29 de fevereiro
marcadamente diferente
fevereiro era o último mês quando o ano começava em março e por isso ele é menor, com 28 dias, e por isso a cada quatro anos é dele a responsabilidade de restabelecer a ordem da translação da terra que leva 365 dias e quase 6 horas... para girar em torno do sol
já que não dava pra ter um dia de 6 horas (eu não me importaria!), a cada quatro anos um dia extra
ele deveria ser extra mesmo e poderíamos não fazer nada ou ter um desejo concedido
se eu pudesse ter um desejo concedido
teria gostado de ser uma menina de quatro anos voando pela primeira vez com meu pai
ele me explicaria tudo o que o avião fosse fazendo e enquanto o avião estivesse taxiando eu faria uma daquelas minhas observações:
- mas pai, o avião está andando, não está voando, o avião vai a pé?
29 de fevereiro
marcadamente igual
tenho saudades do meu pai sempre
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Meus de amar
Caminho sob o sol do meio dia e do outro lado da calçada um pai jovem carrega a sua menina.
Uma menina que se minha mãe visse certamente diria: parece de folhinha! Eu digo que parece uma boneca.
Cabelos loiros, cacheados, bochecha rosada.
E nada mais é preciso do que o sol a pino e uma imagem tão singela para eu me lembrar de tardes mais amenas.
Tardes em que eu telefonava para casa avisando que estava de saída do escritório.
Tardes em que ainda ao longe, na calçada larga da parte bonita da avenida nove de julho eu vislumbrava um pai jovem e sua menina.
Vinham ao meu encontro.
E eram meus.
Não meus de ter, possuir, comprar e vender.
Meus apenas de amar.
Nem foi preciso fotografar esses encontros em tardes amenas.
Tão vivos em meu coração.
Cenas de amar.
Quando olhamos para o nosso cotidiano enxergamos retratos de nossa história e nossa existência pode ser leve e feliz.
Meus de amar.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
85
Oitenta e cinco partidas de futebol.
85 estradas percorridas.
Oitenta e cinco palavras boas.
85 piadas.
Oitenta e cinco bacias de pipoca.
85 sopas diferentes.
Oitenta e cinco beijos.
85 broncas.
Oitenta e cinco contas.
85 desenhos.
Oitenta e cinco anos que pararam nos setenta e 2.
Um coração que parou, o seu.
Um coração que acelerou, o meu.
Para suportar olhos que agora veem por dois.
Feliz aniversário pai.
85 estradas percorridas.
Oitenta e cinco palavras boas.
85 piadas.
Oitenta e cinco bacias de pipoca.
85 sopas diferentes.
Oitenta e cinco beijos.
85 broncas.
Oitenta e cinco contas.
85 desenhos.
Oitenta e cinco anos que pararam nos setenta e 2.
Um coração que parou, o seu.
Um coração que acelerou, o meu.
Para suportar olhos que agora veem por dois.
Feliz aniversário pai.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Para olhos azuis
Com meu pai aprendi a gostar de pipoca
a ser honesta
a gostar de futebol
a olhar o relógio e obedecê-lo
cegamente
Com meu pai aprendi a gostar
das estradas e dos mapas
como veias serpenteando um corpo
Com meu pai aprendi a gostar
de música sertaneja
de assoviar
de fazer troças com os medos
da minha mãe
Aprendi a gostar de milho cozido
de sentar à cabeceira da mesa
Aprendi a desconfiar de meio-sorriso
Com meu pai aprendi a vida
e a ver tudo azul
numa tentativa desesperada e
inútil de imitar nos meus,
a cor inconfundível dos seus olhos azuis!
Escrito em 21 de fevereiro de 1999, as 8h14 - seis meses depois de seus olhos terem se fechado para sempre.
a ser honesta
a gostar de futebol
a olhar o relógio e obedecê-lo
cegamente
Com meu pai aprendi a gostar
das estradas e dos mapas
como veias serpenteando um corpo
Com meu pai aprendi a gostar
de música sertaneja
de assoviar
de fazer troças com os medos
da minha mãe
Aprendi a gostar de milho cozido
de sentar à cabeceira da mesa
Aprendi a desconfiar de meio-sorriso
Com meu pai aprendi a vida
e a ver tudo azul
numa tentativa desesperada e
inútil de imitar nos meus,
a cor inconfundível dos seus olhos azuis!
Escrito em 21 de fevereiro de 1999, as 8h14 - seis meses depois de seus olhos terem se fechado para sempre.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Onde é que vende?
Há 13 anos o coração do velho Nicolino jogou a toalha e parou de bater.
