terça-feira, 31 de março de 2009

Quem vai lá

Esse risco no céu, branco, quase traçado com uma régua, é um vôo que desconheço.
Mas que habita meu imaginário desde criança.
Deitar no quintal, na sombra de uma árvore qualquer e esperar que rasgue o céu.

Não deito mais.
Mas quando sou ágil o suficiente, antes de pregar os olhos até que desapareça, fotografo. Sem técnica, sem recurso, a mais amadora das fotos em todos os sentidos.

E quem vai lá?
Quem pilota e o que conversa com o amigo (será amigo?) que está ao lado?
Quantas aeromoças, caras amarradas em final de vôo ou sorriso ensaiado do início?

De onde vem e pra onde vai? Há um verso de uma música que diz que de onde vem não importa pois já passou.

Quem vai lá? Homens e mulheres, crianças, jovens e idosos?
Nunca saberei. Por isso posso desenhar o meu traço.
Trabalho? Lazer? Primeiro vôo? Último? Despediu-se de alguém para nunca mais? Alguém espera para, finalmente, serem felizes para sempre?
Que rota é essa que me surpreende quando não espero e quando espero não aparece?

Um risco branco no céu é sempre um risco branco refletido em meus olhos.
Eu nunca quis ser piloto, aeromoça, astronauta, nada disso.
Eu sempre quis apenas descobrir quem vai lá!
E talvez escrever suas histórias.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Estradas: manual de sobrevivência


Para mulheres, sorry meninos. Mas vocês também podem tirar proveito.
O básico: não dirigir de chinelo nem falando ao telefone.
Não retocar a maquiagem enquanto dirige.
Respeitar os limites de velocidade.
Aqui começamos. Descubra qual é a potência do seu veículo. Se não sabe pergunte ao homem próximo mais próximo ou melhor, consulte o manual.
Se você tem um carro mil não siga todas as minhas dicas. Tenha uma boa música, mantenha-se nas faixas de rolamento da direita e siga em frente tranquilamente. Não há nenhum problema.
A gasolina aditivida não vai ajudar. Não é para isso que ela serve.
Se esse não é o seu caso, se você consegue desenvolver a velocidade compatível com a permitida, mas encontra muitos outros motoristas que adoram andar nas pistas da esquerda, em baixa velocidade, aqui vai uma dica de ouro!
Escolha um carro. Dirigido por um homem. De preferência um audi, um bmw, como segunda opção pode ser um peugeot 307, um renault. Preto de preferência.
Pick-ups não servem. As pequenas, tipo Saveiro, estão sempre muito acima da velocidade permitida. As grandes, mais novas, como a Hilux ou mesmo os utilitários mais modernos, apesar da boa performance ainda estão em fase de exposição e desfilam majestosas. Não servem.
Encontrou? Ultrapasse, mas ande um pouco ao lado dele, se possível espie e depois dispare.
Afaste-se sem exceder os limites.
Não demora nada, nada para que ele te ultrapasse indignado. Principalmente se for muito jovem ou entre 45/50 anos.
Pronto, agora você tem um batedor. Siga-o e ele abrirá caminho para você assustando todos aqueles que trafegam na faixa da esquerda bem abaixo da velocidade permitida.
Mantenha uma distância que não pareça que o está provocando, mas também não o suficiente para que alguém usufrua do seu trabalho e se insira entre vocês dois.
Nunca aceite provocações, mantenha-se dois passos atrás como as japonesas faziam antigamente com seus maridos.
Quando estiver próximo do seu destino pode perder o contato. Pronto, simples, divertido e rápido!

Dica extra: pela Bandeirantes ou Anhanguera, mantenha-se longe de caminhões da Sadia, de grande porte, ou de médio/pequeno porte das Casas Bahia.
Diminua até que desapareçam ou acelere para ganhar muita distância.
Estou quase comprovando a minha tese de que eles tem carta branca, licença para matar.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Toledo

Eu fui a Toledo. A Toledo de Espanha. A Toledo de Castilla-La Mancha.
Caminhei pelas ruelas. Tirei muitas fotografias. Comi. Comprei presentinhos.
Respirei o ar quente de um verão europeu inesquecível.

E, assim como eu, muitos.

