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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Cotidiano

Tem gente que nunca ganhou uma rosa.
Tem gente que nunca ganhou café na cama.
Tem gente que nunca andou descalço na chuva.
Tem gente que nunca viu o mar.
Tem gente que nunca colheu pitanga.
Tem gente que nunca desenhou um coração.
Tem gente que nunca cortou o dedo.
Tem gente que nunca nadou em rio.
Tem gente que nunca caçou passarinho.
Tem gente que nunca soltou pipa.
Tem gente que nunca viajou de trem.
Tem gente que nunca viu um pato nadar.
Tem gente que nunca jogou bolinha de gude.
Tem gente que nunca tomou sorvete.
Tem gente que nunca comeu os dois bicos do pão.
Tem gente que nunca quebrou um copo.
Tem gente que nunca usou havaianas.
Tem gente que nunca usou fantasia de carnaval.
Tem gente que nunca quebrou o braço.
Tem gente que nunca caiu da escada.
Tem gente que nunca viu um morceguinho dormir num arbusto de calçada, de um bairro movimentado de São Paulo, ao lado de uma van de cachorro quente, em pleno sol das treze horas.
Eu vi.
E até fotografei.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Observatório

Sou uma observadora de pessoas.
De diferentes tipos, em diferentes situações.
Gente é coisa incrível.
Caminho apressada pela rua e ela caminha sossegadamente à minha frente.
Calça jeans, jaqueta jeans de gosto duvidoso, tênis.
Insiste em manter os braços erguidos ajeitando o cabelo no alto, um irracional rabo de cavalo que não vai parar porque não tem nada além dos dedos para prender.
E esse gesto me deixa ver um pedaço da calcinha.
Tão infantil em seu elástico macio, amarelinha de florzinha.
Quando a calçada me deixa ultrapassá-la não resisto em olhar para trás para ver que rosto tem aquele cabelo teimoso. Não tem mais do que 16 anos e anda por aí mais inocente do que sequer imagina!
E em contraponto, me misturo com o grupo de homens engravatados, ternos mal cortados que impõem um peso maior do que a idade que muitos devem ter.
Falam de negócios, entremeados com palavrões.
Porque falam tantos palavrões? Todos parecem agitados e se eu pudesse recortar a cena e inserir num ambiente de bolsa de valores, poderia parecer uma cena em slow motion.
Mas para um observador de gente, nada melhor do que enfrentar a fila da Caixa Economica Federal. 2 caixas. Um homem e uma mulher. Ela, quase inexistente em suas idas e vindas.
Ele, interrompe uma operação e pergunta ao homem que está atendendo:
- alguém está chorando? Porque ouvira um burburinho e alguém rindo. Rindo, não chorando. Mas quase levantei a mão para responder:
- não estou exatamente chorando, mas posso começar a qualquer momento aqui esperando
Quando avança um, uma senhorinha se aproxima e se coloca na fila preferencial, já que é uma senhorinha.
Sim, acho que eles merecem atenção especial porque são mais velhos, mas também por isso têm mais tempo para esperar. Uma fila com cadeiras poderia ajudar. Mas a patrulha do politicamente correto já está de olho em mim, melhor mudar de assunto.
Gente. Observar pode nos ensinar muita coisa, mas também corremos o risco de esquecer outras tantas.
Gente. S. f. 1. Quantidade maior... 2. Determinado número de... 3. Número indeterminado de... 4. gênero humano... 5. O ser humano... 6. Habitantes de determinada... 7. Partidários ou sequazes... 8. Família ou... 9. Mil. Força armada

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Analogias

Ao longo de tantos anos venho acumulando gente em minha vida.
Não conceituando como amontoados em algum canto da minha memória.
Mas é interessante pensar na segmentação que é possível fazer de toda essa gente.
Gostaria de mapear. Gente da minha infância. De alguns lembro nome, sobrenome, doce preferido, cor do olho, uma passagem qualquer.
Da adolescencia e da juventude também. Lembro da data de aniverário da minha amiga Isabel (19 de maio) e da Cristina (14 de maio) e da Fátima (24 de novembro) e não me lembro da data de alguns amigos bem queridos do convívio atual.
Desgaste do disco rígido. Não quero discutir esse problema agora.

No período em que fiquei between jobs, como aprendi a descrever o período, pude avaliar o meu networking. E percebi que tenho um patchwork também. Pessoas que vamos encontrando e recomendando e apresentando ou descobrindo que já conhecemos e nunca sabemos de onde.

O fato é que eu gosto de gente. Gente alimenta a minha criatividade, a minha vontade de fazer humor. Só ando aborrecida há uns 7 anos, desde que Lula começou a aparecer mais do que eu porque sempre gostei muito de analogias. Mas, um dia, li o artigo de um homem muito inteligente, que infelizmente não me lembro quem era e nem onde li, mas o conteúdo ficou gravado em uma das minhas caixinhas. Dizia que quem usa muita analogia é porque não sabe defender as suas idéias apropriadamente. Não concordo 100%. Até porque considero as minhas analogias bem boas e as de Lula lamentáveis. Mas tenho evitado usar e me forçado a atravessar melhor esses anos de Lula pensando nele apenas como gente. Que outra coisa já não dá.