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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O faraó e o marceneiro

Grande parcela das pessoas, em algum momento, acredita que foi alguém em outra vida.
E entre essa parcela, a maioria tem certeza de que foi rei, rainha, faraó, conde, duquesa, coisas assim.
Ninguém acredita que foi um pescador, uma aia, um cocheiro.
Há muitos anos um amigo estudioso dessas ciências fez uma análise de meu passado, baseado não sei em quê e me disse que eu era um marceneiro, que trabalhava muito bem com as mãos e que, apesar de analfabeto, adorava contar histórias.
Que minha distração era sentar-me na frente de casa, depois do trabalho, reunir um grupo de pessoas para contar histórias.
Muito apreciadas e de grande audiência.
Eu fiquei feliz de não ter sido rei ou rainha e encantada com a ilusão de ter sido um grande contador de histórias.

O mesmo se passa com o futuro.
Quando perguntamos a uma criança o que ela quer ser quando crescer, nossa expectativa é que diga médico, engenheiro, dentista, advogado e todas as terminações femininas, médica, engenheira, etc.
Para os mais conservadores.
Outros esperam modelo, cantor, apresentador de TV e há ainda os que torcem as mãos esperando pelo escritor, poeta, pensador! Esperam também por jornalista, arquiteto e agora todas aquelas coisas mais modernas de designer, web-designer, programador, e por aí vai.

Chocados ficam aqueles que, como eu, adorava perguntar para minha irmã caçula:
- Laís, o que vai ser quando crescer?
E ela respondia:
- Manicure...

E o caminho para uma vida feliz seria pensar, tudo bem, se for uma boa manicure, tiver boas clientes e puder ter uma vida de paz, com família e amigos, terá valido a pena.
E o atalho atávico nos levaria a pensar: Credo! Só se for em Paris... Ganhando em euros até ser a dona do salão!
Mas por que? Se puder ser feliz contando histórias por que não?

terça-feira, 24 de março de 2009

Invisíveis

No supermercado vejo uma modelo.
Muito alta, muito magra, muito loira e dança com as pernas num caminhar que não aprendi.
Todos a olham e ela sabe disso aprimorando sua dança.
Mas ela não é mais bonita do que a menina que minutos depois faz a minha unha.
Ela não exibe seus olhos azuis petróleo porque precisa manter a cabeça baixa em sua concentração.
Seu cabelo negro preso com displicência não ganha carinho de escovas e produtos importados.
Mas ela é linda.
O sorriso quando comenta alguma coisa e quando agradece ajudaria a vender qualquer produto, de creme dental a uma viagem a Paris.
Mas ela é invisível em seu caminho de casa até o ponto de ônibus, do metrô até o salão de beleza, do balcão de fast food até a lojinha mais próxima, experimentar uma sandalhinha que está em promoção.
Ela passa e não vê que está rodeada de invisíveis.
O moço do táxi.
O entregador de pizza.
O varredor de rua.
A moça do café.
O porteiro.
O segurança do prédio.
Não, eles não tem os olhos azuis e as feições delicadas, mas para quê?
Parada, esperando, em muitas situações, conto nos dedos de uma única mão quantas pessoas são capazes de um sorriso, de um bom dia, de um como vai? de um obrigada, de um por favor.
São invisíveis.
Só se destacam da paisagem coloridos por nossa fúria quando algo dá errado e neles queremos descontar toda a nossa frustração.
Nesses momentos não há mãos e pés que cheguem para contar quantos de nós usamos de impropérios e todo tipo de palavras descabíveis.
Invisíveis em seu (quase nosso) colorido destino.