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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Gosto de varrer o quintal

Gosto de varrer o quintal.
O silêncio quebrado apenas pelo ruído da vassoura no chão.
E as coisas vão se juntando. Destino final.
O sol forte, um céu tão azul.
Uma poeira leve.
Folhas secas que já cumpriram sua principal função.
Folhas ainda verdes que sucumbiram ao vento ou a brincadeira das meninas ou da gata.
Sementes que não vão brotar.
No meio disso tudo uma abelha.
Nada abelhuda.
Talvez vergonha da colméia, aquela que não voltou com a missão cumprida.
Ali, quase escondida entre aquele lixinho inocente.
Enquanto varro meus pensamentos seguem o movimento do vento.
Ele quer brincar comigo, mas não é hora para isso.
Vou reunindo tudo em um montinho.
Não precisava varrer o quintal.
Mas varrer o quintal é também varrer umas teias de aranha de sentimentos amarelos que ameaçam sufocar.
De ver voltar à ordem e depois observar o atrevimento da primeira folha que vai cair.
Gosto do barulho da vassoura.
Gosto do movimento cadenciado.
O ruído da vassoura no chão quebra o silêncio que pode haver no quintal.
A vida doída das folhas que caem e das abelhas que não voltam me interessa.
Posso gostar de varrer o quintal enquanto a vida e a morte discutem suas diferenças.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quintal

As frutas do meu quintal.
Tantos quintais. Dentes de menos, sardas de mais.
Mexerica. Pequenas e azedas.
Difícil descascar, gostoso sentir o maxilar se arrepiar do azedo.
Caldo escorrendo entre dedos compridos.
E amora.
O pé alto, tão forte, com frutas tão pequenas e delicadas.
Esparramadas no chão. Tingindo a terra de um vermelho de sangue.
Na camiseta? Para sempre.
Depois, manga e pitanga.
Pitangas debruçando na varanda, como quem quer entrar na cozinha para o chá.
Na casa branca, casa de boneca, abóbora que não é fruta, mas que cercava as bananeiras.
Laranjas.
As frutas do meu quintal.
Tantos quintais, nunca iguais.
Depois os quintais foram ficando na memória.
Saí do quintal, mas o quintal nunca saiu de mim.
E agora tudo de novo se renovando.
Não tem terra, mas tem vaso grande.
Hoje tenho no meu quintal jabuticabas que dividimos com os passarinhos.
Pitangas, vermelhas, de um doce azedo indescritível.
Goiaba, manga, limão.
E correndo entre tudo isso duas meninas, uma gata e um cão.
Um mundo inteiro num pedacinho de chão!