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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dolores

Quando chovia, a única preocupação era saber se o gato estava abrigado dentro de casa.
Depois era verificar se nenhuma roupa sobrara no varal.
E então havia o ritual de olhar janela por janela se todas estavam bem fechadas.
Acendia as lâmpadas mesmo que estivesse claro para se certificar de que não faltaria energia.
Desligava da tomada todos os equipamentos elétricos.
Recolhia o tapete da varanda em caso de respingar.
Separava alguns vasos. Uns para tomar chuva outros para proteger dos pingos grossos.
Quando chovia, sentia-se renovada e ocupada.
Tão ocupada que quando a chuva passava voltava em seus passos refazendo tudo o que havia feito e, então, sentava-se na poltrona preferida para se lembrar de quando a casa era cheia de gente e de como foi se esvaziando com o tempo.
Quando chovia, ela achava que já estava pronta para morrer.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Turbulência

tracei minha rota
tracei minha reta
as palavras que não disse e era a hora certa
as palavras que disse na hora errada
leio os letreiros amarelos que me avisam
para tomar cuidado com colisão traseira
e que no próximo painel ainda me lembra
de dirigir mais devagar com chuva
chove com vontade
chove decididamente
a chuva não tem medo de cair
esparrama pingos grossos pelo chão
pelos vidros que me cercam, mas não me enquadram
nunca me senti enquadrada
sempre desajeitada
deslocada
sempre mais de mim em lugares pequenos
sempre me sobrei apesar da minha miudeza
mas tracei a minha rota
tracei a minha reta torta
o gesto que não fiz
mas o olhar que me escapuliu e todo mundo viu
chove na minha estrada seca
leio os letreiros e as palavras piscam para mim
estamos aqui e não estamos nem aí
para os seus poemas esfarrapados
sem rimas nem versos
sigo meu caminho, não me importo com esses arroubos
as palavras gostam de dançar, mas são indomáveis
na maioria das vezes

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

nada

apertou o passo, mas a chuva não veio
arrumou a gaveta, mas não coube mais nada
lavou o copo, mas não teve coragem de macular a gotinha com o pano de prato tão feio
olhou o relógio, o tempo não se acelerou
apertou o peito, a dor não passou
olhou a janela, mas nenhum passarinho cantou
ligou a tv, mas nem pra tela olhou
discou um número, mas desistiu de falar alô
abriu a geladeira, mas nem o leite piscou
estava sozinha no mundo, e nem deus a escutou

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Choveu

Choveu no meu sorriso
Choveu no meu sapato
Choveu no meu cabelo
Choveu na minha bolsa
Choveu no meu coração
Choveu no meu relógio
A chuva chove sem se preocupar
E eu não me ocupo com a chuva
A chuva faz parte de mim
E eu faço parte da chuva
Quando ela vem eu me preparo
Quando eu me preparo ela me surpreende
Às vezes ela passa ao largo
Choveu na minha lágrima
Choveu na minha camisa
Quando me lembro das chuvas em tardes infantis
Eu me vejo sonhando com um futuro de sol
Choveu nos meus sonhos
E eles floresceram
Estavam escondidos lá naquela despreocupação de criança
Ainda chove
Sempre chove
Eu sou parte da chuva
A chuva é parte de mim
Eu e a chuva choramos juntos
Um destino que não tem fim

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Álibis


E o que aconteceu naquela quarta-feira foi que saí desavisado
de que choveria e não levei a capa nem o guarda-chuva. Aliás,
esqueci-me até do chapéu.
Saí atrasado, apressado.
Queimei a mão na caneca de café, pisei no rabo de Aristodemo,
que como sempre, dormia na porta da cozinha.
A verdade é que não dormi bem. Tive pesadelos, fui picado por
pernilongos.
E como se não bastasse a noite infernal, o dia! Tem muitas
goteiras na repartição, eu não sabia se trabalhava ou se acudia os
móveis do aguaceiro.
Não pode me poupar? Vou para casa, tomo um banho e volto.
Como naquele dia, saí sem o guarda-chuva e preciso tirar essa roupa
molhada.


