Amou um amor amadurecido e de certa forma endurecido.
Já tinha quarenta anos e nenhuma ilusão adicional.
Mas sabia entender os altos e baixos. Reconhecia o olhar de tristeza.
Sabia quando algo bom ia acontecer.
No final de semana, quando passava os olhos pelo jornal, vendo sem olhar, lendo sem entender, parava o olhar em um ponto qualquer da parede e sentia-se tranquilo por apenas estar ali.
Um amor sem pressa, sem pressão. Um amor sem paixão.
Lustrava os sapatos no final do domingo enquanto concordava com o sabor da pizza que pediriam logo mais.
Manoel nunca imaginou desposar mulher tão bonita. Tinha medo de ponderar e de perder.
Qualquer gesto adicional poderia desmanchar aquele castelo de cartas.
Casa limpa. Flores sempre frescas na mesa da sala. Toalha alinhada, ainda que não de linho.
Cada vez que ensaiava um gesto mais carinhoso, visualizava uma cena de repulsa, uma conversa dura e fim.
Amou um amor amadurecido e de certa forma endurecido, por puro medo de perder.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Morte súbita é que é morte verdadeira
Amanheceu chovendo, mas essa era uma variável que ele não podia controlar.
Já decidir se sairia da cama sim, estava sob seu comando. Preferiu sair. Elencou rapidamente os pros e contras e preferiu encarar o dia chuvoso.
Prometeu a si mesmo que observaria cada ocorrência e avaliaria o poder de controlar que lhe caberia e, assim, evitaria qualquer contratempo.
Tomou banho, vestiu-se, tomou café. Nada de errado.
Quando já estava no carro lembrou-se de que precisaria de um guarda-chuva e voltou para apanhá-lo. Variável controlável, nervos no lugar.
Seguiu seu caminho habitual. Respeitou todos os faróis, todos os limites de velocidade. Ignorou a sonora buzina quando diminuiu e parou para deixar um carro sair de uma garagem.
Já no trabalho, cumprimentou discretamente os que foi encontrando.
Tudo na medida certa. Nem entusiasmado demais, nem mecânico demais.
Espiou o jornal antes de conferir as notícias da internet.
Um ritual, uma obrigação com a sua tradição. Seu lado old fashion reforçado a cada dia. Insuportavelmente coerente com a boa e velha notícia.
Leu alguns e-mails, conferiu a agenda e atendeu dois ou três telefonemas.
Olhou o relógio e deu um sorriso de satisfação. Já passava das dez e nada, absolutamente nada havia perturbado a calma que determinara para si.
Foi sua última constatação, porque no momento seguinte, uma dor aguda lhe subiu pelo braço, agarrou-o pelo pescoço e apertou seu coração como antigamente as mamas apertavam o pescoço das galinhas. Ainda fez um último gesto antes de cair derrubando cadeira e objetos da mesa.
Ouviu passos apressados e vozes que foram desaparecendo para sempre no mundo novo que desenhara para si.
Já decidir se sairia da cama sim, estava sob seu comando. Preferiu sair. Elencou rapidamente os pros e contras e preferiu encarar o dia chuvoso.
Prometeu a si mesmo que observaria cada ocorrência e avaliaria o poder de controlar que lhe caberia e, assim, evitaria qualquer contratempo.
Tomou banho, vestiu-se, tomou café. Nada de errado.
Quando já estava no carro lembrou-se de que precisaria de um guarda-chuva e voltou para apanhá-lo. Variável controlável, nervos no lugar.
Seguiu seu caminho habitual. Respeitou todos os faróis, todos os limites de velocidade. Ignorou a sonora buzina quando diminuiu e parou para deixar um carro sair de uma garagem.
Já no trabalho, cumprimentou discretamente os que foi encontrando.
Tudo na medida certa. Nem entusiasmado demais, nem mecânico demais.
Espiou o jornal antes de conferir as notícias da internet.
