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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Olhar Periférico

Os cabelos pareciam o de um cantor de reggae e ele usava um macacão laranja, não por ser cool, mas porque prestava serviços para a prefeitura limpando o canteiro central da avenida movimentada.
Manhã cinzenta. Ele estava de costas, concentrado. Colorido.

Dobro a esquina e não passa das dez horas da manhã.
Enquanto livro o carro dos buracos da rua a cena entra em foco.
O casal toma uma cerveja no boteco da esquina.
Por um momento penso que estou na beira-mar. Por outro segundo verifico mesmo as horas.
Depois reconsidero pensando que estamos na sexta-feira da semana que fechou o carnaval.
E por fim me lembro de ter lido em algum lugar que o Mussum diria que você só é alcoólatra se bebe todo dia, se bebe toda a noite tá tranquilis. Perigoso.

Ela queria ter nascido com os olhos azuis e os cabelos longos e loiros.
O destino não se importa com nossos desejos mais íntimos e nos pare conforme ele mesmo desenha.
Mas ela, desafiadora, tingiu os fios sofridos da cor que bem entendeu.
Conversava com o possível príncipe encantado na calçada.
Não havia nenhum cavalo branco, apenas uma moto surrada, dessas que odiamos quando estão em movimento ameaçando a vida de nossos retrovisores.
Ela ria tímida enrolando a ponta dos cabelos nos dedos.
Namorico.

A vida vive ao nosso redor.
Eu presto atenção no farol, no buraco e no ciclista, mas as cenas do cotidiano invadem a minha visão periférica e abastecem a minha alma.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Minha pequena pequena

minha pequena me acompanha enquanto eu acompanho um grupo online
quer conversar
quando termino eu digo: agora vou aproveitar e fazer meu post, sobre o que posso escrever? faz uma poesia... e ela me diz
- sou péssima em poesia
- e em que você é boa?
- em falar sobre animais, lebres, camundongos, por que não escreve sobre mim? assim posso ficar famosa, quantos seguidores você tem?

e fico pensando que esse mundo que habito hoje se diverte comigo que conheci telex e fiz curso de datilografia

a minha caçula ouve falar sobre isso porque eu falo muito e sobre todo tipo de assunto e pronto
ela é linda - e eu sou a mãe dela, e pronto de novo, já está contaminado
ela é inteligente e me diz que gosta da frase: uivando para uma lua de concreto, que ouviu em um episódio de Simpsons
pronto, ela não tem idade para ver Simpsons, mas em compensação não vê novelas, empatei com os pedagogos!
ela é meiga
ela tem um jeito especial de olhar quando está em apuros que nenhum apuro sobrevive e as broncas perdem as forças
a minha caçula aperta as mãos unidas de um jeito que só ela
tem o cabelo de uma cor dourada que é só dela
ela me espera terminar de trabalhar
meus dias úteis são longos,
mas seriam inúteis se eu não tivesse essa pequena para amar

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Pedaço de poema

e se eu te disser uma palavra dura
saiba que ela não dura mais que alguns segundos
que depois ela me castiga a alma
mais do que qualquer olhar frio e gesto contido
e se eu te disser que uma palavra cura
pode acreditar porque tenho cicatrizes que posso mostrar
mas se eu ficar em silêncio
quando o silêncio pode ser devastador
então se afasta porque não tem amargura maior
que o abandono das palavras em noite escura
se eu te disser palavra dura
saiba que em mim não cura
a tristeza do teu olhar

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mãos Cegas

Abriu a bolsa.
Sabia que não precisa de nada do que estava lá.
Olhou, procurou com as mãos cegas.
Sabia que não encontraria ali nada do que estava procurando.
Estava procurando a calma de dias passados.
A ternura das palavras ditas sem preocupação.
Procurava um jeito de desaparecer.
Um jeito de recomeçar.
Um jeito de reconhecer.
Abriu a bolsa, mas procurava dentro de si um novo jeito.
De olhar, de sentir, de falar, de tocar.
De contar que aquela história não tinha importância.
Que aquele momento foi muito infeliz.
Que aquele futuro que planejaram ainda era possível.
Procurou com as mãos cegas um caminho que sabia nunca estaria pronto.
Que nunca estaria livre de pontes rotas, de pedras silenciosas esperando a lua criar sombras.
Nunca se viu sombras tão lindas quanto às geradas pela lua.
Serenas, suaves.
Diferente das sombras do sol. Duras, marcadas. Irrequietas.
Abriu a bolsa enquanto passavam porque assim não precisava levantar os olhos.
As mãos cegas protegeram o coração daquele batuque ritmado e tudo passou.
Nunca mais seria como antes, mas pelo menos, agora, tudo estava de novo em seu lugar.