Carregava sempre consigo o bloco de anotações.
E anotava sutilezas.
O pedaço de uma música. Um pensamento que lhe ocorria.
O telefone de uma plaquinha indicando costureira.
O itinerário de um ônibus que talvez um dia pudesse precisar.
Números ao acaso para talvez um dia jogar na loteria.
Carregava sempre consigo uma caneta bic, azul, com a tampa impecavelmente lustrosa, sem nenhum sinal de dentada inquieta.
E com ela escrevia o pensamento do dia lido em um jornal popular qualquer.
Anotava o significado do nome. Às vezes o signo no horóscopo chinês.
Mas naquele dia teve que anotar a placa do carro que depois do barulho demorou um pouco para manobrar e sair de novo em alta velocidade.
A mão tremia. A caneta queria falhar.
As pessoas gritavam ordenando umas às outras que ajudassem, que acudissem, que telefonassem, mas ninguém se mexia.
Só a mão trêmula desenhava letras e números repetidamente mencionados para não esquecer.
E marca, e cor.
Nada mais se mexia.
Nunca imaginou que o bloco de anotações também serviria para isso.
Arrancou a página e entregou ao policial.
Na página que sobrou ainda se podia ler todos os dados, tão forte pressionou letras e números.
Passou a mão devagar. Alto relevo, baixa compreensão dos caminhos da vida e vice-versa.
Fez sinal para o Vila Mariana. Embarcou. Encontrou um banco no fundo.
Passou a mão devagar na folha em branco mais uma vez. Escreveu um trecho do Pai Nosso que mais que isso não sabia e guardou o bloco e a caneta no bolso, sutilmente.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Particularidades
Meu pai foi dirigindo o seu caminhãozinho, sozinho, da fazenda até a delegacia da cidade de Vera Cruz para tirar sua carteira de habilitação. Quando perguntado quem o tinha levado até lá, disse todo orgulhoso que já tinha ido dirigindo. Só não levou a primeira multa antes mesmo de receber a carteira porque era filho do Sr. Augusto.
Minha mãe tinha uma porquinha de estimação. Andava pela casa, tomada banho, como se fosse um cachorrinho. Brincava de esconde-esconde, ficava sempre atrás da porta da cozinha e quando minha mãe chamava Nininha, ela vinha correndo, mas acho que não balançava o rabinho de mola!
Minha irmã mais velha adorava os pintinhos amarelinhos que andavam pelo quintal da fazenda. Gostava tanto que pegava um em cada mão e apertava dizendo: ai que coisa mais linda! E soltava os pobrezinhos já sem vida. Não sei quantos foram.
Minha segunda irmã mais velha tinha medo dos porcos. Passava por eles pelo chiqueiro e choramingava dizendo que eles estavam fazendo "fusquinha" para ela entre o vão da cerca. Uma espécie de careta. Não era bem medo, no fundo ela achava que era pessoal, que os bichinhos não gostavam dela, que não queriam fazer amizade e por isso ela chorava sentida, apesar de toda paciente explicação da minha mãe.
O meu irmão, nascido e criado na fazenda, cercado de tanto gado leiteiro, era alérgico ao leite de vaca e meu pai o fotografou em frente a uma verdadeira pirâmide de latas de leite. Lá está ele, olhinhos curiosos, calção de pregas, camisa, todo alinhado para a foto. Não sei o que foi feito de tanta lata, mas elas foram parte da diversão e ele sobreviveu forte sem a contribuição das vaquinhas.
Depois dele foi quando eu cheguei. Não morávamos mais na fazenda. Mas ela vive em mim por DNA.
Minha irmã caçula, ainda mais citadina do que eu abusava de sua boniteza e todo dia, por volta das 4 horas da tarde dava um baile porque não queria tomar banho. Queria ficar descalça, com roupas leves, brincando na terra para sempre. A paciência de minha mãe só deu uma volta em uma dessas ocasiões, em que aquele bebe de quase dois anos lhe escapou do quarto, sem roupa, foi até o quintal, passou terra na barriga ainda meio molhada, voltou ao quarto e limpou-se na colcha da cama arrumada sem nenhuma preguinha. Foi o ato de protesto mais forte que já presenciei, eu não fui cara pintada.
