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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Antonio e Diana

Ela tinha nome de princesa: Diana, mas era empregada doméstica.
Ele tinha nome de santo: Antonio, mas era porteiro de prédio.
Ele nunca bebia, mas naquele dia bebeu.
Bebeu porque a Diana lhe dava esperanças. Muitas esperanças.
E de repente o prédio inteiro começou a comentar e o boato se confirmou: a Diana ia se casar com o seu Otávio do nono andar. Um homem esquisito, um homem sozinho, que não recebia visitas, que era sistemático, um homem de poucas palavras.
Um homem que podia até ser um desses homens que matam gente sem razão.
E bebeu. Naquele dia o Antonio bebeu muito e preparou-se para pedir as contas.
Não poderia mais trabalhar no mesmo prédio em que a Diana, antes tão cheia de graça, ia ser a dona de um dos apartamentos do nono andar.
Bebeu muito e pensou em vingança.
Pensou em fazer uma lista com todas as verdades sobre os moradores do prédio e fixar no elevador.
Como vingança queria dizer o que realmente pensava sobre cada um deles, como se fosse seu último dia de vida e ele tivesse direito de dizer o que achava bem lá no fundo.
Que dona Bianca era feia mesmo com tantas plásticas e silicones.
Que seu Donato vivia mesmo era da caridade dos filhos e que era um pé rapado que devia conta de luz, de condomínio, sempre socorrido por um dos filhos que nem lhe visitavam.
Que a poodle da dona Eliana era a cachorrinha mais chata que ele já conhecera. Igual a dona.
Que as crianças do seu Jorge eram mal educadas, mal amadas, magras e sem futuro.
Mas estava bêbado.
E isso que ele listou lá ia ofender alguém?
Ele era praticamente invisível e essas baboseiras não iam mudar a vida de ninguém. Muito menos a dele, agora ainda pior sem a Diana.
Que tonto ele era, isso sim.
Estava bêbado, mas lúcido o suficiente pra ir pra casa, dormir, curar a ressaca e o mal estar porque no dia seguinte não poderia se atrasar.
Não poderia mais trabalhar no mesmo prédio da dona Diana, mas precisava achar outro emprego antes de se abalar.

terça-feira, 24 de março de 2009

Invisíveis

No supermercado vejo uma modelo.
Muito alta, muito magra, muito loira e dança com as pernas num caminhar que não aprendi.
Todos a olham e ela sabe disso aprimorando sua dança.
Mas ela não é mais bonita do que a menina que minutos depois faz a minha unha.
Ela não exibe seus olhos azuis petróleo porque precisa manter a cabeça baixa em sua concentração.
Seu cabelo negro preso com displicência não ganha carinho de escovas e produtos importados.
Mas ela é linda.
O sorriso quando comenta alguma coisa e quando agradece ajudaria a vender qualquer produto, de creme dental a uma viagem a Paris.
Mas ela é invisível em seu caminho de casa até o ponto de ônibus, do metrô até o salão de beleza, do balcão de fast food até a lojinha mais próxima, experimentar uma sandalhinha que está em promoção.
Ela passa e não vê que está rodeada de invisíveis.
O moço do táxi.
O entregador de pizza.
O varredor de rua.
A moça do café.
O porteiro.
O segurança do prédio.
Não, eles não tem os olhos azuis e as feições delicadas, mas para quê?
Parada, esperando, em muitas situações, conto nos dedos de uma única mão quantas pessoas são capazes de um sorriso, de um bom dia, de um como vai? de um obrigada, de um por favor.
São invisíveis.
Só se destacam da paisagem coloridos por nossa fúria quando algo dá errado e neles queremos descontar toda a nossa frustração.
Nesses momentos não há mãos e pés que cheguem para contar quantos de nós usamos de impropérios e todo tipo de palavras descabíveis.
Invisíveis em seu (quase nosso) colorido destino.