quarta-feira, 6 de maio de 2015

Roubo

- Eu roubo.
- Desde quando?
- Desde sempre.
- Conte-me algumas passagens.
- Quando era criança roubei um carrinho de plástico de um quintal. Em casa falei para minha mãe que achei na rua. Ela acreditou. Mas umas crianças vizinhas da casa tinham visto e foram lá em casa com o dono do carrinho. Falei que tinha achado na calçada e guardado para devolver, mas eles não acreditaram.
- E sua mãe?
- Não disse nada. Não fez nada.
- E adulta?
- Roubei uma pulseira de uma bolsa em uma academia de ginástica que meu namorado frequentava. Foi uma confusão lá, mas eu não soube. Um tempo depois ele viu a pulseira comigo e levou de volta. Tive que telefonar e me desculpar. Ele ficou com muita vergonha de mim.
- E você?
- Eu o quê?
- Você ficou com vergonha?
- Não me lembro. Acho que sim.
- E parou por aí?
- Não, eu ainda roubo. Coisas, qualquer coisa. Não quero lucrar, não são coisas de valor. Quero ter. Quero subtrair.
- Podemos continuar essa conversa na próxima semana.
- Eu não vou voltar.
- Seria bom.
- Seria. Mas não vou voltar. Não vou pagá-lo. Acabo de roubar o seu tempo.
- Ok. Acho que vai voltar sim.
- Não. Eu roubo. Apenas isso, nada mais.

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