Aniversário da minha irmã caçula.
Já passou dos cinco anos, dos dez, dos vinte, dos trinta e já passou...
O tempo corre feito um rio, indiferente ao que fica pelas margens. Flores florescidas ou já envelhecidas.
Pedrinhas ou pedregulhos.
O rio segue seu caminho indiferente aos que o atravessam.
O rio apenas é.
Mas nenhum rio é capaz de lavar as minhas memórias.
O bebê que chegou naquela tarde de sol era o bebê mais lindo que eu já vira.
E assim cresceu. Cabelos aloirados, pele macia.
E embalava todas as brincadeiras que nos permitiram criar laço tão forte.
Vera.
Casa montada no quintal.
Caçadas no pé de abóbora.
Jogo de tênis com raquetes de plástico.
Salada de couve colhida da horta.
Travesseiros vestidos com camiseta transformados em bonecos gordos.
Eu só não podia fazer nada quando ela, arredia e leonina, desafiava minha mãe porque não concordava com a hora do banho. E já limpa e cheirosa passava terra na barriga para depois limpar-se na colcha da cama, impecavelmente arrumada.
Nessa hora, toda minha travessura ficava apenas assistindo pelo menos uma confusão em que eu não era o foco das atenções!
Minha irmãzinha nunca cresceu aqui dentro do meu coração!
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sexta-feira, 12 de agosto de 2011
sexta-feira, 22 de maio de 2009
7 anos
Muitos dizem que sete é um número mágico. Eu gosto muito do número sem muitas explicações filosóficas, talvez porque antes mesmo de gostar do 7 eu gosto de números ímpares. É mais desafiador trabalhar com imperfeições.
Mas, quando eu tinha 7 anos esse número não me parecia nada mágico.
Eu parecia uma caricatura e meu irmão me chamava de desenho, em referência aos desenhos animados.
Eu tinha canelas muito finas e era alta para a minha idade.
Não tinha os dentes da frente. Tinha o cabelo curto parecendo um moleque e muita sarda no rosto.
Eu era feia. Ponto.
Por algum tempo eu achei que todo mundo que tinha 7 anos era assim porque meus amigos e amigas de rua não eram lá tão diferentes. Eu me esforçava para pensar assim, apesar da minha melhor amiga ser loira de olhos azuis, mas eu fingia não ver.
As coisas começaram a mudar rapidamente quando minha irmã caçula nasceu.
Eu me chamava e me chamo Lusia, um nome que hoje se encontrou com minha faixa etária, mas com 7 anos, era um nome de senhora e eu não gostava dele.
Minha irmã se chamou e se chama Laís. O nome mais lindo e sonoro e feminino do mundo.
Para ajudar a piorar era o bebe mais lindo que conheci naquela época e fiquei ainda mais feia me comparando a ela. Cabelo mais claro, pele mais morena, olhar profundo, bochecha que convidava aos apertões. Sorriso também banguela, mas nela até ser banguela era bonito!
Naquela época eu não pensei que era o máximo ter uma irmã caçula tão fofa e linda e querida por todos, eu apenas tinha ciúmes.
Na escola, outro capítulo. Todos tinham a mesma idade que eu e eram mais bonitos.
Com exceção de uma menina que se chamava Joana à qual me afeiçoei muito, todos eram mais bonitos.
Joana era a mais feia, a mais pobre, a que tinha mais problemas de aprendizado e talvez por isso eu tenha tido compaixão. Ou talvez, porque ela era a única que me mostrava que sim, que tudo podia ser pior.
Então, já que era assim e eu nada podia fazer decidi ser a melhor da classe. Para meu sofrimento solitário. Não era muito difícil, eu lia e escrevia bem, gostava de fazer a lição (tarefa!), prestava muita atenção, mas quase morri de chorar quando tirei 98 e não 100, mesmo o 98 tendo sido a nota mais alta da classe e tendo recebido parabéns da Dona Terezinha, minha primeira professora, porque não fiz pré, fui direto ao primeiro ano.
Quer sofrimento mais inútil do que esse?
Mas aos 7 anos eu ainda não sabia!
Mas, quando eu tinha 7 anos esse número não me parecia nada mágico.
Eu parecia uma caricatura e meu irmão me chamava de desenho, em referência aos desenhos animados.
Eu tinha canelas muito finas e era alta para a minha idade.
