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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

nada

apertou o passo, mas a chuva não veio
arrumou a gaveta, mas não coube mais nada
lavou o copo, mas não teve coragem de macular a gotinha com o pano de prato tão feio
olhou o relógio, o tempo não se acelerou
apertou o peito, a dor não passou
olhou a janela, mas nenhum passarinho cantou
ligou a tv, mas nem pra tela olhou
discou um número, mas desistiu de falar alô
abriu a geladeira, mas nem o leite piscou
estava sozinha no mundo, e nem deus a escutou

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

E foi assim

Ela não gostava de seu nome, mas ninguém precisava saber disso.
Quando se apresentava ela o dizia em alto e bom som, com firmeza, por isso ninguém suspeitava.
Ela não gostava de ficar sozinha.
Estava sempre agarrada à saia da mãe quando era bem pequena e quando foi crescendo foi se cercando de primos, primas, irmãos, amigos.
Depois namorou e casou cedo.
Desse primeiro casamento teve uma filha.
Por que não gostava de ficar sozinha, depois que se separou logo arrumou um namorado.
E depois outro, mesmo ainda tendo o primeiro.
Não gostava mesmo de ficar sozinha e não gostava de seu nome.
Um dia, ela estava sozinha no carro, mesmo não gostando de ficar sozinha.
Voltava não se sabe de onde, talvez de uma reunião, talvez de uma conversa animada com a mãe, talvez de um encontro romântico, talvez de uma reunião na escola da filha. Não se sabe.
Não gostava de ficar sozinha, mas nem por isso compartilhava tudo o que andava fazendo.
Só se sabe que um dia, quer dizer uma noite, ela chegou sozinha de carro.
Esses detalhes foram contados pelo Seu José. Ele viu quase tudo e não pode fazer quase nada, a não ser lamentar.
Pois então, ela chegou sozinha de carro e enquanto esperava o portão abrir o sujeito apontou a arma e pediu o carro.
Ela nem abriu o vidro, o portão acabou de abrir e ela entrou de uma vez. Estacionou.
O Seu José ficou encolhidinho na cabine, ia chamar a polícia, mas não viu mais o sujeito, esperou um pouco até tudo se acalmar e ia interfonar para ela antes de qualquer coisa.
Ela também deve ter esperado um pouco no carro.
Depois deve ter descido devagar porque para alcançar o elevador era preciso passar em frente ao portão.
Andou com firmeza, pensando que o susto tinha passado, mas não!
O sujeito estava lá, agachado, bufafa de raiva e não hesitou em atirar.
Foi assim que ela morreu, a Quitéria.
Ela não gostava de ficar sozinha, mas não ficou. Deixou outros para trás. Muitos outros.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ficou para trás

Quis o seu humor desgovernado que acabasse sozinha.
O que não foi surpresa para ninguém. Porque ninguém esperou para ver.
Os amigos de agora não são os amigos de outrora.
Ninguém lê em seus olhos frios a impaciência com os tolos.
Isso ficou para trás, entre aqueles que iam aos bailes, que admiravam o oblíquo do olhar quando se preparava para desmoronar alguém.
Arrematar a conversa com uma conclusão desconcertada que desconcentra e desarticula o grupo já não faz parte do seu dia a dia.
O movimento de cabeça sim.
A dança das mãos e os lábios nervosos também.
Mas quem diria. No grupo de hoje ninguém arriscaria afirmar.
Doce não é, mas recolhe as palavras que antes não conseguia com prazer.
O que faz com elas ninguém sabe dizer porque é assim sozinha, sem intimidades.
Quando recebe alguém para um chá pode falar de tudo menos desse descompasso entre o que é e o que parece ser.
Alguns olham fixamente para o espelho da sala, de um vermelho ousado, mas ela, ela finge não ver!