Choveu no meu sorriso
Choveu no meu sapato
Choveu no meu cabelo
Choveu na minha bolsa
Choveu no meu coração
Choveu no meu relógio
A chuva chove sem se preocupar
E eu não me ocupo com a chuva
A chuva faz parte de mim
E eu faço parte da chuva
Quando ela vem eu me preparo
Quando eu me preparo ela me surpreende
Às vezes ela passa ao largo
Choveu na minha lágrima
Choveu na minha camisa
Quando me lembro das chuvas em tardes infantis
Eu me vejo sonhando com um futuro de sol
Choveu nos meus sonhos
E eles floresceram
Estavam escondidos lá naquela despreocupação de criança
Ainda chove
Sempre chove
Eu sou parte da chuva
A chuva é parte de mim
Eu e a chuva choramos juntos
Um destino que não tem fim
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Eu & os Doutores
Dizem que um fato é sempre lembrado de maneiras bem diferentes por quem esteve envolvido.
Eu acredito.
Dizem também que nossa memória sempre nos trai e que as coisas nem sempre foram exatamente como nos lembramos.
Eu também acredito.
De fato eu sou uma pessoa crédula.
E acredito também que nunca me esqueceria das coisas entre cômicas e absurdas que os doutores e doutoras já andaram me dizendo por aí.
Oftalmologista - São Paulo há alguns muitos bons anos atrás.
- qual é o problema?
- acho que estou com a vista cansada (é assim que falam lá no interior!)
- bom, se ela está cansada é porque tem algum problema, se estivesse saudável não estaria cansada
- ué, mas se estou nessa consulta não é você que tem que me dizer qual é o problema? eu acho que ela está cansada...
Gastroenterologista - São Paulo
- qual é o problema?
- tenho tido dores de estômago e já tive gastrite antes
- você toma café? (sem olhar para mim)
- tomo
- (olhando para mim) você toma café e vem aqui reclamar de dor no estômago? mas é claro que vai sentir dor... vou te pedir uns exames
e blá, blá, blá
Ginecologista - Recife
- qual é o problema?
- o meu fluxo está muito irregular, agora mesmo já são quarenta e cinco dias e
- pode ser gravidez
- não, não pode, não estou em nenhum relacionamento e...
- bom, antes de tudo vou pedir um exame de gravidez, se não for, a gente faz outros exames
- se eu estiver grávida será do espírito santo e aí, nesse caso, não será preciso nenhum outro exame (levantei e fui embora sem terminar a consulta)
Ortopedista - São Paulo
- ah, é uma cirurgia muito simples! esse joelho vai ficar novo em folha, um day hospital e você sai andando!
A parte do day hospital foi verdade, mas acordei com a perna imobilizada, engessada do alto da coxa até o tornozelo e para andar direito ele esqueceu de mencionar as quinhentas sessões de fisioterapia.
Todo esse registro apenas para voltar ao oftalmo. Dessa vez o mais prático que já visitei em minha carreira de paciente.
Atendeu na hora, sem frescura, fez todos os exames necessários, não alterou grau, constatou que o esquerdo enxerga menos que o direito mas que o grau ficará igual pra não ficar preguiçoso, que a receita é tão simples que nem é preciso conferir. Sejamos práticos. Sim, sejamos práticos!
E ele é vesgo. Sim, eu confio em um oftalmo vesgo, que provavelmente sofreu horrores na infância que não levantava temas como bullying na televisão e resolveu encarar o problema de frente, ou de lado, não sei de que lado. Mas eu confio nele!
Dia desses, óculos novo, oba!!!
Eu acredito.
Dizem também que nossa memória sempre nos trai e que as coisas nem sempre foram exatamente como nos lembramos.
Eu também acredito.
De fato eu sou uma pessoa crédula.
E acredito também que nunca me esqueceria das coisas entre cômicas e absurdas que os doutores e doutoras já andaram me dizendo por aí.
Oftalmologista - São Paulo há alguns muitos bons anos atrás.
- qual é o problema?
- acho que estou com a vista cansada (é assim que falam lá no interior!)
- bom, se ela está cansada é porque tem algum problema, se estivesse saudável não estaria cansada
- ué, mas se estou nessa consulta não é você que tem que me dizer qual é o problema? eu acho que ela está cansada...
Gastroenterologista - São Paulo
- qual é o problema?
- tenho tido dores de estômago e já tive gastrite antes
- você toma café? (sem olhar para mim)
- tomo
- (olhando para mim) você toma café e vem aqui reclamar de dor no estômago? mas é claro que vai sentir dor... vou te pedir uns exames
e blá, blá, blá
Ginecologista - Recife
- qual é o problema?
- o meu fluxo está muito irregular, agora mesmo já são quarenta e cinco dias e
- pode ser gravidez
- não, não pode, não estou em nenhum relacionamento e...
