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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Distraído

Distraiu-se com a vida e de repente o tempo tinha passado.
Tentou concentrar-se e dedicou-se a fiar suas histórias.
Encontrou-as inacabadas, como teias de aranha arrancadas por uma vassoura desatenta. Pedaço sim, pedaço não. Desabitadas.
Histórias com começos e meios e quase nenhuma com fim.
Mas o que é o fim de uma história?
Quem escreve a palavrinha de três letras com o F em letra maiúscula e lindamente desenhada? Nos contos infantis, o autor.
Na vida... Distraiu-se com a vida e se perdeu de vista, não estava interessado.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Caleidoscópio


Fechou os olhos enquanto o sol aquecia o rosto e deleitou-se imaginando como seria.
Tranquilo, apesar da correria.
Empolgante, apesar de assunto velho.
Revelador, apesar de quietar atrás de uma mesa.
O sol que aquece, brilha e revela também produz manchas verdes que só os olhos fechados podem ver.
Caleidoscópio natural é ficar de olhos fechados no sol e enxergar apenas dentro, os círculos de cor.
Um deleite.
Até que alguém bateu no ombro e fez uma pergunta inútil qualquer.
Respondeu e voltou a fechar os olhos.
A vida foi passando.
As cores foram mudando.
Apenas envelheceu. Mas envelheceu mais feliz depois que a imaginação foi virando realidade.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Perdida

Passou o tempo. Passou tão rápido.
Nenhum truque leva a melhor.
Nenhuma onda vem mais devagar só para recolhermos a toalha.
Nenhum raio espera até que estejamos abrigados.
A chuva não se importa com os cabelos recém penteados.
Passou o tempo. Passou tão rápido.
Os tempos verbais se perdem na construção da escrita.
Uma obra inacabada. Uma obra inalcançável.
Uma obra interminável como a reforma da cozinha.
Tudo se atropela. A vida não se organiza.
Quando eu escrevo enquanto penso tudo parece muito claro.
Mas bastou pousar o lápis, a caneta, abandonar o teclado para tudo voltar ao caos.
Começo e não termino.
Assim como essa reflexão sobre o tempo.
Ele passa, ele passou.
Eu tinha tanta pressa e ainda tenho, mas para que?
Para onde é que eu vou?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Nunca estamos prontos

Nunca estamos prontos e aí reside a graça da vida, mas por que demoramos tanto para aprender?
Nunca estamos prontos para perder um grande amor, para perder um grande amigo.
Pais jamais estarão prontos para perder filhos, filhos não esperam e não estão prontos para perder os pais.
São leis praticamente naturais da vida, todo mundo sabe, todo mundo observa, todo mundo lê ou escreve sobre o tema.
E não estamos prontos quando damos ou levamos uma batidinha no carro, quando nos roubam o celular ou o notebook.
Não estamos prontos para nada, nem para as coisas boas. Não estamos prontos quando recebemos um telefonema de quem mora do outro lado do mundo.
Não estamos prontos quando nasce um bebê na família, quando alguém se casa sem avisar.
Nunca estamos prontos.
E porque nunca estamos prontos é que tudo é vivido intensamente, fortemente, algumas vezes deixando na alma, no coração, na lembrança uma imagem não como cicatriz, mas como uma tatuagem desenhada caprichosamente.
Dói muito. Mas depois que passa está lá, indelével, bonita às vezes, algumas de maneira que todo mundo pode ver, outras tão nossa que nem quando partimos fica exposta.
O fato é que nunca estamos prontos.
Não há ensaios, não há reprises, pode ser refeito, mas nunca será do mesmo jeito.
Algumas variáveis não controlamos.
E se não controlamos porque sofremos por elas?
Nunca estaremos prontos e aí reside a graça da vida, mas por que demoramos tanto para aprender e por que não conseguimos ensinar? 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Besta

É assim, desse jeito meio caipira que minha Cláudia me “repreende” quando falo alguma bobagem. E quase sempre eu falo.
Minha amiga é dessas pessoas que existem e são queridas sem esforço nenhum. Existência leve, ainda que nunca se sabe o quanto pesa a trouxinha que se vai fazendo ao longo da vida.
Eu me lembro da primeira vez em que a vi.
No almoço de aniversário de Jorge, um amigo de trabalho.
Esquisita. Uma moça que usava uma blusa de malha por cima de uma camisa e depois um vestido por cima de um jeans.
Moderna.
Sorriso tímido.
Olhar profundo.
Depois começou a abusar e me chamar de besta.
Tantas viagens. Tantas bancadas divididas no banheiro, meu creme dental e minha escova de dente e o baú de cremes dela. Ela ainda hoje insiste em dizer que não.
E sempre me socorrendo, como se eu fosse um bichinho perdido.
Minha enfermeira em Cannes, na mais terrível crise de labirintite que um ser humano pode ter.
Desacreditando quando esqueci o cartão de embarque no toilette do aeroporto de Madrid, mas quites quando no desembarque tivemos que voltar para recuperar a bolsa dela que ficara no interior da aeronave...
Minha amiga de tantas histórias.
Minha amiga de tantos silêncios.
Minha amiga em tantas fotos.
Minha amiga em tantos e-mails.
Minha amiga em tantos recados.
Hoje minha amiga está fazendo uma prova, um vestibular, um desses perrengues que a vida nos aplica, assim de surpresa.
Ela vai tirar dez com louvor, é uma aluna aplicada.
Depois vamos comemorar essa vitória.
Besta. Ela é muito besta e por isso nos damos bem, eu acho, eu tenho certeza!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Memória

O bebê estava alimentado e limpo mas mesmo assim não parava de chorar.
Queria colo. Apenas um colo quente e aconchegante.
Ainda não sabia que se pode ter colo por toda a vida. Queria seu quinhão naquele momento.
Queria sentir o cheiro. Queria sentir o calor.
Há uma memória que mora em nós e que guarda esse calor, esse cheiro, esses momentos de conforto.
Quando uma nuvem negra circunda nosso dia a dia é um ótimo refúgio.
Olhe para quem está gritando e gesticulando mas veja muito além de seus gestos indignados.
Veja lá atrás um par de braços sempre atentos.
Escute o que gritam sem razão mas não ouça.
Apenas lembre-se do som baixinho, da voz suave de uma pessoa que parecia parte de nós.
Habite um colo em seus piores momentos, sem nem mesmo precisar chorar.
Não há ataque que fure o bloqueio de uma lembrança só sua.