na rua por não conseguir correr.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Antagonista

Chegou em casa esbaforida e sem palavras.
Sentou depois de beber um copo de água gelada.
Prendeu os cabelos.
Primeiro ia descansar e recuperar o fôlego, depois ia procurar o significado daquilo.
Antagonista de si mesma.
Que diabo seria isso?
Não queria parecer ignorante, mas ele dizia coisas que ela não alcançava!
Não ia dar certo, ela tinha que desistir logo.
Se a mãe sonhasse, estaria perdida.
Ele era o filho da patroa. Ela era a filha da empregada e ponto final.
E não é como nas novelas, a coisa é séria, ninguém quer saber desse tipo de casal, nem a mãe dela e nem a mãe dele. E já começava com essa história dele segurar suas mãos e dizer:
- não tenha medo, não seja antagonista de si mesma!
Será que era inimiga?
Parecia ser. Ela queria desistir logo, acabar com essa loucura de namorar o filho da dona Gisele.
- Já chegou?
- Oi mãe...
- No que tá pensando?
- Em uma palavra nova que ouvi e preciso criar coragem pra ir pesquisar no dicionário
- Ah, não vou nem perguntar qual é porque minha cabeça não dá pra mais nada!
Foi desmanchando o sorriso que inventara para receber a mãe.
Foi recolhendo a mão que ainda segurava o copo.
Foi se conformando com a vida sem graça.
Antagonista de si mesma, pois sim, ser ela é que eram elas! Diria a avó se não tivesse morrido.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Catarina

Estava sentada na sala esperando a neta sair do banho para trançar-lhe os cabelos.
Teve tempo para duas considerações.
A primeira de que o tempo passa, mas as meninas continuam as mesmas, esse culto aos cabelos longos, que são bonitos, claro, mas que tão tanto trabalho. Tão moderno os cabelos curtos! Mas um verdadeiro tabu naquela casa de mulheres!
A segunda é de que não conseguia deixar de se espantar com o fato de que sua filha, netas e genros chamavam aquele quadradinho de cimento, a sacada, de varanda!
Mal cabia um vaso acanhado de flor. Mas nem pensar em fazer ode às varandas de sua infância.
Amplas, com sombra fresca, flores subindo pelos pilares direto da terra, que vaso que nada, um ou outro com flor mais delicada. E cachorros e gatos dormindo na tarde quente, sons de crianças brincando no mormaço, vermelhas de alegria e calor.
- Pronto vó, começa daqui bem de cima pra ficar bem presa, tá bom?
- Tá bom! Mas que demora esse seu banho, hein? Não vai se atrasar?
- Não, eu falei pra minha mãe que era as três, mas de verdade será as quatro, sabe como ela é, atrasada!
- Sei.
- Dá tempo de você me contar uma história, de você pequena, me conta de novo do seu banheiro?
- Ah, mas você gosta de me fazer lembrar aquilo, que desconforto! E você acha engraçado?
- Não, não acho engraçado, acho difícil de acreditar.
- Pois quando eu era menina, o meu banheiro era uma casinha bem no fundo do quintal. Não tinha vaso sanitário. As pessoas faziam um poço bem fundo, faziam um piso de madeira, uma casinha mesmo, com um buraco e a gente fazia as necessidades ali. Tudo caía lá no poço.
- E você não tinha medo de cair também?
- Quando eu era bem pequena eu usava um piniquinho, depois minha mãe ia comigo, até que fui crescendo e comecei a ir sozinha, a gente vai se acostumando. Mas logo depois nos mudamos pra uma casa com banheiro e vaso sanitário e passou. Tudo passa, não é mesmo?
- É, tudo passa, mas eu espero que tudo passe pra melhor, que o meu passe para um banheiro maior, só para mim, não ao contrário.
- Acho que nem existe mais isso menina, não aqui na cidade, eu acho.
- Também não sei.
- Pronto, quase no fim, com o que vamos prender?
- Com esse elástico e depois você põe esse lacinho?
- Ponho, vai ficar linda! Não acha que no verão poderia cortar o cabelo? Depois ele cresce mais forte!
- Não vó, o meu tempo de ter cabelo comprido não vai passar tão rápido, sua espertinha!
- Pronto, está ainda mais bonita! Quem diria que sua mãe teria coragem de te dar meu nome, hein?
- Eu acho bonito vó, você não acha?
Fez que sim com a cabeça, as palavras ficaram enroscadas em um nó na garganta.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nasci de um ovo chocado ao sol