Mas eu também fui a Toledo. A Toledo do Brasil. A Toledo do interior de São Paulo.
Não Pedro de Toledo, não a Toledo do Paraná.
Não, a minha Toledo fica escondidinha ali perto de Tupã.
Eu acompanhava minha avó Amélia.
Visitávamos várias casas, de vários parantes de minha avó e meus, claro.
Não podíamos rejeitar a mesa posta para um café ou um chá.
Mas não podíamos nos fartar em uma das casas porque o ritual se repetia em muitas delas!

Eram conversas que eu não compreendia, mas me deliciava com os personagens.
Foi lá que senti o cheiro de um gambá.
Que tive medo de uma moita de bambu porque fiquei zanzando até o escurecer.

Lá eu não tirei fotos.
Mas todas as imagens estão gravadas em mim em alto relevo e me revelam um mundo que já se foi.

Tia Olinda é a representante desse pedaço da minha história.
Muito alta, muito magra, muito italiana.

Quando era ela quem nos visitava, raramente, em Tupã, despedia-se com uma frase magistral:

- vem lá de nóis passar uns dias!

Tão sincero convite ainda perturba minha mãe, que sabe imitar com perfeição o som agudo — quase um falsete — e os trejeitos de Tia Olinda. Minha mãe se sente culpada de nos fazer rir tanto a custa de pessoa tão doce e que já se foi.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Maracanã

É, essa daí sou eu no Maracanã.
Vendo meu time se aquecer?
Pensando na derrota?
Desenhando uma jogada?
Maracanã de madrugada.
O futebol passa pela minha vida e a pontua.

Já sonhei ser radialista, narradora de futebol.
Já sonhei ser treinadora de futebol.
Já sonhei ser a mulher de marketing de uma das marcas de futebol e fazer dinheiro como faz o Barça ou o Real Madrid.
Ainda posso comentar e escrever sobre futebol.

Nessa madrugada em que o Maracanã se abriu (para a produção de um filme publicitário e blá blá blá) o que menos importava era estar ele vazio de torcida, vazio de ídolos, com chuva fina, porque o espírito dessa magia indecente estava por ali.

Atormentado apenas pelo seu anjo da guarda que gritava de cinco em cinco minutos:
- não, não pisa no gramado!
- hei, no gramado só de meia, sem sapatos!
- oh não, eu passei a manhã toda penteando esse gramado!

Nenhum maracanã-guaçu ou maracanã-de-colar cruzou o ceú naquela madrugada.
Talvez porque o rio Maracanã tenha sido totalmente canalizado, nesses tempos de modernidades.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Linha de Raciocínio

Cresci desejando escrever.
E escrevi em minha adolescência, juventude, cartas, cadernos de anotações, diários, poesias, textos para um teatro que também adormeceu.

Esperei anos por essa ferramenta que me permite, agora, continuar escrevendo e melhor, que me permite ser lida!
Mas não imaginava o que mais esse blog poderia me trazer e descobri ontem.

Buscando assunto dia desses fui resgatar um texto antigo escrito depois da leitura de um texto de Mário Quintana, do qual não me lembrava o nome.
Gerou pesquisa, um post, novos amigos escrevendo a respeito e a descoberta de uma peça de teatro baseada no meu texto de Mario.

De um dos atores o convite para ver as fotos da montagem no Orkut.
Humm... eu não tinha mais Orkut, mas queria ver as fotos.
Refiz um perfil só para isso.

E agora, por conta desse perfil, fui encontrada por duas amigas queridas, de grupos diferentes, das quais me lembro bem, tenho saudades e que fizeram e farão diferença na minha vida.

Lídia, onde andava você desde aquele cinema em 1990?
Cida, com quem fui até João Correia na Bahia, onde andava desde 1987?

De um lugar por onde andaram estou segura: dentro do meu coração!

