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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Esvoaçar

Não fosse o tempo que não te vejo deixar um rastro em minha memória eu não saberia mais que você existiu.
Tudo não passou de um pedaço da minha história. Um quadrinho talvez. Uma mudança de página e de repente um grande fim escrito no meio.
A foto amarelou.
A rosa murchou.
A janela bateu com o vento e um pedaço da cortina ficou gritando por socorro no alto do décimo quarto andar.
O livrou caiu, o marcador se perdeu e a história aproveitou para embaralhar-se.
Não fosse o tempo e tudo se resolveria.
O céu tão azul e límpido que não dura para sempre estaria até hoje no ar.
Memória hermeticamente fechada.
Um rastro na minha memória.
Estivesse você aqui e não teria um rasgo no meu querer.
Uma dor no peito.
Um amargor na boca.
Um tremor nas pernas.
Um novo pedaço de história pode ser escrito.
Uma aquarela no lugar da foto.
Margaridas no vaso.
Janela calçada para não prender a cortina, deixar a vida esvoaçar.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Passando a limpo

Se eu voltasse à fazenda hoje eu desceria logo depois de Gália, nas cruzinhas.
Sairia correndo sem olhar pra trás para chegar primeiro que minhas irmãs mesmo estragando a surpresa.
Sob gritos de protesto.
Pararia na "calça comprida" para descansar. Um tronco de árvore que mais parecia um banco e que pela formação dos dois galhos lembrava uma calça comprida.
Mas antes de minhas irmãs me alcançarem eu já estaria de fôlego recuperado e partiria novamente em disparada.
Depois do beijo do avô e dos afagos da tia iria para a cozinha verificar se o bolo de milho - o melhor que já comi em toda a minha vida - estava esperando por mim. E se não, faria a encomenda.
Se eu voltasse à fazenda hoje, logo depois de descalçar os sapatos de viagem eu iria surrupiar uma espiga de milho, uma única, e jogar aos porcos, sem atinar que era maldade pura incitar uma disputa considerando que alguns mal podiam se levantar.
E depois iria olhar o Pombinho tomar banho. O cavalo branco xodó do avô.
E espiar as casas da colonia.
E sentar na sala tão limpa e tão quieta e pensar que aquele silêncio podia me devorar e por isso eu não podia estar ali mais do que cinco minutos.
Se eu votasse à fazenda hoje talvez eu encontrasse lá pessoas queridas, que deixaram marcas no meu coração.
Talvez encontrasse a minha tia Cida, a tia do bis, do jeito carinho de lidar comigo, com os meninos e com o meu tio Nelson que me deu o apelido mais apropriado que já tive até hoje: mosquitinho elétrico.
Se eu voltasse à fazenda hoje eu sairia nessa foto com um sorriso bem maior!
E, claro, ia perguntar pro Luis Otávio porque ele ainda não tinha relógio?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Foto Reflexão


Deixamos para trás um rasto.
Um rastro.
Um rastilho.
De histórias com finais felizes, outras inacabadas, outras com finais que pediríamos a um gênio que nos deixasse alterar.
Caminhamos em direção a um horizonte.
Fonte de outros tantos rastos, quando alcançado.
Se quando caminhamos o que miramos é apenas o reflexo daquilo que queremos conquistar, é nossa a decisão de continuar ou de parar.
Mas não há descanso, só descaso.
Ir e vir pode não levar a nenhum lugar.