Faço questão de dizer que não sei de nada. Vim porque fui
obrigada.
Naquela quarta-feira eu fiz o que faço todos os dias. Sou uma
mulher de respeito, não fico de lá para cá.
Levantei cedo, fiz o café, arrumei a mesa e fui lidar no quintal.
Vi quando ele saiu porque Aristodemo gritou. Ele sempre pisa
no rabo do bichinho.
Eu sabia que ia chover porque tinha escutado no rádio. Por
isso nem fui para o tanque, fui fazer uns consertos nas roupas. Pregar
botão, arrumar barra, essas coisas.
Não posso ajudar. Não saí de casa, eu tenho medo de chuva.


Gozado, eu não me lembro bem daquela quarta-feira. Mas
também, não sou um homem de ficar recordando, observando,
guardando detalhes.
Sei é que choveu muito ali pelas dez da manhã.
Disso eu recordo porque era a hora que eu ia ao Dr. Veiga e
nem pude sair. Meu dente está sem arrumar até hoje.
Fiquei na sala fazendo contas, sabe como é, hoje em dia é tudo
na ponta do lápis.
Pois é isso, fiquei em casa o tempo todo.
Almocei. Sentei um pouco na varanda e fiquei olhando a
chuva.
Passei o dia olhando a chuva.


terça-feira, 26 de abril de 2011

Parece que vai chover

O ônibus não passa mais nesse ponto, de trem não dá pra ir.
O jeito é caminhar as oito quadras. Mas eu tenho medo de número par, então vou descer aqui e subir por ali, assim completo nove quadras.
Não adiantou muito, o lugar está fechado. Não tem cara de que fosse aqui, mas o endereço está certo.
Vai ver mudou.
O bar da esquina é horrível, mas é o único lugar onde dá pra comprar uma garrafinha de água.
Se tivesse copo eu preferia. Bebia e já jogava fora. Eu não aguento gente que bebe cinco litros de água e ainda anda com uma garrafinha pra cima e pra baixo.
A Maria diz que o médico dela falou que é assim que tem que ser.
Sei. A Maria tem m monte de doenças que eu não tenho.
Algum ônibus há de passar pra eu voltar. A pé acho que não vai dar.
Podia sentar um pouco aqui e descansar.
Descansada eu posso enfrentar.
Isso parece a minha vida.
Gente que tem tudo e não consegue administrar seus fracassos!
Igual patroa que implica com a empregada que não passou direito a blusa. Pra quê?
Vai ficar socada lá no armário porque não serve mais.
Aí, em vez de admitir que engordou quer brigar com a coitada.
Melhor perguntar se passa um ônibus aqui, parece que vai chover.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Santo sem andor

O domingo foi chuvoso.
A piscina aquecida acalmou a ansiedade das crianças que puderam mergulhar mesmo com aquela chuvinha fina. Uma chuvinha de sorriso de lado, de quem sabe que não é bem vindo, mas se diverte impondo sua presença.
À noite também choveu.
E a segunda-feira, como era de se esperar, amanheceu chuvosa.
Uma chuva sem preguiça de cair. Forte, saudável, sem piedade de molhar os pardais não abrigados nos beirais dos telhados.
E as estradas são um capítulo à parte em dias de chuva.
Uns mais atrevidos do que outros. Uns mais precavidos do que outros e em certos momentos, tanto uns quanto outros podem ser prejudiciais à saúde dos motoristas diários dessas grandes avenidas.
De repente me senti em uma procissão sem santo no andor, tamanha a lentidão em que a fila seguia.
Quando voltamos a mudar marchas e acelerar, um santo apareceu pouco antes de uma curva fechada.
Um santo homem que caminhava pelo acostamento, sem se abrigar da chuva, mas passo decidido de quem vai trabalhar.
Fez um sinal com a mão, alertando sobre a velocidade.
Um gesto simples de quem cumprimenta um amigo.
Um gesto de quem observa os controladores de tráfego.
Um gesto de quem, mesmo caminhando na chuva, se importa com quem vai confortavelmente instalado, aquecido, ouvindo música.
Um gesto que, obedecido, impediu uma grande colisão porque logo após a curva, uma fila enorme de carros e caminhões se formara, de tal sorte que não víamos antes de lá chegar e de má sorte porque sem o santo do acostamento não teríamos como evitar o choque.
Ele passou por mim. Ele passou por nós.
Espero que os santos dos andores possam agradecê-lo pelo gesto que para mim valeu muito e do qual, a essa hora, ele nem deve se lembrar.
Alguém mais além de mim?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Não vou escrever

