quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Desacerto

Aplacada a fúria resolveu pensar.
É, de fato, era pouco problema para muita palavra usada na reclamação.
O tom de voz tinha se alterado.
Mesmo que a voz tivesse se mantido no timbre certo, a bochecha vermelha certamente entregaria a movimentação sanguínea acelerada.
Era sempre assim. Qualquer coisa irritava muito e irritava tanto que esgotava qualquer possibilidade de paz.
Mas, não tinha sido sempre assim.
Não se lembrava de quando havia começado, mas havia começado em algum momento.
Começou e cresceu.
Não se aplacava mais a fúria com um longo suspirar e uma contagem de um a dez.
Quando a moça do supermercado só olhou, não respondeu e disfarçou um meio sorriso, entendeu que era tempo de pedir ajuda.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Distraído

Distraiu-se com a vida e de repente o tempo tinha passado.
Tentou concentrar-se e dedicou-se a fiar suas histórias.
Encontrou-as inacabadas, como teias de aranha arrancadas por uma vassoura desatenta. Pedaço sim, pedaço não. Desabitadas.
Histórias com começos e meios e quase nenhuma com fim.
Mas o que é o fim de uma história?
Quem escreve a palavrinha de três letras com o F em letra maiúscula e lindamente desenhada? Nos contos infantis, o autor.
Na vida... Distraiu-se com a vida e se perdeu de vista, não estava interessado.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

De cães e tapetes

Pensou em um jeito de dizer não, mas não encontrou.
Dizia sim desde sempre.
As pessoas riam dela.
Ela sentia-se bem quando era criança, mas conforme foi crescendo foi se achando a pessoa mais boba do mundo.
Quando tentava não ser boba não dava certo.
Ela com ela mesma se desintegrava e era um tal de tanto pensar que tontificava.
Estava decidida a ser boba até o fim.
O que tinha a seus pés e que não se importava com esse jeito era o tapete.
Nada além do tapete.
Tinha um gato. Mas ele não era desses gatos grudados que ficam deitados no colo e um cachorro não podia ter.
Cachorros exigem demais e ela não tinha muita coisa a oferecer.
Naquele dia, quanto o telefone tocou, ela ficou eufórica pensando que receberia uma proposta.
Mas era só uma consulta.
Talvez por essa frustração momentânea falou sem muitas conjecturas e falou tudo o que realmente devia falar.
Quando terminou percebeu que tinha dito a verdade, sem sofrer, sem parecer boba, apenas disse, num tom de voz nem alto nem baixo. Ponderou que não queria prejudicar ninguém, mas que fato era que...
E assim, pela primeira vez, aos ouvidos de alguém ela teria sido má.
Não doeu tanto.
Sim, já era hora de ter um cachorro e era hora de trocar o tapete da sala.