terça-feira, 24 de março de 2009

Invisíveis

No supermercado vejo uma modelo.
Muito alta, muito magra, muito loira e dança com as pernas num caminhar que não aprendi.
Todos a olham e ela sabe disso aprimorando sua dança.
Mas ela não é mais bonita do que a menina que minutos depois faz a minha unha.
Ela não exibe seus olhos azuis petróleo porque precisa manter a cabeça baixa em sua concentração.
Seu cabelo negro preso com displicência não ganha carinho de escovas e produtos importados.
Mas ela é linda.
O sorriso quando comenta alguma coisa e quando agradece ajudaria a vender qualquer produto, de creme dental a uma viagem a Paris.
Mas ela é invisível em seu caminho de casa até o ponto de ônibus, do metrô até o salão de beleza, do balcão de fast food até a lojinha mais próxima, experimentar uma sandalhinha que está em promoção.
Ela passa e não vê que está rodeada de invisíveis.
O moço do táxi.
O entregador de pizza.
O varredor de rua.
A moça do café.
O porteiro.
O segurança do prédio.
Não, eles não tem os olhos azuis e as feições delicadas, mas para quê?
Parada, esperando, em muitas situações, conto nos dedos de uma única mão quantas pessoas são capazes de um sorriso, de um bom dia, de um como vai? de um obrigada, de um por favor.
São invisíveis.
Só se destacam da paisagem coloridos por nossa fúria quando algo dá errado e neles queremos descontar toda a nossa frustração.
Nesses momentos não há mãos e pés que cheguem para contar quantos de nós usamos de impropérios e todo tipo de palavras descabíveis.
Invisíveis em seu (quase nosso) colorido destino.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Foi ela quem lembrou

Não me lembro de todas as minhas traquinagens.
Algumas são históricas e podem ser contadas, outras não me arrisco a compartilhar e de algumas eu realmente não me lembro.
Mas, para essas, eu sempre tenho ajuda e na maioria das vezes, a própria vítima me conta sem acreditar que dela me esqueci.

Diz minha irmã caçula que quando eu saia para a escola e ela ficava porque os horários eram diferentes eu lhe dizia ao pé do ouvido.
- Você sabe que sou especial não é?
Ela concordava.
- E sou tão, mas tão especial que posso tocar o céu. Você quer ver?
Balançava a cabeça que sim. Misto de desinteresse e ânsia de se ver livre de mim.
- Então fique olhando.
Eu caminhava e em distância calculada erguia o braço e o dedo e, óbvio (agora!), que pela ilusão de ótica ela realmente me via tocar o céu.
Não sei que expressão fazia, mas devia ser um "ai que saco" naquela cara linda que Deus lhe deu.
E não parava por aí.
Ao voltar eu retomava o assunto e ainda completava:
- Mas o pai e a mãe não querem que ninguém saiba porque senão vou aparecer na televisão, falar no rádio, sair no jornal e não terei mais sossego, então, você não pode contar para ninguém! Nem mesmo pra eles, porque eu saberei. Eu sei tudo o que acontece!
Apesar de caçula cheia de dengos ela só quebrou o silêncio e revelou o segredo agora, há um ano atrás, passado mais de trinta anos e para mim mesma, rindo muito.
Seria um riso nervoso?
Revelou na roda de família, bem protegida, caso eu ainda tivesse todo aquele poder.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Helena

Helena de Tróia, a mulher mais bela do mundo.
Helenas de Manoel Carlos vividas pelas atrizes mais populares de uma televisão que mais parece um membro da família.
Helenas de nossas vidas.
Quantas Helenas conhecemos, quantas amamos, quantas passam por nossas vidas e nem sabemos seus nomes?
São mulheres que sobem a escada rolante enquanto descemos.
Que sentam-se ao nosso lado na ponte aérea.
São mulheres que frequentam a fila do supermercado, da padaria.
São Helenas que levam os filhos ao parque. Os seus e muitas vezes os das patroas.
São elásticas personagens de desenhos animados.
São todas lindas as Helenas.
Eu tenho Helenas especiais.
A que tem meu sangue correndo em suas veias a mais tempo do que eu e que carrega seu Helena escondidinho entre seu nome e sobrenome e que surpreende pelo seu profundo olhar azul.
Eu tenho amiga Helena. Tão querida e tão mais perto agora que está longe do convívio diário. É a matrona mais desencaixada do conceito que eu conheço e por isso não a perco de vista.
São lindas todas as Helenas.
A caçula de uma amiga, olhos curiosos moldados pelo loiro do cabelo de anjo. Bochecha rosada que nunca apertei.

A Helena mais antiga da minha vida já se foi.
Por isso até eu nunca mais comerei o melhor bolo de milho do mundo. Que mulheres de toda a família (menos eu!) reproduziram a receita tentando me agradar mas jamais chegaram ao resultado da minha lembrança degustativa.

