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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Extratos de Biografia

Quando eu nasci, minha parteira foi minha avó materna, Amélia.
Nasci em casa e ela me levou para ser pesada no armazém.
4,5kg – quem pode garantir?

Quando eu tinha quatro anos o meu melhor amigo se chamava Diamantino, o nome do pai dele.
Eu o chamava de Nenê.
Nós roubávamos caixinhas de fósforos de nossas casas e, escondidinhos, riscávamos todos.
Quando acabavam ele me olhava e dizia:
- ih... acabou o carbureto!

Quando eu tinha uns 9, 10 anos, a minha melhor amiga se chamava Nilda. Ela tinha uma irmã caçula que se chamava Neucimara.
Tínhamos idades parecidas e nossas irmãs caçulas também. A minha se chama Laís.
Não tínhamos telefone. Eu escrevia bilhetes combinando encontros e brincadeiras e Laís levava.
Outras vezes eu recebia bilhetes trazidos por Neucimara.
Será que nos perdoaram por essa exploração?

Quando eu tinha 12 anos eu ganhei o concurso de redação da minha escola escrevendo sobre a história da cidade: Tupã.
Disputei a etapa seguinte com representantes de todas as escolas e, para essa etapa, a redação era escrita in loco. Minha mãe me levou até o local. Eu era a menorzinha de todos, em tamanho físico e em idade. Todos os participantes estavam quase entrando na faculdade! Não ganhei.

Quando eu tinha 17 anos eu me mudei para São Paulo, com a minha irmã Lúcia, que cuidava de mim como meu pai e mãe.
Era preciso sair da casca do ovo.
A saudade apertava muito o coração. Mas eu me mantive firme e chorava no banho.
O meu pai nunca mais chegou em casa assobiando porque eu não estava mais lá para responder ao assobio.
Até hoje eu assobio no banho!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Só um detalhe

Ontem o Palmeiras jogou com o Corinthians lá em Presidente Prudente. Mas isso é só um detalhe. Um detalhe que me faz lembrar detalhadamente de meu pai.
Foi lá em Presidente Prudente que eu o vi pela última vez, em um leito de hospital, fragilizado, mas com aqueles olhos azuis, que não herdei, vivos como nunca.
Falamos de revistas, de joão de barro, um passarinho mais do que curioso, vimos juntos a foto de um que fez um verdadeiro edifício, três casas, uma em cima da outra, será que era polígamo, megalomaníaco, perfeccionista? Ficamos sem resposta.
Falamos de pedra. Eu tinha recolhido algumas para ele, que adorava e colecionava, da Pedra do Baú, mas não cheguei a entregar.

O futebol nos unia. Ou era uma desculpa para estarmos mais tempo juntos.
A pipoca.
O sorvete de milho verde.
As contas. Anotações e mais anotações em caderneta. Valores de combustível, de açougue, de conta de luz e água.
Desenhar.
Ele se divertia contando que em um exame de psicotécnico lhe pediram para desenhar um homem e uma árvore.
Fez só a árvore. Questionado respondeu:
O homem está atrás da árvore! Mas sem pestanejar desenhou dois homens, um com cada uma das mãos, enquanto sorria.
Era ambidestro. Também não herdei essa maravilha.
A perspicácia sim.
E o assovio. Ou assobio como preferem outros.
Quando ele chegava, já do portão assobiava um ritmo que é uma pena que eu não tenha como reproduzir em palavras. Mas talvez seja melhor, assim continua sendo só nosso.
E eu respondia imediatamente.
Quando eu não o fazia automaticamente ele perguntava ao primeiro que encontrava:
- onde está a Lusiinha?
Quando não, ao escutá-lo minha mãe já se adiantava... A Lusiinha foi...
Quando me mudei para São Paulo ele chorou. E disse à minha mãe que nunca mais chegaria assobiando e cumpriu a promessa e então fui eu quem chorou.

O jogo ficou empatado: 1 x 1.
Mas isso é só um detalhe.