Não tinha os dentes da frente. Tinha o cabelo curto parecendo um moleque e muita sarda no rosto.
Eu era feia. Ponto.
Por algum tempo eu achei que todo mundo que tinha 7 anos era assim porque meus amigos e amigas de rua não eram lá tão diferentes. Eu me esforçava para pensar assim, apesar da minha melhor amiga ser loira de olhos azuis, mas eu fingia não ver.
As coisas começaram a mudar rapidamente quando minha irmã caçula nasceu.
Eu me chamava e me chamo Lusia, um nome que hoje se encontrou com minha faixa etária, mas com 7 anos, era um nome de senhora e eu não gostava dele.
Minha irmã se chamou e se chama Laís. O nome mais lindo e sonoro e feminino do mundo.
Para ajudar a piorar era o bebe mais lindo que conheci naquela época e fiquei ainda mais feia me comparando a ela. Cabelo mais claro, pele mais morena, olhar profundo, bochecha que convidava aos apertões. Sorriso também banguela, mas nela até ser banguela era bonito!
Naquela época eu não pensei que era o máximo ter uma irmã caçula tão fofa e linda e querida por todos, eu apenas tinha ciúmes.
Na escola, outro capítulo. Todos tinham a mesma idade que eu e eram mais bonitos.
Com exceção de uma menina que se chamava Joana à qual me afeiçoei muito, todos eram mais bonitos.
Joana era a mais feia, a mais pobre, a que tinha mais problemas de aprendizado e talvez por isso eu tenha tido compaixão. Ou talvez, porque ela era a única que me mostrava que sim, que tudo podia ser pior.
Então, já que era assim e eu nada podia fazer decidi ser a melhor da classe. Para meu sofrimento solitário. Não era muito difícil, eu lia e escrevia bem, gostava de fazer a lição (tarefa!), prestava muita atenção, mas quase morri de chorar quando tirei 98 e não 100, mesmo o 98 tendo sido a nota mais alta da classe e tendo recebido parabéns da Dona Terezinha, minha primeira professora, porque não fiz pré, fui direto ao primeiro ano.
Quer sofrimento mais inútil do que esse?
Mas aos 7 anos eu ainda não sabia!
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Lateborns
Frank Sulloway é um pesquisador do Massachusetts Institute of Technology que fez um grande estudo sobre a influência da ordem de nascimento — primogênito, caçula, do meio — no comportamento das pessoas. Algumas conclusões fazem sentido, outras são mais questionáveis. Quando olho para o meu universo nem todos os pingos estão sobre os is da narrativa.
As famílias diminuíram muito. Muitos são filhos únicos. Não há nada de errado com isso. Eu apenas sinto pena da história. A história da família se perde quando ela envelhece e quando um ou outro se vai. Quando se tem pelo menos um irmão há sempre uma história: você era o preferido da mamãe, você quebrou meu nariz, é porque você quebrou meu carrinho. Você escondia o bife embaixo do arroz para ganhar outro, é e você cuspia a abóbora no guardanapo e por aí vai.
Ontem, preparando as crianças para dormir o papai disse para a primogênita:
- vou te ensinar a arrumar a sua cama, com a sua idade eu já fazia isso
Ajudei:
- e eu também! E insisti:
- e a sua priminha já arruma a cama, sabe lavar louça, até cozinha
E ela já preocupada:
- ah, mas é bem mais velha!
E eu:
- ah, mas faz isso há muito tempo!
E ela:
- ah, mas é filha única!
A arte da argumentação que cultivamos em minha casa às vezes é de matar! Mas vamos lá, eu retruquei:
- ah, mas eu com a sua idade fazia tudo isso, menos cozinhar, e tinha quatro irmãos!
No que minha caçula nos interrompe curiosa:
- e o que aconteceu com eles?
- nada, crescemos todos e hoje eles são seu tio e tias!
Nossa lição doméstica encerrou-se com uma lição de tempo verbal.
Papai leu mais um capítulo do livro do momento porque, mais do que uma rotina, é o que alimenta a alma enquanto as histórias vão sendo construídas.
As famílias diminuíram muito. Muitos são filhos únicos. Não há nada de errado com isso. Eu apenas sinto pena da história. A história da família se perde quando ela envelhece e quando um ou outro se vai. Quando se tem pelo menos um irmão há sempre uma história: você era o preferido da mamãe, você quebrou meu nariz, é porque você quebrou meu carrinho. Você escondia o bife embaixo do arroz para ganhar outro, é e você cuspia a abóbora no guardanapo e por aí vai.