- bom, antes de tudo vou pedir um exame de gravidez, se não for, a gente faz outros exames
- se eu estiver grávida será do espírito santo e aí, nesse caso, não será preciso nenhum outro exame (levantei e fui embora sem terminar a consulta)
Ortopedista - São Paulo
- ah, é uma cirurgia muito simples! esse joelho vai ficar novo em folha, um day hospital e você sai andando!
A parte do day hospital foi verdade, mas acordei com a perna imobilizada, engessada do alto da coxa até o tornozelo e para andar direito ele esqueceu de mencionar as quinhentas sessões de fisioterapia.
Todo esse registro apenas para voltar ao oftalmo. Dessa vez o mais prático que já visitei em minha carreira de paciente.
Atendeu na hora, sem frescura, fez todos os exames necessários, não alterou grau, constatou que o esquerdo enxerga menos que o direito mas que o grau ficará igual pra não ficar preguiçoso, que a receita é tão simples que nem é preciso conferir. Sejamos práticos. Sim, sejamos práticos!
E ele é vesgo. Sim, eu confio em um oftalmo vesgo, que provavelmente sofreu horrores na infância que não levantava temas como bullying na televisão e resolveu encarar o problema de frente, ou de lado, não sei de que lado. Mas eu confio nele!
Dia desses, óculos novo, oba!!!
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Maria José
Olhou as vitrines, entre apressada e desinteressada.
Não sabia há quanto tempo não comprava uma saia.
Não sabia mais.
Perdera o jeito de entrar, tocar, perguntar, experimentar, gostar, comprar.
Por isso simulava pressa, dava um sorrisinho sem graça.
Podia enumerar as coisas que não tinha tido.
Vestido de festa.
Vestido de noiva.
Vestido de reveillon.
Vestido de formatura.
Camisola de cetim.
Olhou o relógio, ainda tinha tempo.
O tempo esgarçara a sua vontade, mas não a ingenuidade.
Já se prometera tantas vezes que não mais agiria assim e lá estava ela, boba.
As pessoas andam agitadas quando dezembro sinaliza as festas.
Ela tentava disfarçar o descompasso, só ela não tinha para onde ir rapidamente.
Esperava.
Uma vez mais, uma última vez. Quando olhou para a bolsa deixou-se ficar e imaginou tudo o que poria ali.
Viu seu reflexo no vidro enfeitado, nenhuma moça veio lhe incomodar
e por isso deixou-se ficar.
O sapato era bonito. Não viu o preço, mas era melhor pensar que iria machucar,
não tinha seu número.
Melhor despensar.
Riu da palavra nova.
Olhou as vitrines uma vez mais.
Ele não vinha. Já era líquido e certo.
Escolheu uma porta lateral e saiu desejando não ter sido vista.
Pensou em todas aquelas câmaras.
Ficou com vergonha do desconhecido que certamente a acompanhou em seu passeio inútil, triste, feio e totalmente sem sentido.
Quis chorar pelo sentimento novo, mas apenas apressou o passo para não perder o ônibus.
Sempre boba, a Maria José.
Não sabia há quanto tempo não comprava uma saia.
Não sabia mais.
Perdera o jeito de entrar, tocar, perguntar, experimentar, gostar, comprar.
Por isso simulava pressa, dava um sorrisinho sem graça.
Podia enumerar as coisas que não tinha tido.
Vestido de festa.
Vestido de noiva.
Vestido de reveillon.
Vestido de formatura.
Camisola de cetim.
Olhou o relógio, ainda tinha tempo.
O tempo esgarçara a sua vontade, mas não a ingenuidade.
Já se prometera tantas vezes que não mais agiria assim e lá estava ela, boba.
As pessoas andam agitadas quando dezembro sinaliza as festas.
Ela tentava disfarçar o descompasso, só ela não tinha para onde ir rapidamente.
Esperava.
Uma vez mais, uma última vez. Quando olhou para a bolsa deixou-se ficar e imaginou tudo o que poria ali.
Viu seu reflexo no vidro enfeitado, nenhuma moça veio lhe incomodar
e por isso deixou-se ficar.
O sapato era bonito. Não viu o preço, mas era melhor pensar que iria machucar,
não tinha seu número.
Melhor despensar.
Riu da palavra nova.
Olhou as vitrines uma vez mais.
Ele não vinha. Já era líquido e certo.
Escolheu uma porta lateral e saiu desejando não ter sido vista.
Pensou em todas aquelas câmaras.
Ficou com vergonha do desconhecido que certamente a acompanhou em seu passeio inútil, triste, feio e totalmente sem sentido.
Quis chorar pelo sentimento novo, mas apenas apressou o passo para não perder o ônibus.
Sempre boba, a Maria José.
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