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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Reflexão


Para que tantos sapatos se a graça era mesmo ficar descalço e pisar a grama, a areia grossa, a terra molhada?

E um armário entupido de roupas se confortável mesmo era andar em mangas de camisa, uma bermuda feita de uma calça velha cortada na altura dos joelhos?
E para que manter tantas cartas amareladas naquela caixa florida, já desbotada, de vez em quando espanada da poeira inevitável?
Esse tempo já passara.
Não deixou nenhuma cicatriz, nenhuma dor de chorar, mas também nenhuma medalha, nem um ato de heroísmo para contar.
Andou para cá e para lá.
Viajou.
Conheceu pessoas.
Esteve em festas.
Deu festas.
Aparece em uma série de fotografias guardadas em casas fechadas, de histórias veladas.
E ele mesmo coleciona uma série de fotos e em muitas delas sorrisos de pessoas que já não se lembra quem eram, quem são e mesmo assim, as conserva.
Para que tantos discos, CDs, se a graça mesmo é ser surpreendido pela música que toca no rádio. Estilos misturados, cantores consagrados, cantores que recém surgiram na internet. Entre músicas de antigamente e músicas de amanhã a publicidade engraçada de serviços do interior.
Para que uma dúzia de ovos?
Para que uma melancia inteira?
Modernos supermercados que pensam nos que vivem alone, como é chic dizer.
Para que tanta pressa de chegar ao futuro se ele é agora e é assim?
Cheio de coisas que se pode comprar, pagar, ter, colecionar, trocar, mostrar e tão vazia de alguém pra simplesmente abraçar, conversar, rir ou apenas ficar calado olhando o sol se por.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Gosto de chuva

Gosto do verbo gostar, não gosto de sabor.
E gosto muito.
Claro que os dias ensolarados, de céu azul, são magníficos e também me enchem a alma, mas hoje quero contar que gosto de chuva, de céu carregado, de raios e trovões.
Sim, sei tudo o que causam, mas só quero falar que gosto de chuva.

Quando coisas boas acontecem na minha vida normalmente está chovendo.
Grandes notícias, grandes conquistas. E tem sido assim sempre.
Talvez porque eu tenha nascido em uma manhã linda, ensolarada, mas depois de uma noite chuvosa.
Nas últimas horas de conforto e segurança eu sabia que estava chovendo lá fora e ansiava pela coisa boa que era nascer!

Quando tinha lá os meus 9, 10 anos, eu protegia da chuva tudo o que havia no quintal.
Tudo mesmo, sem exageros. Pedaços de tijolos, velhas latas de tinta, cesto de lixo, vassoura sem cabo, bambu que sustentava a corda que era um varal.
Coisas óbvias que se encontram em quintais de casas do interior.
Já na chuva eu trabalhava como uma formiguinha incansável trazendo todo esse lixo, como dizia minha mãe, para o alpendre, a nossa área de serviço.
Muitas vezes minha mãe me ajudava porque em algum momento ela se convenceu de que não me convenceria.
Terminado o trabalho, suja, molhada, não importava, eu ia para o meu quarto e calçava meias limpas e vestia uma blusa quente, mesmo que fosse uma chuvarada de verão de quinze minutos e corria para a janela, espiar pelo vidro o fim da chuva que eu queria que não terminasse mais.
Disso também minha mãe se convenceu, de que não me convenceria de que era um absurdo vestir roupas limpas estando tão suja e de que não estava frio!

Quando tinha 18 anos eu atuava em uma peça de teatro chamada De Paletó e Pés no Chão, uma criação coletiva do Grupo Cio da Terra do qual eu fiz parte, do seu nascimento até o seu desaparecimento.
Um dia, após o espetáculo, estava no palco recolhendo algumas coisas e um senhor que estivera na platéia aproximou-se e me disse:

- quando fizer frio e chover, não procure um canto, vá para casa

Naquele momento não consegui entender o significado da frase. Nenhuma conexão com o conteúdo do espetáculo, mas absolutamente conectado com minha história com a chuva, que até então eu guardava escondidinha dentro de mim.
Usei essa reflexão muitas vezes. Antes de tomar algumas decisões importantes eu me lembro dessa frase.
Não sei quem era ele, que se afastou sem nada mais dizer e não falou com nenhuma outra pessoa.

Alguns anjos descem em missões especiais e eles podem vir sem as asas.
É, foi um anjo que choveu em minha vida.