Hoje não vou escrever nada.
Porque estou cansada, porque sou muito rígida comigo mesmo e com esse trato de escrever em todo dia útil.
Porque estou ansiosa.
Porque a chuva fraca aqui, forte ali não permite um passeio à Torre de Pedra.
Porque nunca escrevi um discurso e acho que já é hora de escrever.
Hoje não vou escrever nada.
Porque queria comprar um sapato novo e não fui.
Porque o email que espero não chegou.
Porque a resposta ainda não foi sim.
Porque a outra resposta ainda não foi não.
Não vou escrever. Estou cansada.
Tenho muitas coisas pra decidir.
Não sei onde estacionar o carro.
Não sei quanto tempo levo pra chegar.
Não sei por que ainda preciso revisar.
Hoje não vou escrever nada porque não quero deixar a má impressão de que escrevo qualquer coisa só porque tenho que escrever.
Estou rebelada, não vou escrever enquanto não me convencer de que tudo vai voltar a andar com mais vagar e sossego.
Onde estão as peças do meu quebra-cabeça se estavam todas aqui e nenhum vento soprou?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma poesia

E então choveu
Como há muito vinha chovendo
E caminhei na beira dos muros
Tentando me proteger
Não dos pingos grossos
De mim mesma
Do medo de chegar
Do medo de secar os pés
Do medo de estacionar
E então o sol apareceu
Como se o verão nunca mais fosse acabar
E eu me esgueirei pelas sombras
Não das árvores  
Das marquises
E do meu medo de me confrontar
Vou deixar para pensar depois
E então respirei
Aliviada como quem descobre que pode sorrir
A natureza que brota em mim é selvagem
Como a samambaia que brota na madeira
Abandonada no quintal
Ela fere sem se importar
E então anoiteceu
Mas não anoitece para sempre
E não improvisei nenhuma luz
Vou apenas esperar

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A culpa não é da chuva

A culpa não é da chuva.
A chuva chove o calor que absorveu.
A água leva o que entre ela e seu caminho se estabeleceu.
Eu gosto da chuva.
Eu gosto do barulho da chuva.
Eu gosto do cheiro da chuva.
Ainda mais na mata molhada.
Eu gosto do céu quando se veste de escuro para uma solenidade.
Eventos curtos, antes da entrada triunfal do sol e de seu séquito de esplendor.
A culpa não é da chuva.
E a culpa não é das pessoas.
E quem pode cuidar das pessoas?
Quem pode prestar atenção na observação do especialista que pondera:
sempre analisamos impacto ambiental perguntando: o que a construção trará de impacto? Quando na verdade a primeira pergunta deveria ser: como esse lugar, essa vegetação, esse terreno pode impactar minha construção?
A culpa não é da chuva.
Os anjos estão trabalhando dobrado, improvisando para receber tanta gente sem ser anunciada.
E São Francisco, espero, está a postos para cuidar dos patos e marrecos, dos cães e gatos e dos passarinhos, por quem pouca gente vai se lamentar.
A culpa não é da chuva.
Vamos cancelar o carnaval e respeitar nossa tragédia.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A festa

