sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Cotidiano

Tem gente que nunca ganhou uma rosa.
Tem gente que nunca ganhou café na cama.
Tem gente que nunca andou descalço na chuva.
Tem gente que nunca viu o mar.
Tem gente que nunca colheu pitanga.
Tem gente que nunca desenhou um coração.
Tem gente que nunca cortou o dedo.
Tem gente que nunca nadou em rio.
Tem gente que nunca caçou passarinho.
Tem gente que nunca soltou pipa.
Tem gente que nunca viajou de trem.
Tem gente que nunca viu um pato nadar.
Tem gente que nunca jogou bolinha de gude.
Tem gente que nunca tomou sorvete.
Tem gente que nunca comeu os dois bicos do pão.
Tem gente que nunca quebrou um copo.
Tem gente que nunca usou havaianas.
Tem gente que nunca usou fantasia de carnaval.
Tem gente que nunca quebrou o braço.
Tem gente que nunca caiu da escada.
Tem gente que nunca viu um morceguinho dormir num arbusto de calçada, de um bairro movimentado de São Paulo, ao lado de uma van de cachorro quente, em pleno sol das treze horas.
Eu vi.
E até fotografei.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Compras

O que vai querer moça bonita?
Eu?
Um pouco de sossego.
Um pouco de compaixão.
Quero que as pessoas sejam felizes, assim me deixam em paz.
Mas, pensando bem, algumas podem ter um pneu furado na marginal, fará bem.
Também quero um pouco de alegria.
Mas não muita, se não fica parecendo aquela música, sabe aquela? Rir é bom, mas rir de tudo é desespero?
Então.
Quero também um pouco mais de horas para dormir e um pouco de mais horas para ler.
Pesa também um pouco de paciência.
Falei que não ia mais precisar, mas acabou toda a que eu tinha reservado. Está fresquinha?
Também quero um pouco de amor, estou devendo para algumas pessoas, tenho recebido mas não tenho dado o suficiente de volta, feio né?
Acho que é isso.
Tem alguma novidade?
Chegou alguma coisa diferente?
Economizei ironia, até sobrou um pouco, economizei sorriso amarelo, mas estão passando da validade, acho que vou descartar.
E você tá bem? Vendendo bem?
É, agora que vai chegando o Natal as pessoas compram muito paz, amor, carinho, compaixão, mas elas usam mesmo ou só compram por impulso? O que você acha?
É? Foi o que eu pensei.
Tchau, obrigada.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Altos e Baixos

Encontrou o pingo do i.
Ah, estava certo de que agora poderia se vingar.
Estava feliz, sorridente.
Preparava discursos, escrevia cartas rápidas e ferinas.
Encontrara, finalmente encontrara o pingo do i!
Preparou as coisas com uma alegria!
Distribuiu pertences.
Revisou todos os arquivos.
Arrumou os dados que eram necessários.
Ah, estava certo de que agora poderia respirar aliviado.
Chegar em casa e tomar uma cerveja sem culpa.
Atender ao telefone sem sobressaltos.
Deixar a caixa de email piscar sem atropelos.
Encontrara. Finalmente encontrara.
E, certo como dois e dois são quatro, todas as previsões estavam erradas.
Fora antes do previsto.
Mais surpreendente do que supusera.
E lá estava, claro como uma manhã de verão.
O pingo do i mais bold do que itálico.
Ah, estava certo de que agora poderia relaxar.
E era a melhor sensação que encontrara nos últimos dias e nessa sensação não caberia vingança.
Nem discursos, nem palavras duras.
Um pingo no i é uma tese inteira para quem entende as entrelinhas.
Partiu entre risos, acenos e um até logo, como quem vai voltar logo mais.
E foi melhor assim.