Um ritual, uma obrigação com a sua tradição. Seu lado old fashion reforçado a cada dia. Insuportavelmente coerente com a boa e velha notícia.
Leu alguns e-mails, conferiu a agenda e atendeu dois ou três telefonemas.
Olhou o relógio e deu um sorriso de satisfação. Já passava das dez e nada, absolutamente nada havia perturbado a calma que determinara para si.
Foi sua última constatação, porque no momento seguinte, uma dor aguda lhe subiu pelo braço, agarrou-o pelo pescoço e apertou seu coração como antigamente as mamas apertavam o pescoço das galinhas. Ainda fez um último gesto antes de cair derrubando cadeira e objetos da mesa.
Ouviu passos apressados e vozes que foram desaparecendo para sempre no mundo novo que desenhara para si.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Nem tudo o que tem reflexo tem nexo
Amanheceu chovendo.
Amou um amor amadurecido e de certa forma endurecido.
Quando criança nunca pensava que chegaria aos quarenta anos.
Causou inveja em todos quando cantou a música que fora escolhida. O destino deu a ela, a ninguém mais do grupo, aquela voz límpida, suave e afinadíssima. Logo a ela que era filha de pais surdos-mudo que nunca a ouviriam cantar.
Tentou sentar-se na cama mas não teve forças e voltou a deitar. Deixou-se abandonar.
Espiou por cima do muro, não viu ninguém, saiu correndo e atravessou a rua. Nunca mais foi visto!
Era um ponto de ônibus como qualquer outro até o dia em que a conheceu ali. Marcou sua alegria e sua tragédia.
O bebê estava alimentado e limpo mas mesmo assim não parava de chorar.
O trem insistia em aumentar o volume de seu barulho não importava o quanto apertasse os fones de ouvido.
Tudo foi ficando escuro ao seu redor e a última coisa que procurou enxergar foi um lugar onde pudesse se apoiar mas não teve tempo.
Que diferença faz a causa da morte para quem morreu?
Se tudo parece desconexo é apenas porque é desconexo.
Tentei com todas essas frases começar o post de hoje, que não consegue preencher a lacuna de ontem, dia útil sem texto, porque sem tempo, sem computador, sem palavras.
Cada frase guarda em si uma longa história. Que poderei desenrolar quando outra quinta-feira chuvosa e escura atormentar minha predilação pelas quartas-feiras.
Amou um amor amadurecido e de certa forma endurecido.
Quando criança nunca pensava que chegaria aos quarenta anos.
Causou inveja em todos quando cantou a música que fora escolhida. O destino deu a ela, a ninguém mais do grupo, aquela voz límpida, suave e afinadíssima. Logo a ela que era filha de pais surdos-mudo que nunca a ouviriam cantar.
Tentou sentar-se na cama mas não teve forças e voltou a deitar. Deixou-se abandonar.
Espiou por cima do muro, não viu ninguém, saiu correndo e atravessou a rua. Nunca mais foi visto!
Era um ponto de ônibus como qualquer outro até o dia em que a conheceu ali. Marcou sua alegria e sua tragédia.
O bebê estava alimentado e limpo mas mesmo assim não parava de chorar.
O trem insistia em aumentar o volume de seu barulho não importava o quanto apertasse os fones de ouvido.
Tudo foi ficando escuro ao seu redor e a última coisa que procurou enxergar foi um lugar onde pudesse se apoiar mas não teve tempo.
Que diferença faz a causa da morte para quem morreu?
Se tudo parece desconexo é apenas porque é desconexo.
Tentei com todas essas frases começar o post de hoje, que não consegue preencher a lacuna de ontem, dia útil sem texto, porque sem tempo, sem computador, sem palavras.
Cada frase guarda em si uma longa história. Que poderei desenrolar quando outra quinta-feira chuvosa e escura atormentar minha predilação pelas quartas-feiras.
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