A sala de espera do dentista precisa de uma pintura nova, cadeiras novas e de um ventilador que não se sinta humilhado por ter que fazer as vezes de um aparelho de ar condicionado.
Estou com raiva.
Se soubesse porque era mais fácil desfazer, mas eu não sei.
Ou sei e não quero listar, pensar, encarar, resolver?
Também não quero decidir isso. Tanta coisa para decidir.
Tão cansada de tudo sempre tão igual e nem sempre do meu jeito.
Melhor pensar no ventilador que tenta me refrescar.
Sábado de sol.
E ela, a mocinha da recepção, indiferente à minha cara de poucos amigos me fala do tempo.
Do sábado ensolarado. Do calor.
E me conta sem pudor da sexta-feira passada fria e chuvosa e sobre o casamento do amigo Manoel.
E me dá detalhes do vestido emprestado que usou.
Carol.
Por que as pessoas escolhem nomes tão bonitos para depois simplesmente rasgarem ao meio as sílabas indefesas?
Já me explicaram várias vezes, nunca encontro um argumento que ponha fim à essa indagação.
Meu braço arranhado.
Uma música antiga em uma rádio perdida no dial.
Esse sábado único.
Essa raiva besta que não me deixa aproveitar a vida direito.
O dentista olha, me recomenda bochechos de salmoura, marca uma nova data para quando o ano novo chegar.
A mocinha da recepção é tão simpática que tenho vergonha da minha raiva inútil.
Ainda bem que, conforme me ensinou a minha mãe, disfarcei meu mau humor o tempo todo e não fiz nenhuma mal criação!
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Reunião de pais
Sábado de manhã.
Manhã mesmo, sete horas.
Banho, um café, um alô para aqueles que ficarão.
Um chamego na gata, um afago no cão.
E vamos, minha primogênita e eu, para a reunião na escola.
Oito horas da manhã.
- Ai que frio na barriga...
- Mas por quê? Não está tudo bem?
- Sei lá, eu devo ter deixado de fazer algum dever, assim né, eu fiz o dever, mas esqueci o caderno...
- Hum...
- Olha, como hoje é a festa da caçula, vamos falar pro papai só os pontos positivos, tá bom? Depois que passar tudo, aí falamos os pontos negativos.
- Não se preocupe, acho que tá tudo bem!
- É, eu fui mal em matemática, mas você vai ver, a classe inteira foi! Esse bimestre não deu certo o jeito que o professor fez as coisas...
Estacionamos. O frio na barriga continua. Ela esfrega as mãos. Chegamos à sala, 7h58, a professora ainda não está.
- Mãe nós chegamos no horário, ela não está, vamos embora!
- Calma, faltam 2 minutos!
A reunião é tranqüila. Elogios. É uma menina interessada, motivada, que sim, teve dificuldades em matemática, que fala demais em Geografia e que, ao ser repreendida, não aceita a reprimenda. E, como já havia antecipado, esqueceu o caderno umas duas vezes.
Nenhum delito grave, convenhamos.
Falamos no caminho sobre todos e cada um dos pontos.
- Mãe, não é que eu não aceito a reprimenda, eu argumento, a professora é que não aguenta a contra-argumentação!
Eu aguento e discutimos longamente o melhor caminho para ela, já trilhado por mim, na difícil arte de dominar palavras e posturas, mas como é sábado de festa e amigos, não vamos às tréplicas nesse momento, tudo foi anotado e constará nos autos.
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