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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quintal

As frutas do meu quintal.
Tantos quintais. Dentes de menos, sardas de mais.
Mexerica. Pequenas e azedas.
Difícil descascar, gostoso sentir o maxilar se arrepiar do azedo.
Caldo escorrendo entre dedos compridos.
E amora.
O pé alto, tão forte, com frutas tão pequenas e delicadas.
Esparramadas no chão. Tingindo a terra de um vermelho de sangue.
Na camiseta? Para sempre.
Depois, manga e pitanga.
Pitangas debruçando na varanda, como quem quer entrar na cozinha para o chá.
Na casa branca, casa de boneca, abóbora que não é fruta, mas que cercava as bananeiras.
Laranjas.
As frutas do meu quintal.
Tantos quintais, nunca iguais.
Depois os quintais foram ficando na memória.
Saí do quintal, mas o quintal nunca saiu de mim.
E agora tudo de novo se renovando.
Não tem terra, mas tem vaso grande.
Hoje tenho no meu quintal jabuticabas que dividimos com os passarinhos.
Pitangas, vermelhas, de um doce azedo indescritível.
Goiaba, manga, limão.
E correndo entre tudo isso duas meninas, uma gata e um cão.
Um mundo inteiro num pedacinho de chão!  

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sem calma

Todo o corpo superfície, pela boca entrada da caverna.
Escondido num canto um coração sem alma.
Um fígado funcionando.
Um rim abusando e um estômago satisfeito com balas 7 belo.
Um mundo maior do que é.
Um momento menor do que deveria ser.
Um tempo de ser e apenas ser sem ter que ter mais do que é preciso.
É preciso um bicho no pé.
Um cachorro latindo no portão.
Uma criança com joelho esfolado na bicicleta.
Outra criança com um cartão de feliz dia dos pais.
Um céu que não cansa de ser azul.
Um mar que não chega ao interior.
Uma festa que não se quer ir.
Uma vela para acender.
Um santo para ajudar.
Uma poesia para proteger a dor que não quer caber.
Um pé de tênis, um pé de salto, um pé descalço.
Um pé que pedala só pro vento esfriar a face.
Vermelha de sol, vermelha de ansiedade,
Vermelha de ver florescer as pitangas no vaso.
Todo o corpo superfície, pela boca entrada da caverna.
Escondido num canto um coração sem alma.
Sem calma porque reaprendendo a falar.