Em uma semana tudo aconteceu e ele se foi.
Quando teve o primeiro ataque cardíaco não pensei em nada, apenas tomei um avião e fui vê-lo.
Fiquei olhando para ele naquela cama de hospital, pálido, com os olhos azuis ainda brilhantes e falamos apenas de coisas interessantes.
Levei algumas revistas.
Comentei que traria novas pedras para a coleção de cidades de Portugal para onde eu iria em férias.
No final de semana voltei para casa.
Uma semana depois refiz a viagem mais triste da minha vida.
Pronto. Isso é tudo.
13 anos são suficientes para relembrar do momento doloroso.
Agora ficarão apenas as coisas boas e inusitadas que ainda me espantam e me enchem o coração de alegria.
Como o dia em que fomos juntos ao colégio em Presidente Prudente, recém chegados de Tupã, porque a diretora havia dito que não tinha vaga porque não tinha cadeira... E ele me fez acompanhá-lo para ouvi-lo dizer:
- bom, imagino que quem ensina 28 alunos pode ensinar 29, principalmente porque a minha filha aprende rápido, pode ver o histórico da outra escola, e se não tem carteira, não tem problema, eu compro uma, onde é que vende?
Na volta as aulas, lá estava eu, estudando no melhor colégio recomendado... público, obviamente, e nem foi preciso comprar uma carteira!
Em uma semana tudo aconteceu e ele se foi.
Quando teve o primeiro ataque cardíaco não pensei em nada, apenas tomei um avião e fui vê-lo.
Fiquei olhando para ele naquela cama de hospital, pálido, com os olhos azuis ainda brilhantes e falamos apenas de coisas interessantes.
Levei algumas revistas.
Comentei que traria novas pedras para a coleção de cidades de Portugal para onde eu iria em férias.
No final de semana voltei para casa.
Uma semana depois refiz a viagem mais triste da minha vida.
Pronto. Isso é tudo.
13 anos são suficientes para relembrar do momento doloroso.
Agora ficarão apenas as coisas boas e inusitadas que ainda me espantam e me enchem o coração de alegria.
Como o dia em que fomos juntos ao colégio em Presidente Prudente, recém chegados de Tupã, porque a diretora havia dito que não tinha vaga porque não tinha cadeira... E ele me fez acompanhá-lo para ouvi-lo dizer:
- bom, imagino que quem ensina 28 alunos pode ensinar 29, principalmente porque a minha filha aprende rápido, pode ver o histórico da outra escola, e se não tem carteira, não tem problema, eu compro uma, onde é que vende?
Na volta as aulas, lá estava eu, estudando no melhor colégio recomendado... público, obviamente, e nem foi preciso comprar uma carteira!
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Eu pensava
Quando era criança pensava que meu pai ia morrer bemmm velho, com 43 anos!
Ele morreu muito jovem, com 72.
Eu pensava que era um escândalo o Roberto Carlos cantar "amada amante" porque amante para mim era sempre a mulher que não era esposa, era um absurdo falar dessa situação em uma música. E pior ainda, minha mãe não se importava e deixava minhas irmãs adolescentes cantarem junto com o rádio coisa tão feia.
Eu tinha certeza de que o mundo era redondo, mas pensava que morávamos dentro da bola oca e que o céu era uma espécie de cobertura e que o maior progresso científico seria furar essa camada e descobrir o que havia fora da bola.
Eu pensava que não merecia mais do que tinha porque não era uma boa menina.
Eu pensava que um bom cantor, cantora, já nasciam sabendo fazer aquilo e achava uma farsa ter que estudar canto. Quando eu cresci eu mesma estudei canto, mas só serviu para confirmar a minha tese de que para certas coisas ou se nasce ou se nasce.
Sobre todas as outras descobri que não estava exatamente certa.
Não quero estar certa, quero é nunca perder a capacidade de duvidar, de questionar, de confrontar e de dar a mão à palmatória quando estiver errada.
Só isso. É o que eu ainda penso.
Ele morreu muito jovem, com 72.
Eu pensava que era um escândalo o Roberto Carlos cantar "amada amante" porque amante para mim era sempre a mulher que não era esposa, era um absurdo falar dessa situação em uma música. E pior ainda, minha mãe não se importava e deixava minhas irmãs adolescentes cantarem junto com o rádio coisa tão feia.
Eu tinha certeza de que o mundo era redondo, mas pensava que morávamos dentro da bola oca e que o céu era uma espécie de cobertura e que o maior progresso científico seria furar essa camada e descobrir o que havia fora da bola.
Eu pensava que não merecia mais do que tinha porque não era uma boa menina.
