Sonhava ser nome de rua.
Sonhava com coisas tão bobas.
Ficava pensando que se salvasse alguém de um incêndio, um bebê, uma senhorinha, poderia ter sua foto no jornal e depois virar nome de rua.
Sonhava com isso.
E ficava pensando que coisas aquelas pessoas tinham feito para terem seus nomes nas placas da rua.
Um era médico que ele sabia.
O outro era fundador da cidade.
Um dos nomes mais esquisitos tinha sido um padre alemão que ensinava ler e escrever além de rezar.
Sonhava ser nome de rua.
Talvez se fizesse um grupo bem grande de amigos e depois se candidatasse a vereador, depois poderia ser nome de rua.
Confessava esse sonho a qualquer um que lhe desse atenção.
Normalmente a mãe.
A avó também, mas essa mal ouvia, nem devia entender o que era tudo aquilo.
Um dia teve um incêndio enorme na loja de tecidos na rua principal da cidade.
Estava do outro lado da calçada.
Não duvidou, entrou, ajudou as moças a saírem, voltou e salvou uma peça inteira de tecido desses que se usa para fazer vestido de noiva.
Ficou com o cabelo sapecado. Com o braço e as mão queimadas.
Esperou uma notícia no jornal. Nada.
Sonhava ser nome de rua, outro sonho não tinha.
Viver pelo simples pode ser mais doloroso do que viver pelo glorioso.
Quem define?
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Bicho de rua
Os bichos das ruas e das casas que ficam abertas para as calçadas são uns bichos dos quais não posso esquecer.
O gato branco na calçada, olhos tão verdes e cristalinos que cor como aquela não há de ter em nenhum pantone.
Cara de bravo, mas um encontro de olhar e lá vem ele, naquele rebolado, ronronado de quem sabe que vai ganhar carinho.
E depois da cabeça, pernas para o ar para ganhar um chamego na barriga.
Pelos duros de quem anda despreocupado pela vida, espreitando pombas e passantes.
As pombas...
Que despertam ânimos de extermínio nos mais exaltados. Nos que tem medo dos piolhos. Dos que não gostam do arrulhar, dos passinhos apressados buscando farelinhos.
E me encantam.
E me encantam as corujinhas que me ignoraram no estacionamento do supermercado.
Sábado quente, noitinha cheia de aleluias na luz do poste que caindo indefesas, nada mais do que refeição para as corujinhas.
Foto. E enquanto me aproximo para caprichar, a mulher ralha com a filha:
- credo, não olha, dá azar!
Os bichos que não posso cuidar.
Os bichos que cuidam de mim porque basta olhar para mudar o humor.
As andorinhas que nem se vê mais por aí.
O cachorrinho preto, que sim, tem casa, mas hoje de manhã, com o portão fechado, esperava resignado na calçada, já todo molhado da chuva.
E os bravos.
E os machucados.
E os perdidos.
Os bichos para mim são almas circulando por aí. Não me dizem muito bem a que vem, mas uma razão, e muito boa ah tem, oh se tem!
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