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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Remendos

Quanto mais modernos ficamos, mais remendamos coisas que apenas deveríamos amor ou, no mínimo, aceitar.
O lugar onde nascemos. Não decidimos. Mas, quando adultos vamos escarafunchar os nossos antepassados e reunir uma papelada infinita para conseguir um documento que nos dê um "pedigree" diferente.
E com isso remendamos nossa existência com nacionalidades que herdamos.
Não decidimos nascer meninos ou meninas. E isso também se muda. Anatomia, nomes e documentação.
Branco ou preto.
Coreano ou norueguês.
Também não decidimos, não que eu alcance nessa dimensão, quem serão nossos pais.
Se seremos único, do meio, o quarto, o quinto ou o caçula.
Não decidimos nascer em uma família de muitos primos ou de nenhum.
Mas, quanto mais modernos ficamos, mais remendamos nossos desígnios.
Quando fico cansada de remendar eu penso que seria tão mais simples apenas aceitar e não pensar mais no assunto.
Não escolhemos a cidade em que nascemos. Mas, podemos decidir em que cidade vamos morrer.
Não escolhemos o século em que nascemos. Mas, podemos escolher um ano e um dia para morrer, eu nem deveria lembrar dessa possibilidade porque nada há de mais triste do que não suportar-se a ponto de preferir "desexistir".
Remendos.
Os cabelos cacheados, alisamos.
Os lisos, encaracolamos.
Os olhos castanhos, azulamos.
Os olhos cinzas, esverdeamos.
A pele branca, bronzeamos.
O nariz, arrebitamos.
Muita coisa precisa mesmo ser feita. Ficamos mesmo mais bonitos.
Os dentes, clareamos.
Aqueles tortinhos, endireitamos.
Remendos.
Alguns tão bem feitos que mais parecem uma obra de arte.
Ajeitamos aqui, ajeitamos ali, mas tem uma coisa que de jeito nenhum se ajeita... a alma.
Ela só espia o que vamos pelo caminho remendando.

imagem Remendos em Branco
LARA ROSEIRO AZEITÃO, Lisboa, Portugal. Artista Plástica. Licenciada em Pintura pela ARCA/EUAC, Coimbra. Mestranda em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Límpido

Apenas sorriu.
Tinha os olhos claros como águas límpidas.
O rosto pálido que conseguia um tom rubro quando envergonhada.
O lábio fino como não gostava.
Apenas sorriu.
Recolheu as mão magras de dedos longos no colo aquecido.
Não sabia muito bem como se comportar.
Nunca soubera, tímida que era.
As meninas não gostavam dela.
O caderno era organizado, mas não enfeitado.
Os trabalhos eram corretos, nunca exagerados.
Os lápis sempre muito bem apontados.
O discurso era na medida exata para não ser de menos para o professor nem demais para os colegas.
Apenas sorriu.
Depois arriscou esticar o pé porque já estava há muito com ele na mesma posição.
A canela fina e branca espiou por baixo da barra da calça.
Sem nenhuma perspectiva de sair do lugar.
Tinha os olhos claros.
Tinha medo da mãe mais do que do pai.
Ela chegaria a qualquer momento. O pai não mais.
A diretora iria fazer cara de espanto ao explicar.
A mãe cara de ódio para encarar.
Apenas sorriu.
Nem mesmo ela sabia o quão má podia ser. E de repente era assim.
A escuridão também pode ser límpida?
Podia ser um tema para a próxima redação.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Caleidoscópio


Fechou os olhos enquanto o sol aquecia o rosto e deleitou-se imaginando como seria.
Tranquilo, apesar da correria.
Empolgante, apesar de assunto velho.
Revelador, apesar de quietar atrás de uma mesa.
O sol que aquece, brilha e revela também produz manchas verdes que só os olhos fechados podem ver.
Caleidoscópio natural é ficar de olhos fechados no sol e enxergar apenas dentro, os círculos de cor.
Um deleite.
Até que alguém bateu no ombro e fez uma pergunta inútil qualquer.
Respondeu e voltou a fechar os olhos.
A vida foi passando.
As cores foram mudando.
Apenas envelheceu. Mas envelheceu mais feliz depois que a imaginação foi virando realidade.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Stress

Parecia impossível que aqueles olhos pudessem ser duros.
Mas nada é impossível, já deveria saber.
A voz doce. Parecia inacreditável que pudesse traçar um panorama tão desalentador.
Mas traçou. E pontuou, flexionou, alterou e repetiu palavras, como se estivesse discursando para uma multidão.
Quando um engrandece em raiva apequena os outros.
Alguns pelo medo, outros pelo espanto. Outros apenas por decepção.
Parecia impossível que a conversa fosse enveredar por aquele caminho.
Mas os caminhos são tortuosos. Cheios de encruzilhadas. Alguns até cheios de armadilhas.
Nas fotos os caminhos são de sombra, árvores floridas, graminhas inocentes e um esquilo ou coelho entre folhagens.
Nas fotos as tristezas nem sempre estão em foco.
Nas fotos o sépia é quase sempre um recurso de máquina ou de algum editor de imagens.
Saiu ilesa, mas nunca mais inteira daquele encontro.
Quando subiu as escadas foi deixando para trás aquela sensação ruim e quando chegou ao outro patamar nada mais importava, a não ser o jogo de futebol que decidiria o campeonato.