O trem insistia em aumentar o volume de seu barulho não importava o quanto apertasse os fones de ouvido.
Era uma viagem longa, uma viagem poeirenta, uma viagem sem sentido.
Sabia que ia voltar, mas não queria ir. Por que simplesmente não atendemos as nossas vontades e pronto?
De onde vem essa sequência de acontecimentos, como uma vassoura juntando as folhas de outono?
Não queria ir, mas a mãe disse que era importante e ali estava, tentando ouvir música, mas o barulho do trem não era amigável.
Não conseguia olhar pela janela. A paisagem além de sem graça passava rápido demais.
Mesmo assim viu um boi preto, ou era vaca? Olhando pra ele. Olhou mesmo, e aquele olhar perdido ficou parado no tempo.
A vó tinha cortado a árvore que cuspia folhas todos os dias, não importando se era primavera ou outono.
Todo mundo ficou chocado. Na cidade grande pessoas se amarram em troncos para que as árvores não sejam cortadas, mesmo naquelas infestadas de cupim e que vão cair em cima de um carro em uma chuvarada de verão.
E a vó! Essa estava cheia de varrer a calçada e o quintal todo dia. Não teve dúvida. Nunca contou quanto pagou ao tipo que nunca mais foi visto por ali. Onde será que a vó arranjou aquele tipo?
Na próxima parada compraria algumas revistas.
Não via o pai há sete anos. O que lhe diria?
E se descesse uma estação antes e voltasse sem lá chegar? O que a mãe diria?
Compraria também um gibi. Afinal, foi de Horácio que ele ouviu uma das frases mais tristes de sua infância: nasci de um ovo chocado ao sol...
Talvez tivesse sido melhor assim.

sexta-feira, 13 de março de 2009

História Eletrizante




Conheci apenas meu avô paterno Augusto e minha avó materna Amélia.
E, naquela ocasião, do alto dos meus 3/4 anos, não entendia porque é que eles não se casavam, já que eram meus avós e assim eu poderia visitá-los em uma mesma casa. Mas isso não se deu.
Minha avó era muito divertida. Ou melhor descrevendo, eu me divertia muito com ela, porque era tranquila, preocupada com a ordem, com minha formação e para mim esse seu jeito era uma fonte inesgotável de traquinagens.
Mas, não fui a responsável por essa história eletrizante, apenas me lembro dela perfeitamente, como se visse um retrato da cena e detalhes dos sons.

Vó Amélia passava temporadas em nossa casa. Em uma dessas ocasiões, minha mãe passava roupas na cozinha. Eu brincava no degrau da porta e minha avó contava uns "causos" para minha mãe, encostada na parede, com os braços cruzados.
Era alta, magra, bonita, cabelos longos sempre presos em um coque no alto da cabeça.
E, no meio da história, mencionou, uma que outra vez:
- nossa, estou esquisita, sentindo uns tremores de vez em quando
E minha mãe, sem olhar pra ela:
- senta, mãe!
E de novo: nossa, mas que estranho!
Minha mãe não teve remédio senão descansar o ferro e olhar para ela:
- Mas mãe! O grampo do seu coque está encostando na tomada!

Os tremores eram pequenos choques que ela estava levando.
Eu cai na risada, minha mãe depois de descobrir o mistério também. Dona Amélia ficou sisuda, perdera o fio da meada do "causo" e virou ela mesma a protagonista de um.

Naquela época não conhecíamos os protetores de tomadas tão recomendados para aquelas que estão nos rodapés por causa dos nossos bebês. Inovação é isso! Protetores também para as que estão no alto por causa dos nossos avós!