Tia Helena que costurava shorts com retalhos de suas costuras. Para quem costurava?
Tia Helena que nunca desistiu daquele relógio cuco que me metia medo quando abria sua caverna misteriosa. Casa silenciosa. Medo da morte.
Tia Helena que me deixava subir na cerca para apanhar ameixas que eu nem comia de tão azedas.

Tia Helena que passou a juventude lavando seu rosto de sardas com a água que se lavava o arroz, sonhando com uma pele de porcelana.
Tia Helena que teve batons e pó de arroz roubados de sua penteadeira pelo macaco que andava pelos galhos da fazenda.
Macaco que pintado lhe fazia caretas já no alto da árvore.
Histórias da fazenda, das bem antigas, que nem previam minha chegada muitos e muitos anos depois.

Helenas de todo mundo.
Helena de Tróia, a mulher mais bela do mundo, habita os olhos de uma, a leveza de outra, um desatino que se autocompleta.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Significados

Ouço o vento e vejo um pedaço do céu.
Um pássaro ou outro. Sem destino.
Amanhã teremos solstício de outono.
O velho verso já narrou: são as águas de março fechando o verão.
Às 8h50 o sol completará seu ciclo astrológico.
Passei mais de 40 anos sem saber as datas do ciclo do sol.
Nem do meus.
A internet me inunda de informações.
Nado. Afundo. Respiro. Fico boiando. Bebo um pouco delas.
Em que me transformam?
Em que www me encontro?
in parole...
Todo o meu arquivo morto pode ser reativado por uma busca.
Só não encontro fotos de uma infância mal calculada.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A Espera

É o nome de um livro de Ha Jin, belíssimo para mim.
Convivemos com a espera.
Bebês, esperamos pelo leite que surge não se sabe bem de onde, de seio farto, quente, com cheiro de mãe. De mamadeiras esterilizadas enfeitadas com um leão que não hesitaria em nos amedrontar.

A espera pelo triciclo.
A espera pelo primeiro dia de aula.
Meu irmão sentado em um degrau chorava cântaros sem dizer porque.
Carinhosamente indagado por minha mãe resolveu aliviar sua dor:
- mas mãe, o que eu vou fazer na escola se eu não sei ler nem escrever? não vê que as meninas têm lições todo dia e é sempre de ler e escrever!

A espera pelo papai noel, pelo coelho da páscoa, pela viagem de férias.
A espera pelo primeiro passeio de trem, de barco, de avião, de carro novo.
A espera pela manga madura.
Pelo vento que carrega a pipa.
A espera pelo primeiro beijo, pela primeira espinha, primeiro trago, cigarro, medo.

A espera pelo toque da campainha.
Ah... testemunha de Jeová!
Quero alguém que testemunhe a minha espera imperial.
No perderle la cara al toro. Como dizem os espanhóis.
Minha espera impávida.
Minha espera pelo som do telefone.
Martín habla.
Sí, pero con quien quieres hablar?
Será possível que até em minhas chamadas de engano!
A espera de um sinal.
De fumaça? De chuva? De que as águas de março lavam mesmo tudo?
Celular.
Alô mãe meu dever de casa é uma pesquisa sobre Elvis.
Presley?
Só consigo atinar que seja porque é um dos mortos que mais faturam, será que foi afetado pela crise?
Porque Elvis se não sabe ainda quem é Chico.
Nenhum deles, Buarque, Cesar e tantos outros que permitiram o codinome para nome tão bonito.
A espera não tem fim. É uma ponte que vai e volta e se reinventa mesmo para aqueles que desistem.
Eu ainda espero.

terça-feira, 17 de março de 2009

É tudo muito simples














Esse é praticamente o meu quintal, mais conhecido como a área verde do condomínio.
Um convite para esquecer o blog, o twitter, o facebook, o linkedin, o e-mail e sair para passear com as crianças e o cachorro. Eu sou a mais cosmopolita dos caipiras e vice-versa. No comments.
Dia desses voltando de um dos passeios encontramos uma folha de sulfite, dobrada em quatro, na porta de entrada, sobre o tapete.
Claro que minha adolescente de 9 anos se antecipou e o abriu curiosa.
Havia o desenho de um enorme coração, em vermelho, escrito apenas casa 80.
Em segundos ela alcançou o interfone e disparou:
- Oi, aqui é da casa 121, eu encontrei o seu bilhete, o que é?
Ouviu e reproduziu sem respirar...
- é uma menina nova, ela se mudou há pouco tempo, tem oito anos e uma irmã de seis, ela me viu brincando por aí, entrando aqui e quer fazer amizade mas é um pouco tímida então resolveu deixar um bilhete, ela está vindo aí pra se apresentar
Respirou e fez um muxoxo. Perguntei: você não gostou?
Era a deixa para responder num riso aberto que não herdou de mim:
- Claro que gostei! Mas estava pensando se não podia ser um cara bonitão com um carro manero!
Esse não é o linguajar dela...
Esse não é o linguajar dela...
Apenas sabe como me dar material pro blog, me arrepiar os cabelos com uso de gírias e que é hora de realmente acreditar que a adolescência está chegando.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Desconexo