Ele não gostava de festas e ficava amuado quando se sentia na obrigação de ir a uma delas.
Final de ano então, um horror.
O cabelo nunca estava em ordem.
Os poros da barba sempre inflamados em véspera de festa e, não raro, uma espinha ou outra resolvia aparecer.
A mãe sempre falava que era nervoso. Nervoso de ficar no meio de muitas outras pessoas.
Que não sabia para quem havia puxado tão tímido menino.
E ele não se atrevia a responder.
Não a uma mulher que não saía de casa a não ser para ir à missa e que nunca mais fora ao cinema desde que ficara viúva.
O fato é que não gostava de festas e no final do ano elas pipocavam.
Não festas que tivesse vontade de ir, onde encontraria amigos, não, dessas ele não sabia, não era convidado, não estava envolvido, não tinha amigos.
A não ser o Zé, igual aquela música que alguém escrevera inspirado nele, tamanha coincidência!
A roupa sempre parecia nova. E era mesmo, mas não era para parecer.
Não gostava de festas.
Naquela resolveu que não iria. Mas saiu arrumado, elegante, para orgulho da mãe.
Estacionou o carro em um canto escondido do shopping e sem olhar muito para os lados entrou no cinema na última sessão.
A chuva derrubava árvores e inundava rios lá fora.
A mãe protegida em casa, de olho na televisão.
Ele mergulhado na história do filme.
Levariam um tempo ainda até se reencontrarem e se abraçarem com alívio depois que a música de notícia extra estremeceu a sala...
O teto do clube onde a festa ocorria desabara e muitos feridos estavam sendo atendidos em vários hospitais da região.
O Rubens ia ter que contar para a mãe que não estava lá!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Trovão

Um barulhinho... Trovão?
E meu coração dispara.
Quer competir com o barulho do céu.
Fico feliz por alguma razão inexplicável.
Aguço os ouvidos esperando ouvir as primeiras gotas.
Fortes, marcadas.
Quando o vento é quem as traz, aparecem por todos os lados.
No telhado, nas vidraças, nas coisas deixadas pelo quintal.
Gosto.
Gosto da chuva. Gosto do vento. Gosto da tempestade.
E fico culpada temendo que alguém tenha a casa destelhada,
a varanda invadida pela água da enxurrada.
Mas por um momento deixo isso de lado.
Fui ao quintal, olhei tudo, guardei a bicicleta menor.
Abriguei-me.
Quando chove eu preciso estar de meias, mesmo que seja uma chuva de verão.
Quando era criança corria o quintal todo atrás de qualquer coisa que eu pudesse proteger.
Uma lata velha de tinta. Um tijolo. Um guardanapo no varal.
Proteger.
Depois aquecer os pés.
E sentar à janela de vidros transparentes e olhar tudo.
As gotas como lágrimas na plantinha do vaso.
Um barulhinho... Trovão?
Não, agora ainda não.
A previsão do tempo prometeu para o final da tarde, mas aí... ai do trânsito
E de mim, que me imputam a culpa por trazê-la, simplesmente por gostar e, não,
Não é bem assim!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Preguiça assumida

Tentou sentar-se na cama mas não teve forças e voltou a deitar. Deixou-se abandonar.
Era um dia útil, mas ele estava inútil. Frio, chovendo, telefone em silêncio, TV desligada, nenhum passarinho cantando na janela, nenhum gato miando no quintal, nenhum cão latindo uma música inútil.
Um dia perfeito para abandonar-se a preguiça de apenas ser um ser cansado.
Cansado da rotina.
Cansado da falta de perspectiva.
Cansado do certo sem nunca dar de cara com o duvidoso.
Cansado do carro prata, que substituiu um preto.
Cansado da calça jeans e da camisa branca.
Cansado do tênis correto.
Cansado do cabelo cortado do mesmo jeito.
Decidiu ficar na cama e apenas ouvir a chuva.
Levantaria quando tivesse fome, se tivesse fome.
Levantaria quando tivesse sede, se tivesse sede e então, certamente levantaria para ir ao banheiro.
Mas não escovaria os dentes e nem tomaria banho.
Deitado de lado, afofou o travesseiro e olhou o relógio.
Imaginou a cara do porteiro que não o veria descer, jornal em punho acenando bom dia.
Imaginou a cara da recepcionista, espionando o elevador e selecionando o target para arrumar ou não o cabelo, medir o esforço do charme de acordo com o visitante.
E pensando assim foi adormecendo de novo. Parecia ouvir ao longe um chamado do celular, mas ignorou completamente e ficou feliz de lembrar que a bateria estava por pouco.
Era quarta-feira, um dia perfeito de chuva para gazetear.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Morte súbita é que é morte verdadeira

