Olhe para ela.
Nunca viveu um grande amor.
Casou, descasou.
Não teve filhos.
Nunca fez um boneco de neve.
Andou duas ou três vezes de avião.
A prima diria voou, não andou...
Olhe para ela.
Verões em praias medíocres.
Visitou uma caverna em excursão.
Rendeu graças em Nossa Senhora da Aparecida,
Mas também leu Chico Xavier.
Trabalhou arduamente em seus turnos regulares.
Nunca quis ser mais do que foi.
Nunca teve casacos de pura lã.
Olhe para ela.
Nunca apareceu em nenhuma revista.
Nunca tirou passaporte.
Nunca escreveu um poema.
Como cuidou do pai, depois da mãe,
incansável e sem nunca reclamar
Deus lhe deu como bônus morrer assim,
como um passarinho.
Deitou depois de rezar o terço e não acordou mais.
Foi a Maria que achou.
Olhe para ela.
Não sei por que, mas ainda assim acho que tem cara
de quem está sempre zombando de nós.
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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Adolescente
tenho um frágil passarinho nas mãos
não tem asa quebrada, mas ainda tem medo de voar
o medo do coelhinho assustado
que não quer ficar na toca, mas que quando na toca não está
tem medo do que possa ser
transição é uma palavra que assusta
ninguém transita bem por ela
é sempre um não saber alguma coisa
tenho um delicado tecido para bordar
qualquer ponto apertado demais pode rasgar,
frouxo demais pode desmanchar
as minhas palavras dançam melhor em coreografias de papel
não quando são ditas entre caras e bocas
digo o que não penso,
não penso no que digo
cada peso tem sua medida exata
tenho um frágil passarinho nas mãos
que quero forte
que quero livre
que quero de voo seguro
preciso aprender para ensinar
não tem asa quebrada, mas ainda tem medo de voar
o medo do coelhinho assustado
que não quer ficar na toca, mas que quando na toca não está
tem medo do que possa ser
transição é uma palavra que assusta
ninguém transita bem por ela
é sempre um não saber alguma coisa
tenho um delicado tecido para bordar
qualquer ponto apertado demais pode rasgar,
frouxo demais pode desmanchar
as minhas palavras dançam melhor em coreografias de papel
não quando são ditas entre caras e bocas
digo o que não penso,
não penso no que digo
cada peso tem sua medida exata
tenho um frágil passarinho nas mãos
que quero forte
que quero livre
que quero de voo seguro
preciso aprender para ensinar
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