Hoje é 16 de março.
Não faz diferença para muita gente.
É muito importante para uns outros tantos.
Coisas boas acontecem com alguns e coisas ruins acontecem para outros.
A cada dia, a cada hora e minuto estamos construindo a história.
Hoje é aniversário de minha irmã mais velha, não vou correr o risco de mencionar quantos.
Perco tempo pensando em coisas que ocupam um espaço enorme do meu tempo cerebral e onde será que me levam?
Enquanto dirijo penso: quem com um carro igual ao meu está estacionando agora?
Quantas pessoas? Em que lugares? Estão felizes?
Quando ouço um música no rádio, penso a mesma coisa. Eu não estou gostando, não quero cantar junto, mas quantas pessoas estão gostando? Quantas estão cantando?
Será que dentre essas, alguém canta até melhor e não se tornou cantor ou cantora porque nem sabia que tinha voz tão boa? Ou desejou muito mas não encontrou seu espaço?
E vou ocupando o meu arquivo cerebral com conjunturas.
Para onde elas vão?
Buscar respostas?
Enquanto escrevo esse post penso em outro que talvez pudesse ser mais interessante.
Mas para quem?
De que lado o anjo e o demonio sussuram em meus ouvidos se, quase como meu pai ambidestro, eu não distinguo direito/esquerdo para pensar?

sexta-feira, 13 de março de 2009

História Eletrizante




Conheci apenas meu avô paterno Augusto e minha avó materna Amélia.
E, naquela ocasião, do alto dos meus 3/4 anos, não entendia porque é que eles não se casavam, já que eram meus avós e assim eu poderia visitá-los em uma mesma casa. Mas isso não se deu.
Minha avó era muito divertida. Ou melhor descrevendo, eu me divertia muito com ela, porque era tranquila, preocupada com a ordem, com minha formação e para mim esse seu jeito era uma fonte inesgotável de traquinagens.
Mas, não fui a responsável por essa história eletrizante, apenas me lembro dela perfeitamente, como se visse um retrato da cena e detalhes dos sons.

Vó Amélia passava temporadas em nossa casa. Em uma dessas ocasiões, minha mãe passava roupas na cozinha. Eu brincava no degrau da porta e minha avó contava uns "causos" para minha mãe, encostada na parede, com os braços cruzados.
Era alta, magra, bonita, cabelos longos sempre presos em um coque no alto da cabeça.
E, no meio da história, mencionou, uma que outra vez:
- nossa, estou esquisita, sentindo uns tremores de vez em quando
E minha mãe, sem olhar pra ela:
- senta, mãe!
E de novo: nossa, mas que estranho!
Minha mãe não teve remédio senão descansar o ferro e olhar para ela:
- Mas mãe! O grampo do seu coque está encostando na tomada!

Os tremores eram pequenos choques que ela estava levando.
Eu cai na risada, minha mãe depois de descobrir o mistério também. Dona Amélia ficou sisuda, perdera o fio da meada do "causo" e virou ela mesma a protagonista de um.

Naquela época não conhecíamos os protetores de tomadas tão recomendados para aquelas que estão nos rodapés por causa dos nossos bebês. Inovação é isso! Protetores também para as que estão no alto por causa dos nossos avós!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Gosto de chuva

Gosto do verbo gostar, não gosto de sabor.
E gosto muito.
Claro que os dias ensolarados, de céu azul, são magníficos e também me enchem a alma, mas hoje quero contar que gosto de chuva, de céu carregado, de raios e trovões.
Sim, sei tudo o que causam, mas só quero falar que gosto de chuva.