Eu pensava que um bom cantor, cantora, já nasciam sabendo fazer aquilo e achava uma farsa ter que estudar canto. Quando eu cresci eu mesma estudei canto, mas só serviu para confirmar a minha tese de que para certas coisas ou se nasce ou se nasce.
Sobre todas as outras descobri que não estava exatamente certa.
Não quero estar certa, quero é nunca perder a capacidade de duvidar, de questionar, de confrontar e de dar a mão à palmatória quando estiver errada.
Só isso. É o que eu ainda penso.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Aristides
O meu nome é Aristides.
A mãe nunca soube dizer por quê.
Quando eu nasci eu fiquei sendo “o menino” até quase três meses.
Aí o pai foi na cidade e quando voltou entregou o documento pra mãe com esse nome: Aristides.
A mãe não gostou, mas achou melhor não brigar com o pai.
Só falou que o nome era muito grande para um menino tão pequeno e começou a me chamar de Tide.
O pai me chamava de Ari.
As poucas pessoas da roça onde a gente morava me chamavam de moleque quando comecei a circular e quando se referiam a mim diziam apenas “o raspa” do seu Osvaldo.
Eu podia ter sido Osvaldo Junior, mas o pai não pensou.
Eu nunca perguntei pro pai de onde ele tirou a idéia de me chamar de Aristides.
Mês passado eu acho que descobri.
Eu perdi todos os documentos, todos, mas tudinho, não sobrou um nada e pra começar tudo de novo eu fui lá na cidadezinha pedir outra certidão de nascimento.
Fui de ônibus. Dá quase três horas da cidade onde eu moro agora.
A cidade tá igualzinha. Acanhada. Uns cachorros magros pela praça.
O moço que me atendeu no balcão quando trouxe meu documento novinho em folha me chamou de xará.
Eu perguntei se ele chamava Aristides, porque vai que xará já quer dizer outra coisa com essas modernidades que andam por aí.
Ele respondeu que sim, Aristides Junior.
Como a idade dele regula com a minha, fiquei pensando que meu pai não tinha nenhuma idéia de nome pra me dar e me registrou com o nome do dono do cartório.
É um bom nome o meu, Aristides. Eu acho bonito.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
No princípio era o verbo
Não conheceu o pai.
Cresceu entre mãe, avó, primas, tias, tios e o avô lá no canto, sempre resmungando.
Enquanto comia, brincava e dormia aninhado com a mãe, não concebeu a ausência do pai.
O primeiro ano na escola causou certa estranheza.
Depois desconforto.
Depois dúvidas. Perguntas. Ausência. Vergonha.
Nas comemorações do dia dos pais, os cartões eram para o avô, mas tão sem sentido, ele apenas olhava, recebia um abraço frio e pronto.
Começaram as perguntas.
Elas sempre ficaram sem respostas.
Foram fases de desengano.
Fases de desespero.
Fases de olhar apenas o presente e o futuro, mas aquela coisa sempre como uma sombra negra.
Um i sem ponto é uma aberração. É? Não tinha mais certeza.
Tentou com a mãe várias abordagens.
Concluiu que era egoísta e não teve forças para arrancar dela a verdade.
Ela se foi.
Construiu sua própria família.
Tudo muito identificado.
Um dia resolveu contar para outras pessoas.
Dividiu uma pergunta com o universo.
Ele ainda não respondeu.
Gente que sabe, gente que não sabe.
Não conheceu o pai.
E então concluiu que também não conheceu a mãe, já que nunca entendeu as razões que esconderam o seu princípio.
Sobrou apenas o verbo.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Constatação
Perpetuamos-nos de várias formas.
Os grandes descobridores sobrevivem hoje e de muitos deles não sei nada mais além de sua brilhante invenção. Se teve pai e mãe presentes em sua infância, se teve irmãos, se teve filhos, nada sei.
Grandes escritores.
Grandes músicos.
Grandes pintores.
Sobre grandes homens que apenas cresceram, amaram os seus, trabalharam, olharam o céu em dias de céu claro ou de céu escuro, nada sei.
Mas nos perpetuamos entre os nossos.
Meu pai foi um desses homens que nada descobriu, que cresceu jogando bola e amou os seus.
Que adorava os dias de céu azul e temia os dias de céu escuro.
Não escreveu nenhum livro, mas nos deixou cadernetas com anotações em sua letra firme: a data do primeiro corte de cabelo do meu irmão, quanto custou abastecer o tanque, quanto devia pagar ao açougue no final do mês, datas de viagem...
Não escreveu nenhuma canção, mas eu ainda respondo o assobio que ele dava ao chegar em casa e anunciar-se.
