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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Estado Sólido

Voltar ao estado sólido do amor.
Em um tempo em que não há estado melhor para se morar.
Pensar que já se passou da metade, que nenhuma metade é pior que um terço e que nada supera tudo que pode ser inteiro.
Inteiramente concentrada no que poderá ser é um estado sólido que nos impede de ver o que está sendo.
É agora, é aqui. Em cada segundo que se despede do inverno e se prepara para a primavera.
Coitada da primavera. Estação linda que se abre em flor, mas que no fundo, no fundo, sofre de uma ansiedade de passar rápido porque todo mundo, no fundo, no fundo, espera o verão.
Voltar ao estado líquido do choro que lava a alma.
Voltar ao que já foi na doce lembrança do porta retrato empoeirado.
Que imagens têm do passado?
Que cheiros, que cores, que amores?
Voltar ao estado de não estar.
Sentar e se emocionar.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Aniversário

fui encontrada
e depois encontrei
todo dia novo
um novo dia para festejar
andar juntos
de mãos dadas ou 
do outro
lado da calçada
não há um jeito certo de viver
há um eterno conhecer
coisas de que gostamos mais
coisas de que gostamos menos
o mesmo time de futebol
eu e todos os meus livros
você e todas as suas revistas e manuais
os filmes, as músicas
o vinho 
depois uma menina
e depois outra
a vida crescendo ao nosso redor
quando você nasceu
eu já tinha quatro meses
mas nem por isso eu sabia
mais da vida
mas sei hoje que sem você
ela não teria a graça que tem,
José

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Considerações

Achou que tinha achado o grande amor da sua vida.
Mas que nada! Maria era daquelas moças que não dão sorte com essa coisa de namorado.
Quando era mais jovem era muito exigente e não conseguia namorar ninguém.
Achava todo mundo meio bobo.
O tempo foi passando e Maria foi diminuindo os itens da sua lista de exigência.
Até namorou um ou outro de um jeito mais sério, mas de gostar, amar, com vontade de ficar velho junto, nada, ninguém.
Acabou concluindo que isso era coisa de novela. Ia mesmo escolher um mais ou menos e tocar a vida.
Era melhor que fosse um pouco mais feio, um pouco mais pobre do que muito namorador e foi por aí.
Até que não demorou muito pra encontrar. Achou que tinha achado o grande amor da sua vida, assim mais racional do que emocional.
Mas que nada!
Não foram nem seis meses e o Joaquim anunciou que não estava feliz, que estava pensando em voltar pra terra natal e começar a vida de um outro jeito, mas sem ninguém. Por enquanto. Era um tempo.
Maria achou que não tinha que ficar esperando esse tempo e apenas sorriu.
Acabou o jantar, pediu uma sobremesa bem gorda, perguntou se ele não se importava em pagar a conta toda, pegou a bolsa e saiu.
Voltou andando pra casa decidida a não procurar nada mais, foi quando o Orlando, o dono da banca de revistas recomendou que ela não andasse sozinha àquela hora.
Primeiro ela se assustou, depois olhou para ele como nunca tinha olhado e reconsiderou as considerações de há pouco.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Horácio

Horácio era um homem bom.
Mas Deus não foi bom pra ele e, apesar de bem casado e feliz com a Tereza, com os filhos Junior e Maria Clara, ele se apaixonou perdidamente pela mulher que veio morar em frente à casa deles.
O drama instaurou-se.
Ela nem era tão bonita, mas tinha qualquer coisa que ele não sabia explicar.
Quando se mudaram, em um sábado de manhã, ela logo se apresentou.
Vinham de outra cidade, casados há pouco, ela não trabalhava, o marido muito, ficava muito tempo só.
O Horácio começou a pensar nela e não parou mais.
Nunca permitiu que nenhum olhar lhe escapasse, nem uma palavra de elogio ou crítica.
Pensou em se mudar, mas ainda estava pagando a casa.
Pensou em se matar, mas era radical demais.
Pensou que assim como se desencantara de Tereza haveria de se desencantar da vizinha e seguiu sua vida com força. E sem graça.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Palavra simples

A palavra simples não diz nada, apenas faz sentir.
A palavra simples não magoa, apenas faz a mágoa emergir e depois desaparecer.
A palavra simples não é aprendida nas aulas de português ou no dicionário, mas sim no coração.
A palavra simples não tem sotaque. Uns arrastam o r, outros o esmagam entre as vogais, mas nada disso importa.
A palavra simples conforta.
A palavra simples não precisa ser gritada, nem sussurrada, a palavra simples simplesmente alcança os sentidos do outro na medida exata.
A palavra simples não afronta o medo, mas conforta quem está assustado.
A palavra simples não acoberta a mentira e nem enfeita a verdade.
Quem diz a verdade não depende de sua boa memória porque terá sempre a mesma história para contar.
A palavra simples é simples, não precisa de negrito.
No papel, não precisa de marca texto.
Na conversa do dia a dia a palavra simples dá a dimensão exata da nossa existência.
A palavra simples chama para ver a lua no céu.
A palavra simples dá bom dia mesmo quando o tempo amanhece chuvoso e frio.
A palavra simples escreve um bilhete dizendo só que tem saudades e quer um almoço.
A palavra simples, às vezes, vem de longe em um recadinho no Facebook, por email, SMS, um like, um concordo, um rs – mais que um riso uma presença.
A vida está cheia de palavras simples.
Elas nos protegem daquelas frases mais duras que em alguns momentos pensam ter o poder de acabar com essa graça.
A palavra simples tem um poder que nem todo mundo pode ver.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Antonio e Diana