Quando coisas boas acontecem na minha vida normalmente está chovendo.
Grandes notícias, grandes conquistas. E tem sido assim sempre.
Talvez porque eu tenha nascido em uma manhã linda, ensolarada, mas depois de uma noite chuvosa.
Nas últimas horas de conforto e segurança eu sabia que estava chovendo lá fora e ansiava pela coisa boa que era nascer!

Quando tinha lá os meus 9, 10 anos, eu protegia da chuva tudo o que havia no quintal.
Tudo mesmo, sem exageros. Pedaços de tijolos, velhas latas de tinta, cesto de lixo, vassoura sem cabo, bambu que sustentava a corda que era um varal.
Coisas óbvias que se encontram em quintais de casas do interior.
Já na chuva eu trabalhava como uma formiguinha incansável trazendo todo esse lixo, como dizia minha mãe, para o alpendre, a nossa área de serviço.
Muitas vezes minha mãe me ajudava porque em algum momento ela se convenceu de que não me convenceria.
Terminado o trabalho, suja, molhada, não importava, eu ia para o meu quarto e calçava meias limpas e vestia uma blusa quente, mesmo que fosse uma chuvarada de verão de quinze minutos e corria para a janela, espiar pelo vidro o fim da chuva que eu queria que não terminasse mais.
Disso também minha mãe se convenceu, de que não me convenceria de que era um absurdo vestir roupas limpas estando tão suja e de que não estava frio!

Quando tinha 18 anos eu atuava em uma peça de teatro chamada De Paletó e Pés no Chão, uma criação coletiva do Grupo Cio da Terra do qual eu fiz parte, do seu nascimento até o seu desaparecimento.
Um dia, após o espetáculo, estava no palco recolhendo algumas coisas e um senhor que estivera na platéia aproximou-se e me disse:

- quando fizer frio e chover, não procure um canto, vá para casa

Naquele momento não consegui entender o significado da frase. Nenhuma conexão com o conteúdo do espetáculo, mas absolutamente conectado com minha história com a chuva, que até então eu guardava escondidinha dentro de mim.
Usei essa reflexão muitas vezes. Antes de tomar algumas decisões importantes eu me lembro dessa frase.
Não sei quem era ele, que se afastou sem nada mais dizer e não falou com nenhuma outra pessoa.

Alguns anjos descem em missões especiais e eles podem vir sem as asas.
É, foi um anjo que choveu em minha vida.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Museu do Futebol

Ontem fui ao Museu do Futebol.
E não quero escrever mais nada para não desfazer a magia.
Nem quero explicar minha inexplicável paixão pelo futebol.
O que há de velho no conceito museu não se encontra no Pacaembu.
Queria descrever cada sensação, cada interação, mas não vou contar que a mocinha morre no final.
Quero crer que, se a história do Brasil passa pelo futebol, qualquer um, goste ou não dessa insana arte, deve passar por lá!

terça-feira, 10 de março de 2009

Moleca sem mãe por perto

Minhas irmãs já era adolescentes e eu ainda tinha 7, 8 anos.
Elas decidiam passar alguns dias na fazenda, com meu avô Augusto, e não sei com que argumentos eu conseguia me inserir no grupo e sempre, mas sempre ia junto.
Para desespero delas e imagino que para alívio de minha mãe.

Elas sempre pretendiam chegar de surpresa, fazer festa. Eu estragava tudo.
Íamos de ônibus de Tupã até depois de Marília, depois de Garça, descíamos na estrada, em um lugar conhecido como "as cruzinhas".
Em referência a algumas delas que lá estavam porque alguém terminou seu caminho por ali.

Elas carregavam toda a bagagem. A delas, a minha, incluindo meus brinquedos, para os quais eu nem olhava um dia sequer.
E me imploravam:
- não vai correr, não vai na frente, não vai fugir, não vai...

Eu dizia:
- vou correr só até a calça comprida e espero lá, sentada

Elas se entreolhavam. Filme tantas vezes visto.
A calça comprida era um tronco em forma de forquilha (um ramo de árvore ou arbusto que se bifurca com o formato da letra Y), cortada há muito tempo e que ficava na beira da estradinha de terra.

E eu realmente corria até lá e esperava sentada. Mas quando faltavam passos para me alcançarem, eu dava uma arrancada final e só as revia já sentada no colo do meu avô, tomando um suco qualquer, e sendo chamada de Moleca.