Ontem, preparando as crianças para dormir o papai disse para a primogênita:
- vou te ensinar a arrumar a sua cama, com a sua idade eu já fazia isso
Ajudei:
- e eu também! E insisti:
- e a sua priminha já arruma a cama, sabe lavar louça, até cozinha
E ela já preocupada:
- ah, mas é bem mais velha!
E eu:
- ah, mas faz isso há muito tempo!
E ela:
- ah, mas é filha única!
A arte da argumentação que cultivamos em minha casa às vezes é de matar! Mas vamos lá, eu retruquei:
- ah, mas eu com a sua idade fazia tudo isso, menos cozinhar, e tinha quatro irmãos!
No que minha caçula nos interrompe curiosa:
- e o que aconteceu com eles?
- nada, crescemos todos e hoje eles são seu tio e tias!
Nossa lição doméstica encerrou-se com uma lição de tempo verbal.
Papai leu mais um capítulo do livro do momento porque, mais do que uma rotina, é o que alimenta a alma enquanto as histórias vão sendo construídas.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Foi ela quem lembrou
Não me lembro de todas as minhas traquinagens.
Algumas são históricas e podem ser contadas, outras não me arrisco a compartilhar e de algumas eu realmente não me lembro.
Mas, para essas, eu sempre tenho ajuda e na maioria das vezes, a própria vítima me conta sem acreditar que dela me esqueci.
Diz minha irmã caçula que quando eu saia para a escola e ela ficava porque os horários eram diferentes eu lhe dizia ao pé do ouvido.
- Você sabe que sou especial não é?
Ela concordava.
- E sou tão, mas tão especial que posso tocar o céu. Você quer ver?
Balançava a cabeça que sim. Misto de desinteresse e ânsia de se ver livre de mim.
- Então fique olhando.
Eu caminhava e em distância calculada erguia o braço e o dedo e, óbvio (agora!), que pela ilusão de ótica ela realmente me via tocar o céu.
Não sei que expressão fazia, mas devia ser um "ai que saco" naquela cara linda que Deus lhe deu.
E não parava por aí.
Ao voltar eu retomava o assunto e ainda completava:
- Mas o pai e a mãe não querem que ninguém saiba porque senão vou aparecer na televisão, falar no rádio, sair no jornal e não terei mais sossego, então, você não pode contar para ninguém! Nem mesmo pra eles, porque eu saberei. Eu sei tudo o que acontece!
Apesar de caçula cheia de dengos ela só quebrou o silêncio e revelou o segredo agora, há um ano, passado mais de trinta anos e para mim mesma, rindo muito.
Seria um riso nervoso?
Revelou na roda de família, bem protegida, caso eu ainda tivesse todo aquele poder.
Algumas são históricas e podem ser contadas, outras não me arrisco a compartilhar e de algumas eu realmente não me lembro.
Mas, para essas, eu sempre tenho ajuda e na maioria das vezes, a própria vítima me conta sem acreditar que dela me esqueci.
Diz minha irmã caçula que quando eu saia para a escola e ela ficava porque os horários eram diferentes eu lhe dizia ao pé do ouvido.
- Você sabe que sou especial não é?
Ela concordava.
- E sou tão, mas tão especial que posso tocar o céu. Você quer ver?
Balançava a cabeça que sim. Misto de desinteresse e ânsia de se ver livre de mim.
- Então fique olhando.
Eu caminhava e em distância calculada erguia o braço e o dedo e, óbvio (agora!), que pela ilusão de ótica ela realmente me via tocar o céu.
Não sei que expressão fazia, mas devia ser um "ai que saco" naquela cara linda que Deus lhe deu.
E não parava por aí.
Ao voltar eu retomava o assunto e ainda completava:
- Mas o pai e a mãe não querem que ninguém saiba porque senão vou aparecer na televisão, falar no rádio, sair no jornal e não terei mais sossego, então, você não pode contar para ninguém! Nem mesmo pra eles, porque eu saberei. Eu sei tudo o que acontece!
Apesar de caçula cheia de dengos ela só quebrou o silêncio e revelou o segredo agora, há um ano, passado mais de trinta anos e para mim mesma, rindo muito.
Seria um riso nervoso?
Revelou na roda de família, bem protegida, caso eu ainda tivesse todo aquele poder.
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