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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Esvoaçar

Não fosse o tempo que não te vejo deixar um rastro em minha memória eu não saberia mais que você existiu.
Tudo não passou de um pedaço da minha história. Um quadrinho talvez. Uma mudança de página e de repente um grande fim escrito no meio.
A foto amarelou.
A rosa murchou.
A janela bateu com o vento e um pedaço da cortina ficou gritando por socorro no alto do décimo quarto andar.
O livrou caiu, o marcador se perdeu e a história aproveitou para embaralhar-se.
Não fosse o tempo e tudo se resolveria.
O céu tão azul e límpido que não dura para sempre estaria até hoje no ar.
Memória hermeticamente fechada.
Um rastro na minha memória.
Estivesse você aqui e não teria um rasgo no meu querer.
Uma dor no peito.
Um amargor na boca.
Um tremor nas pernas.
Um novo pedaço de história pode ser escrito.
Uma aquarela no lugar da foto.
Margaridas no vaso.
Janela calçada para não prender a cortina, deixar a vida esvoaçar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Adulto sozinho

Apanhou uma rosa, machucou a mão.
A mãe sempre dizia para não apanhar as flores.
Mas a rosa estava tão linda e fresca naquela manhã de sol insinuante depois de noite chuvosa que não resistiu.
A mãe já não estava mais.
Caminhou apressado para não perder o sinal verde e atravessar em segurança.
Tinha mesmo era vontade de se sentar em um banco de praça e olhar os pombos.
O pai implicava com os pombos.
Lembrou-se de uma casa em que morou e que uns pombos vieram se alojar no alpendre.
Uma confusão!
O dia estava tão lindo.
Um pecado alguém ter que se enfiar em um escritório em dia tão lindo!
Quem será que definia quem nasceria em cidade grande, pequena, em cidade de praia, em cidade de montanha?
Deus, destino, acaso?
O acaso era o mais poderoso senhor do tempo.
Estava sorrindo com seus pensamentos quando a senhorinha que também esperava para atravessar a rua elogiou a rosa.
Despertou.
- Então é toda sua, ela estava mesmo à procura de outra flor!
A senhorinha, cabelo quase azul, tentou recusar mas não resistiu.
Ele ficou tão vermelho que atravessou a rua quase correndo e quase sem ouvir o singelo agradecimento.
Ele não saberia mesmo o que fazer com uma rosa em escritório tão frio e inóspito.
Ficou pensando se aquilo que dissera poderia ser considerado poesia, depois não se importou mais com isso e apenas se desculpou com a mãe lá no céu:
- Viu Dona Eulália? Foi por uma boa ação!
E seguiu seu destino de adulto sozinho em cidade grande.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Revés

Podia sentir a brisa fresca
enxergar o azul do céu sem manchas
apenas com nuvens leves para não sobrecarregar.
Podia cheirar a rosinha que nascera
sem cuidados no canteiro quase abandonado e
condoer-se do seu rosa pálido.
Podia sentir a água límpida lavando a garganta
porque palavras não se lavam.
Palavras se levam no coração como boa recordação
e no fígado para os momentos de raiva.
Toda gente tem momento de raiva.
Toda gente tem momento de alegria.
Toda gente tem momento de silêncio.
Toda gente tem momento de amor intenso, desses que até doem.
Toda gente tem momento de  tristeza.
Toda gente tem momento de fé.
Mesmo os que não acreditam em deus nenhum tem fé nessa sua descrença
de tal forma que tem mais fé do que alguns fiéis.
Toda vida tem um viés.
Todo caminho tem um atalho.
Toda subida tem um platô de descanso.
Toda saudade tem um momento de não lembrar.
Toda poesia tem um quê de mal versar.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Velhice








o último minuto pode ser o primeiro
de outra vida, de outro tempo,
olhava a roseira crescer observando a
gota de orvalho
que podia ser do choro de um anjo
que podia ter deixado de ser anjo
anjos deixam de ter asas quando se
apaixonam
as rosas são as primeiras a saber
as margaridas, baixa-estima em alta
ironizam
o girassol vira para o outro lado e
nem quer saber
por isso as rosas têm espinhos
avisos doloridos de que amar machuca
mas os anjos não sabem
não há anjo que retorne de sua dor
para contar
sentava na varanda em sua cadeira verde
e balançava um tempo sem vaidade
o muro baixo
a gente passando apressada do trabalho
o carteiro que trazia sempre apenas
um aceno ou uma conta
nunca uma carta, que já cartas
não se escrevem mais
o último minuto pode ser o primeiro
e por isso esperava ela já sem
esperança de nada
mas quando se levantou para entrar
empurrada por um ventinho frio
olhou para o céu e a lua crescente piscou
pediu em silêncio para o último minuto
deixar pra depois porque coisa
tão linda merece ser vista muitas
e muitas vezes
se benzeu e foi jantar
que a novela já ia começar