- a Moleca chegou, a Moleca está aqui, ai que saudades da minha Moleca

Protegida de qualquer bronca eu não encarava olhos azuis como os de meu pai da mais velha, olhos verdes da mais nova, herdados de minha mãe.
Abaixava os meus olhos cor de burro quando foge e ia assombrar o resto do pessoal.

Coisas que eu não devia, mas fazia:
  • Jogava uma espiga de milho para porcos que brigavam por ela. Os mais gordos só gemiam, nem conseguiam chegar perto.
  • Montava o cavalo mais próximo sem sela para desespero dos tratadores
  • Escorregava pelas sacas de café com a máquina ligada, correndo risco de ser ensacada também
  • O portão da casa principal era uma roleta de madeira, um verdadeiro parque de diversão: girava montada nele, com uma mão, com um pé pro alto, amarrada pela cintura com uma corda
  • Jogava um punhado de milho para as galinhas no terreiro mas pulava na frente delas e o jogo era não deixar nenhuma delas bicar um grão (eu sempre perdia)

E quando meu avô, sábado a tarde, cochilava em frente a TV, passando rápido parei para ver alguém cantando a música: eu quero é botar, meu bloco na rua...

Era um programa de calouros, mas eu não sabia, não assistia TV e passei anos acreditando que o cantor de tão famosa música não tinha um dente da frente.

Um dia, em uma conversa qualquer isso se esclareceu, com minhas doces irmãs mais velhas, que de uma forma ou de outra, riram muito, sentindo-se mais ou menos vingadas!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Só um detalhe

Ontem o Palmeiras jogou com o Corinthians lá em Presidente Prudente. Mas isso é só um detalhe. Um detalhe que me faz lembrar detalhadamente de meu pai.
Foi lá em Presidente Prudente que eu o vi pela última vez, em um leito de hospital, fragilizado, mas com aqueles olhos azuis, que não herdei, vivos como nunca.
Falamos de revistas, de joão de barro, um passarinho mais do que curioso, vimos juntos a foto de um que fez um verdadeiro edifício, três casas, uma em cima da outra, será que era polígamo, megalomaníaco, perfeccionista? Ficamos sem resposta.
Falamos de pedra. Eu tinha recolhido algumas para ele, que adorava e colecionava, da Pedra do Baú, mas não cheguei a entregar.

O futebol nos unia. Ou era uma desculpa para estarmos mais tempo juntos.
A pipoca.
O sorvete de milho verde.
As contas. Anotações e mais anotações em caderneta. Valores de combustível, de açougue, de conta de luz e água.
Desenhar.
Ele se divertia contando que em um exame de psicotécnico lhe pediram para desenhar um homem e uma árvore.
Fez só a árvore. Questionado respondeu:
O homem está atrás da árvore! Mas sem pestanejar desenhou dois homens, um com cada uma das mãos, enquanto sorria.
Era ambidestro. Também não herdei essa maravilha.
A perspicácia sim.
E o assovio. Ou assobio como preferem outros.
Quando ele chegava, já do portão assobiava um ritmo que é uma pena que eu não tenha como reproduzir em palavras. Mas talvez seja melhor, assim continua sendo só nosso.
E eu respondia imediatamente.
Quando eu não o fazia automaticamente ele perguntava ao primeiro que encontrava:
- onde está a Lusiinha?
Quando não, ao escutá-lo minha mãe já se adiantava... A Lusiinha foi...
Quando me mudei para São Paulo ele chorou. E disse à minha mãe que nunca mais chegaria assobiando e cumpriu a promessa e então fui eu quem chorou.

O jogo ficou empatado: 1 x 1.
Mas isso é só um detalhe.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Não dá mais

Algumas coisas que não consigo mais ouvir e para as quais tenho tentado a técnica de me transformar em uma hortência azul desidratada:

1] veja a crise como uma oportunidade...

2] parabéns pelo dia da mulher (que diabo é isso? podem homenagear as sofredoras, mas eu não estava lá, sou grata, mas ter um dia é demais) - Jabor disse tudo o que eu queria dizer http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/arnaldo-jabor/ARNALDO-JABOR.htm

3] a Dilma não está em campanha (como assim? vai fazer casas populares a 15 reais agora, quando faltam 18 meses para a eleição? e ontem foi à missa do Padre Marcelo, nada contra ele, mas desde quando ela é católica?)