Amanheceu chovendo, mas essa era uma variável que ele não podia controlar.
Já decidir se sairia da cama sim, estava sob seu comando. Preferiu sair. Elencou rapidamente os pros e contras e preferiu encarar o dia chuvoso.
Prometeu a si mesmo que observaria cada ocorrência e avaliaria o poder de controlar que lhe caberia e, assim, evitaria qualquer contratempo.
Tomou banho, vestiu-se, tomou café. Nada de errado.
Quando já estava no carro lembrou-se de que precisaria de um guarda-chuva e voltou para apanhá-lo. Variável controlável, nervos no lugar.
Seguiu seu caminho habitual. Respeitou todos os faróis, todos os limites de velocidade. Ignorou a sonora buzina quando diminuiu e parou para deixar um carro sair de uma garagem.
Já no trabalho, cumprimentou discretamente os que foi encontrando.
Tudo na medida certa. Nem entusiasmado demais, nem mecânico demais.
Espiou o jornal antes de conferir as notícias da internet.
Um ritual, uma obrigação com a sua tradição. Seu lado old fashion reforçado a cada dia. Insuportavelmente coerente com a boa e velha notícia.
Leu alguns e-mails, conferiu a agenda e atendeu dois ou três telefonemas.
Olhou o relógio e deu um sorriso de satisfação. Já passava das dez e nada, absolutamente nada havia perturbado a calma que determinara para si.
Foi sua última constatação, porque no momento seguinte, uma dor aguda lhe subiu pelo braço, agarrou-o pelo pescoço e apertou seu coração como antigamente as mamas apertavam o pescoço das galinhas. Ainda fez um último gesto antes de cair derrubando cadeira e objetos da mesa.
Ouviu passos apressados e vozes que foram desaparecendo para sempre no mundo novo que desenhara para si.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

É feio se assim lhe parece

O conceito de estética, de bonito e feio já foi tantas vezes discutido, tantas teses defendidas, tantos estudiosos, doutores que não me atrevo a racionalizar. Mas eu vejo o feio bonito da cidade de São Paulo e não é a primeira vez que falo sobre isso. Mas hoje descobri mais um detalhe.
São Paulo amanheceu com chuva.
Cinza sem contornos que deixa tudo sem relevo, ausência completa da sensação 3D. A Marginal Pinheiros é feia. Os carros em velocidade quase zero, primeira, segunda me deixam perceber o celta da nova skin, a kombi da granero. O vectra de Serra Negra leva no banco traseiro um menino tão bonito! Uns 5, 6 anos. Nariz empinado que tantos querem copiar em salas brancas de mesas assustadoras.
Mas a minha descoberta está no céu.
Nos postes que tiram a harmonia do Projeto Pomar, encarcerado por blocos de concreto.
Lá no alto, poste sim, poste não, estão os urubus.
Os urubus são feios. São feios mas são elegantes e hoje exibiram-se para mim em uma coreografia que eu poderia ter preparado.
No alto do poste, asas abertas, bico recurvo, encarando a lentidão abaixo.
Vôos coordenados. Pouso suave. Um bater de asas em camara lenta e em sequência, poste sim, poste não um a um e de repente um agrupamento de 3.
Enquanto conduzi meu carro dançaram para alegrar a minha manhã de compromisso perdido, rapidamente reagendado pelo celular.
Dançaram para me dizer que só é feio o que lhe parece feio. Eles estavam especialmente lindos, hoje, no meio da semana!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Chuva e Sol

