quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Distraído

Distraiu-se com a vida e de repente o tempo tinha passado.
Tentou concentrar-se e dedicou-se a fiar suas histórias.
Encontrou-as inacabadas, como teias de aranha arrancadas por uma vassoura desatenta. Pedaço sim, pedaço não. Desabitadas.
Histórias com começos e meios e quase nenhuma com fim.
Mas o que é o fim de uma história?
Quem escreve a palavrinha de três letras com o F em letra maiúscula e lindamente desenhada? Nos contos infantis, o autor.
Na vida... Distraiu-se com a vida e se perdeu de vista, não estava interessado.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

De cães e tapetes

Pensou em um jeito de dizer não, mas não encontrou.
Dizia sim desde sempre.
As pessoas riam dela.
Ela sentia-se bem quando era criança, mas conforme foi crescendo foi se achando a pessoa mais boba do mundo.
Quando tentava não ser boba não dava certo.
Ela com ela mesma se desintegrava e era um tal de tanto pensar que tontificava.
Estava decidida a ser boba até o fim.
O que tinha a seus pés e que não se importava com esse jeito era o tapete.
Nada além do tapete.
Tinha um gato. Mas ele não era desses gatos grudados que ficam deitados no colo e um cachorro não podia ter.
Cachorros exigem demais e ela não tinha muita coisa a oferecer.
Naquele dia, quanto o telefone tocou, ela ficou eufórica pensando que receberia uma proposta.
Mas era só uma consulta.
Talvez por essa frustração momentânea falou sem muitas conjecturas e falou tudo o que realmente devia falar.
Quando terminou percebeu que tinha dito a verdade, sem sofrer, sem parecer boba, apenas disse, num tom de voz nem alto nem baixo. Ponderou que não queria prejudicar ninguém, mas que fato era que...
E assim, pela primeira vez, aos ouvidos de alguém ela teria sido má.
Não doeu tanto.
Sim, já era hora de ter um cachorro e era hora de trocar o tapete da sala.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Sólido

Olhou o tempo como quem enxerga o sólido e pestanejou.
Resolveu falar. Não era de se intimidar com aqueles que desdenham dos que falam sozinho.
Pensou na carteira que levava no bolso.
Velha e vazia.
Pensou na mãe que ainda passava suas camisas.
Desejou muito ter um cachorro para quem pudesse jogar um graveto e ficar esperando receber de volta.
Olhou o tempo como quem enxerga o óbvio.
Pensou em sorvete. Chocolate com laranja.
Quando apresentou esse sabor à Brígida eram duas novidades.
O sorvete para ela e esse nome para ele.
Sempre quis saber as origens dos nomes, mas para ela não perguntou.
Agora era tarde. Nunca mais saberia.
Olhou para o tempo como quem enxerga o obsoleto.
Resolveu se calar. Já estava quase no trem e aí sim, era um perigo ser confundido com os loucos que falam sozinho.