4] e por falar em católico, padre excomungando pelo coletivo: todo mundo que... quem se importa?

Eu preciso terminar o livro O país das neves de Yasunari Kawabata e comprar eu Sou o Gato de Natsume Soseki e aí, raptada pela história nova eu poderei deixar de ser hortência.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Conheço um cara

Conheci um cara que conheceu um cara que era lá da Paraíba, de Pato Branco.
Cara bacana, boa gente, meio preguiçoso, mas divertido.
Conheci outro cara que conhecia um cara que era carioca. Esse achava que era malandro. Uma história de família de comercial de margarina até que se descobriu que por fora bela viola por dentro pão bolorento.
E meu primo que conheceu um cara lá de Belém do Pará que conheceu um cara navegando na internet e que morava lá em Porto Alegre. Eles combinaram de se encontrar no caminho e nunca mais se desgrudaram.
Meu amigo conheceu um cara que o obrigou a ler a sinopse do filme Meu tio matou um cara e até eu li. Ruim!!! Mas quando vimos que a Lavigne ia produzir concluímos que não importaria nossa avaliação, a grana ía rolar de qualquer jeito. Não deu outra.
Conheci tantos caras, que conhecem tantos outros caras. Um deles até me arrumou ingressos para um Festival. Outro para eventos infantis. Mega produção, mega festa! Maravilha.
Cheias de caras que conhecem os caras de verdade!
Conheço um cara que conhece um cara que é maluco pra sair na Caras!
E, por fim, eu não conheci o cara que pichou um muro em Fortaleza dizendo: eu comi o cara.
Humm, agora todo cara que eu conheço eu fico pensando: será que esse é o Cara? Caramba.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Tecnicamente sim



Quando era criança e queria comprar alguma coisa sem importância ou extravagante, na visão da minha mãe claro, ela encerrava o assunto com uma frase clássica que todos nós conhecemos:

- hei menina, pensa que dinheiro dá em árvore é?

Eu ia brincar de outra coisa ou chatear minha irmã caçula e pronto.

Comigo essa tática não funcionou.

Minha primogênita me pediu qualquer coisa e eu já com pouca paciência usei a mesma frase, sem tirar nem por:

- hei menina, pensa que dinheiro dá em árvore é? e ela

- tecnicamente sim, se a maioria do dinheiro é de papel e papel é madeira e madeira é árvore...

terça-feira, 3 de março de 2009

Caminho Suave ou não


Eu aprendi a ler e a escrever mais ou menos sozinha, com os livros de português das minhas irmãs que já estavam quase terminando o 2o. grau. O primeiro texto "de adulto" que li sozinha, orgulhosamente, foi O homem nu de Fernando Sabino.

E na escola, aprendi com a Cartilha Caminho Suave.
O caminho era realmente suave para mim (que já conhecia todas as letras) e para minha mãe.

Tudo mudou agora que minha pequena caçula está sendo alfabetizada.
O caminho é suave para ela, mas para mim!

Não existe mais cartilha, mas todo dia é preciso levar rótulos e embalagens de alimentos, de higiene pessoal, de produtos de limpeza e como se não bastasse a lição de hoje foi anotar marcas de produtos específicos!

Marca de arroz, feijão e macarrão.
Marca de papel higiênico.
Marca de detergente.

Para os commodities pedi ajuda e descobri que tínhamos arroz Tio João e feijão Grão do Campo.
Os outros eu até que sabia.

E então conclui que farei um acordo com a professorinha e estudarei marcas e comportamento dos consumidores de Jundiaí com base no resultado das lições de casa.
Eu posso fazer um planejamento anual de temas, marcas e serviços e monto um painel, ora pois!

segunda-feira, 2 de março de 2009

E Fabio encontrou a Cômoda

Que não se chama Cômoda e sim Só para Si.
Com isso ele me deu um presente e não mais escrevo para não perder a magia de texto tão simples, tão cotidiano, tão profundo.
Obrigada Fabio!

SÓ PARA SI

Dona Cômoda tem três gavetas. E um ar confortável de senhora rica. Nas gavetas guarda coisas de outros tempos, só para si. Foi sempre assim, dona Cômoda: gorda, fechada, egoísta.

Mario Quintana (Poesia Completa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. p. 169)