O que mais me entristece e enternece é ter sabido anos depois que ele confessou à minha mãe que não mais o faria - depois que me mudei para São Paulo - porque eu não estava mais lá para responder.
E mesmo sem canções ou livros meu pai perpetuou-se.
Em mim, nas minhas irmãs e irmão, nas histórias que contamos sobre ele quando nos reunimos, nas histórias que contamos sobre ele para nossos filhos.
Perpetuamos-nos se amamos e não é nenhum consolo, apenas uma constatação!
segunda-feira, 9 de março de 2009
Só um detalhe
Ontem o Palmeiras jogou com o Corinthians lá em Presidente Prudente. Mas isso é só um detalhe. Um detalhe que me faz lembrar detalhadamente de meu pai.
Foi lá em Presidente Prudente que eu o vi pela última vez, em um leito de hospital, fragilizado, mas com aqueles olhos azuis, que não herdei, vivos como nunca.
Falamos de revistas, de joão de barro, um passarinho mais do que curioso, vimos juntos a foto de um que fez um verdadeiro edifício, três casas, uma em cima da outra, será que era polígamo, megalomaníaco, perfeccionista? Ficamos sem resposta.
Falamos de pedra. Eu tinha recolhido algumas para ele, que adorava e colecionava, da Pedra do Baú, mas não cheguei a entregar.
O futebol nos unia. Ou era uma desculpa para estarmos mais tempo juntos.
A pipoca.
O sorvete de milho verde.
As contas. Anotações e mais anotações em caderneta. Valores de combustível, de açougue, de conta de luz e água.
Desenhar.
Ele se divertia contando que em um exame de psicotécnico lhe pediram para desenhar um homem e uma árvore.
Fez só a árvore. Questionado respondeu:
O homem está atrás da árvore! Mas sem pestanejar desenhou dois homens, um com cada uma das mãos, enquanto sorria.
Era ambidestro. Também não herdei essa maravilha.
A perspicácia sim.
E o assovio. Ou assobio como preferem outros.
Quando ele chegava, já do portão assobiava um ritmo que é uma pena que eu não tenha como reproduzir em palavras. Mas talvez seja melhor, assim continua sendo só nosso.
E eu respondia imediatamente.
Quando eu não o fazia automaticamente ele perguntava ao primeiro que encontrava:
- onde está a Lusiinha?
Quando não, ao escutá-lo minha mãe já se adiantava... A Lusiinha foi...
Quando me mudei para São Paulo ele chorou. E disse à minha mãe que nunca mais chegaria assobiando e cumpriu a promessa e então fui eu quem chorou.
O jogo ficou empatado: 1 x 1.
Mas isso é só um detalhe.
Foi lá em Presidente Prudente que eu o vi pela última vez, em um leito de hospital, fragilizado, mas com aqueles olhos azuis, que não herdei, vivos como nunca.
Falamos de revistas, de joão de barro, um passarinho mais do que curioso, vimos juntos a foto de um que fez um verdadeiro edifício, três casas, uma em cima da outra, será que era polígamo, megalomaníaco, perfeccionista? Ficamos sem resposta.
Falamos de pedra. Eu tinha recolhido algumas para ele, que adorava e colecionava, da Pedra do Baú, mas não cheguei a entregar.
O futebol nos unia. Ou era uma desculpa para estarmos mais tempo juntos.
A pipoca.
O sorvete de milho verde.
As contas. Anotações e mais anotações em caderneta. Valores de combustível, de açougue, de conta de luz e água.
Desenhar.
Ele se divertia contando que em um exame de psicotécnico lhe pediram para desenhar um homem e uma árvore.
Fez só a árvore. Questionado respondeu:
O homem está atrás da árvore! Mas sem pestanejar desenhou dois homens, um com cada uma das mãos, enquanto sorria.
Era ambidestro. Também não herdei essa maravilha.
A perspicácia sim.
E o assovio. Ou assobio como preferem outros.
Quando ele chegava, já do portão assobiava um ritmo que é uma pena que eu não tenha como reproduzir em palavras. Mas talvez seja melhor, assim continua sendo só nosso.
E eu respondia imediatamente.
Quando eu não o fazia automaticamente ele perguntava ao primeiro que encontrava:
- onde está a Lusiinha?
Quando não, ao escutá-lo minha mãe já se adiantava... A Lusiinha foi...
Quando me mudei para São Paulo ele chorou. E disse à minha mãe que nunca mais chegaria assobiando e cumpriu a promessa e então fui eu quem chorou.
O jogo ficou empatado: 1 x 1.
Mas isso é só um detalhe.
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