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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Estado Sólido

Voltar ao estado sólido do amor.
Em um tempo em que não há estado melhor para se morar.
Pensar que já se passou da metade, que nenhuma metade é pior que um terço e que nada supera tudo que pode ser inteiro.
Inteiramente concentrada no que poderá ser é um estado sólido que nos impede de ver o que está sendo.
É agora, é aqui. Em cada segundo que se despede do inverno e se prepara para a primavera.
Coitada da primavera. Estação linda que se abre em flor, mas que no fundo, no fundo, sofre de uma ansiedade de passar rápido porque todo mundo, no fundo, no fundo, espera o verão.
Voltar ao estado líquido do choro que lava a alma.
Voltar ao que já foi na doce lembrança do porta retrato empoeirado.
Que imagens têm do passado?
Que cheiros, que cores, que amores?
Voltar ao estado de não estar.
Sentar e se emocionar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Indolência

A primavera é uma morena indolente, que pega os dias de um inverno cansado e os entrega ao verão.
Com sedução, com indolência.
Dias de primavera com sol preguiçoso, com vento que sopra em qualquer direção.
Dias que convidam a sorrir e prestar atenção.
Almoço sem fome, caminhada sem pressa.
O desfile dos grupos que saem para almoçar.
O quase uniforme das calças pretas com suas camisas brancas. Algumas alinhadas, outras em desalinho com o sobrepeso.
Saltos improváveis em joelhos que não se sustentam.
Quase todos os cabelos são loiros. Ou castanhos? Já se confundem no cruzar das ruas.
Quase todos os ternos são mal cortados e os ombros desaparecem na esquina das costuras apressadas.
A calçada desafia saltos finos e os bicos dos sapatos engraxados.
Os buracos são trapaceiros.
Os sorvetes vem derretendo a dieta que não se cumpriu.
A saia é bonita, mas curta demais.
O casaco é bonito, mas a cor não conversa com nada mais do que decidiu trajar.
Trajar é uma palavra perigosa.
A primavera é uma morena indolente.
O meio do dia pode mudar nossa direção.
Olhar a vida com indolência pode nos ensinar paciência e sim, eu preciso muito dessa lição!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Primaveras

Balançou a cabeça para sentir o cabelo nos ombros nus.
Depois passou a mão na testa para descortinar os olhos.
Não eram azuis. Não eram de Capitu.
Mais um ano e seria outra a postura ao apresentar o documento.
Segurança, confiança, despeito pelos guardas que guardam os lugares onde quer estar.
E não pode.
O pai vai tentar impedir.
A mãe vai tentar negociar, fingir que não vê.
Balançou a cabeça.
Balançou os quadris.
A escola já ficara a umas três quadras, mas hoje não.
Hoje era dia de apenas passear e pensar e planejar um futuro luminoso.
Luminoso...
Precisava mesmo era tomar um sol, a primavera é sempre assim fresca?
Ergueu os ombros nus.
Quem precisa saber?

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Nicanor

Inóspita pode ser a vida
De trânsito carregado
De horário apertado
De fome fora de hora
De lanche beliscado no carro
Inóspita é a motorista do Audi
Impaciente, descontente ser
Inóspita é a parede que separa
Inóspita pode ser a vida se você
não vê o que é transparente:
que a arrumadeira precisa de um sorriso,
que o porteiro precisa de um bom dia,
que a moça do café precisa de um elogio,
são presentes fáceis de dar
e hoje aprendi mais um:
flores e cumprimentos na manhã
de trabalho corrido
só para celebrar a chegada da primavera
só?
Inóspita pode ser a vida se não souber dizer:
obrigada Nicanor!