Choveu a noite toda.
Amanheceu chovendo.
As pessoas escrevem sobre a chuva. Algumas reclamam. Outras nem se dão ao trabalho.
O noticiário invade a nossa casa e quando a chuva cai as notícias nunca são muito boas.
Mas eu gosto da chuva.
Choveu no dia 27 de abril, uma segunda-feira, dia antes do meu nascimento. Deus lavou o mundo para me receber.
Choveu no dia em que desci correndo uma rua da vila mariana, de mão dada com o meu amigo que já se foi.
Sempre chove quando estou na estrada estreita que nos leva de Presidente Prudente a São José do Rio Preto.
Choveu quando eu soube que tinha sido aprovada no vestibular.
Choveu quando eu decidi que ia mesmo amar e me casar e ter filhos e uma vida regrada.
Mas agora parou de chover e enquanto penso em algo para escrever minha caçula grita:
- mãe, vem ver o seu quarto está amarelo por causa do sol
Lindo, discreto, ele não esperava ser descoberto quando convenceu a cortina azul a deixá-lo entrar.
Será que procurava por mim? Será que estava pronto a me revelar um segredo?
Será que vinha libertar a ansiedade que aprisiono para ultrapassar mais um final de semana sem notícias?
Olho as abas do meu navegador e tudo está conectado.
O sol já escapou, encabulado que ficou.
A minha pequena já escolheu um dvd e se aninhou no sofá.
Eu queria um jeito mais tranquilo de terminar, mas prometi que já ia descer e não vou decepcionar. Não, eu não!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Gosto de chuva

Gosto do verbo gostar, não gosto de sabor.
E gosto muito.
Claro que os dias ensolarados, de céu azul, são magníficos e também me enchem a alma, mas hoje quero contar que gosto de chuva, de céu carregado, de raios e trovões.
Sim, sei tudo o que causam, mas só quero falar que gosto de chuva.

Quando coisas boas acontecem na minha vida normalmente está chovendo.
Grandes notícias, grandes conquistas. E tem sido assim sempre.
Talvez porque eu tenha nascido em uma manhã linda, ensolarada, mas depois de uma noite chuvosa.
Nas últimas horas de conforto e segurança eu sabia que estava chovendo lá fora e ansiava pela coisa boa que era nascer!

Quando tinha lá os meus 9, 10 anos, eu protegia da chuva tudo o que havia no quintal.
Tudo mesmo, sem exageros. Pedaços de tijolos, velhas latas de tinta, cesto de lixo, vassoura sem cabo, bambu que sustentava a corda que era um varal.
Coisas óbvias que se encontram em quintais de casas do interior.
Já na chuva eu trabalhava como uma formiguinha incansável trazendo todo esse lixo, como dizia minha mãe, para o alpendre, a nossa área de serviço.
Muitas vezes minha mãe me ajudava porque em algum momento ela se convenceu de que não me convenceria.
Terminado o trabalho, suja, molhada, não importava, eu ia para o meu quarto e calçava meias limpas e vestia uma blusa quente, mesmo que fosse uma chuvarada de verão de quinze minutos e corria para a janela, espiar pelo vidro o fim da chuva que eu queria que não terminasse mais.
Disso também minha mãe se convenceu, de que não me convenceria de que era um absurdo vestir roupas limpas estando tão suja e de que não estava frio!

Quando tinha 18 anos eu atuava em uma peça de teatro chamada De Paletó e Pés no Chão, uma criação coletiva do Grupo Cio da Terra do qual eu fiz parte, do seu nascimento até o seu desaparecimento.
Um dia, após o espetáculo, estava no palco recolhendo algumas coisas e um senhor que estivera na platéia aproximou-se e me disse:

- quando fizer frio e chover, não procure um canto, vá para casa

Naquele momento não consegui entender o significado da frase. Nenhuma conexão com o conteúdo do espetáculo, mas absolutamente conectado com minha história com a chuva, que até então eu guardava escondidinha dentro de mim.
Usei essa reflexão muitas vezes. Antes de tomar algumas decisões importantes eu me lembro dessa frase.
Não sei quem era ele, que se afastou sem nada mais dizer e não falou com nenhuma outra pessoa.

Alguns anjos descem em missões especiais e eles podem vir sem as asas.
É, foi um anjo que choveu em minha vida.