Minha mãe tinha uma porquinha de estimação. Andava pela casa, tomada banho, como se fosse um cachorrinho. Brincava de esconde-esconde, ficava sempre atrás da porta da cozinha e quando minha mãe chamava Nininha, ela vinha correndo, mas acho que não balançava o rabinho de mola!
Minha irmã mais velha adorava os pintinhos amarelinhos que andavam pelo quintal da fazenda. Gostava tanto que pegava um em cada mão e apertava dizendo: ai que coisa mais linda! E soltava os pobrezinhos já sem vida. Não sei quantos foram.
Minha segunda irmã mais velha tinha medo dos porcos. Passava por eles pelo chiqueiro e choramingava dizendo que eles estavam fazendo "fusquinha" para ela entre o vão da cerca. Uma espécie de careta. Não era bem medo, no fundo ela achava que era pessoal, que os bichinhos não gostavam dela, que não queriam fazer amizade e por isso ela chorava sentida, apesar de toda paciente explicação da minha mãe.
O meu irmão, nascido e criado na fazenda, cercado de tanto gado leiteiro, era alérgico ao leite de vaca e meu pai o fotografou em frente a uma verdadeira pirâmide de latas de leite. Lá está ele, olhinhos curiosos, calção de pregas, camisa, todo alinhado para a foto. Não sei o que foi feito de tanta lata, mas elas foram parte da diversão e ele sobreviveu forte sem a contribuição das vaquinhas.
Depois dele foi quando eu cheguei. Não morávamos mais na fazenda. Mas ela vive em mim por DNA.
Minha irmã caçula, ainda mais citadina do que eu abusava de sua boniteza e todo dia, por volta das 4 horas da tarde dava um baile porque não queria tomar banho. Queria ficar descalça, com roupas leves, brincando na terra para sempre. A paciência de minha mãe só deu uma volta em uma dessas ocasiões, em que aquele bebe de quase dois anos lhe escapou do quarto, sem roupa, foi até o quintal, passou terra na barriga ainda meio molhada, voltou ao quarto e limpou-se na colcha da cama arrumada sem nenhuma preguinha. Foi o ato de protesto mais forte que já presenciei, eu não fui cara pintada.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
É feio se assim lhe parece
O conceito de estética, de bonito e feio já foi tantas vezes discutido, tantas teses defendidas, tantos estudiosos, doutores que não me atrevo a racionalizar. Mas eu vejo o feio bonito da cidade de São Paulo e não é a primeira vez que falo sobre isso. Mas hoje descobri mais um detalhe.São Paulo amanheceu com chuva.
Cinza sem contornos que deixa tudo sem relevo, ausência completa da sensação 3D. A Marginal Pinheiros é feia. Os carros em velocidade quase zero, primeira, segunda me deixam perceber o celta da nova skin, a kombi da granero. O vectra de Serra Negra leva no banco traseiro um menino tão bonito! Uns 5, 6 anos. Nariz empinado que tantos querem copiar em salas brancas de mesas assustadoras.
Mas a minha descoberta está no céu.
Nos postes que tiram a harmonia do Projeto Pomar, encarcerado por blocos de concreto.
Lá no alto, poste sim, poste não, estão os urubus.
Os urubus são feios. São feios mas são elegantes e hoje exibiram-se para mim em uma coreografia que eu poderia ter preparado.
No alto do poste, asas abertas, bico recurvo, encarando a lentidão abaixo.
Vôos coordenados. Pouso suave. Um bater de asas em camara lenta e em sequência, poste sim, poste não um a um e de repente um agrupamento de 3.
Enquanto conduzi meu carro dançaram para alegrar a minha manhã de compromisso perdido, rapidamente reagendado pelo celular.
Dançaram para me dizer que só é feio o que lhe parece feio. Eles estavam especialmente lindos, hoje, no meio da semana!
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