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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Fuga

Andou de lá pra cá, de cá pra lá e não tinha nada a dizer.
Voltou da escola mais cedo, com o joelho ralado.
A mãe, espantada, perguntou o motivo, mal ouviu a resposta e seguiu estendendo a roupa no varal.
Foi para o quarto que dividia com os outros dois irmãos.
Olhou para cá, para lá e pela janela através da cortina de pano barato.
Tirou o lanche da mochila e comeu.
Encheu o tapete de farelo.
Não gostava de tapete, sempre tropeçava, ficava desarrumado e era motivo para as broncas da mãe.
Mãe... Pra que cuidar tanto de uma casa tão pobre e tão feia? Precisava limpar tanto? Por tanto pano na janela, no chão, se era tudo pano velho?
Apertava o coração com medo do padre que dizia que ter inveja era pecado.
Ele tinha inveja do Sérgio. Que tinha uma casa linda, que tinha tênis de tudo quanto é tipo, sempre tão novos e limpos. Tinha a mochila mais bonita da turma. Nem levava lanche, comprava de tudo na cantina todo dia.
Ele tinha inveja. Tinha medo, mas tinha inveja.
Era por isso que tinha dado tanto nele pouco antes do intervalo, quando se esbarraram no corredor.
Não era motivo. Todo mundo falou. O professor, a diretora. Suspenso. Ele que sempre fora tão tímido e quieto que quase invisível? 
Queria poder nunca mais voltar para a escola e olhar para o que não tinha.
A mãe chamou para almoçar. Ele saiu pela janela pensando em nunca mais voltar.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Inveja

inveja. [Do lat. invidia] S.f. 1. Desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. 2. Desejo violento de possuir o bem alheio. 3. P. ext. O objeto da inveja: Era ele a inveja dos outros passistas, pela agilidade e elegância dos gestos.


A inveja é pecado.
Um dos 7 pecados capitais.
A inveja na forma de ciúme é proibida nos Dez Mandamentos da Bíblia.
E mesmo sabendo disso, eu confesso que tenho inveja.
E confesso porque acredito na remissão dos pecados.

Tenho inveja de um gesto. Um gesto simples e efetivo das mulheres de cabelos compridos.
Elas levantam as mãos, juntam os cabelos em um rabo de cavalo e glória das glórias, transformam aquele apanhado de cabelos em um coque que magicamente fica fixo com o mesmo cabelo. Sem presilhas, uma espécie de nó. Um encanto.
Um gesto.
Um movimento suave, muitas vezes descompromissado, como a mãe que mesmo sem interromper a conversa segura um menino pelo braço e interrompe o corre corre que atrapalha as visitas.
Tenho inveja desse gesto.
E não, não se trata de deixar o cabelo crescer, já que gosto dos cabelos curtos, cortes desestruturados, quase desalinhados! Não adianta.
Tenho inveja de quem é hábil no gesto de prender e dominar os cabelos.