Ela tinha nome de princesa: Diana, mas era empregada doméstica.
Ele tinha nome de santo: Antonio, mas era porteiro de prédio.
Ele nunca bebia, mas naquele dia bebeu.
Bebeu porque a Diana lhe dava esperanças. Muitas esperanças.
E de repente o prédio inteiro começou a comentar e o boato se confirmou: a Diana ia se casar com o seu Otávio do nono andar. Um homem esquisito, um homem sozinho, que não recebia visitas, que era sistemático, um homem de poucas palavras.
Um homem que podia até ser um desses homens que matam gente sem razão.
E bebeu. Naquele dia o Antonio bebeu muito e preparou-se para pedir as contas.
Não poderia mais trabalhar no mesmo prédio em que a Diana, antes tão cheia de graça, ia ser a dona de um dos apartamentos do nono andar.
Bebeu muito e pensou em vingança.
Pensou em fazer uma lista com todas as verdades sobre os moradores do prédio e fixar no elevador.
Como vingança queria dizer o que realmente pensava sobre cada um deles, como se fosse seu último dia de vida e ele tivesse direito de dizer o que achava bem lá no fundo.
Que dona Bianca era feia mesmo com tantas plásticas e silicones.
Que seu Donato vivia mesmo era da caridade dos filhos e que era um pé rapado que devia conta de luz, de condomínio, sempre socorrido por um dos filhos que nem lhe visitavam.
Que a poodle da dona Eliana era a cachorrinha mais chata que ele já conhecera. Igual a dona.
Que as crianças do seu Jorge eram mal educadas, mal amadas, magras e sem futuro.
Mas estava bêbado.
E isso que ele listou lá ia ofender alguém?
Ele era praticamente invisível e essas baboseiras não iam mudar a vida de ninguém. Muito menos a dele, agora ainda pior sem a Diana.
Que tonto ele era, isso sim.
Estava bêbado, mas lúcido o suficiente pra ir pra casa, dormir, curar a ressaca e o mal estar porque no dia seguinte não poderia se atrasar.
Não poderia mais trabalhar no mesmo prédio da dona Diana, mas precisava achar outro emprego antes de se abalar.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Ontem, véspera de hoje

Hoje, uma véspera de ontem.
Hoje faz 17 anos que fiz 30 anos.
Ser adolescente com experiência de adulto. É muito bom.
Algumas coisas não aprendi. Mas aprendi que não preciso levar a vida tão a sério! Ainda não tirei 10 nessa lição. Talvez eu precise de reforço.
Não importa.
Tenho anos.
Anos de estudo.
Anos de festas e viagens.
Anos de trabalho.
Anos cuidando das minhas meninas e do meu amor.
Segundos, horas, são pontos nessa manta de delicado crochet que é nossa vida.
Um nozinho ou outro pode aparecer, mas quando estendida na cama, com um raio de sol destacando as cores das linhas, que maravilha.
Tenho amigos.
Tenho livros.
Tenho um cão e uma gata.
Tenho palavras que não me deixam só.
E agora tenho sono e muitas felicitações para ler, reler, recolher e guardar para contar histórias no meu entardecer!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Constatação

Perpetuamos-nos de várias formas.
Os grandes descobridores sobrevivem hoje e de muitos deles não sei nada mais além de sua brilhante invenção. Se teve pai e mãe presentes em sua infância, se teve irmãos, se teve filhos, nada sei.
Grandes escritores.
Grandes músicos.
Grandes pintores.
Sobre grandes homens que apenas cresceram, amaram os seus, trabalharam, olharam o céu em dias de céu claro ou de céu escuro, nada sei.
Mas nos perpetuamos entre os nossos.
Meu pai foi um desses homens que nada descobriu, que cresceu jogando bola e amou os seus.
Que adorava os dias de céu azul e temia os dias de céu escuro.
Não escreveu nenhum livro, mas nos deixou cadernetas com anotações em sua letra firme: a data do primeiro corte de cabelo do meu irmão, quanto custou abastecer o tanque, quanto devia pagar ao açougue no final do mês, datas de viagem...
Não escreveu nenhuma canção, mas eu ainda respondo o assobio que ele dava ao chegar em casa e anunciar-se.
O que mais me entristece e enternece é ter sabido anos depois que ele confessou à minha mãe que não mais o faria - depois que me mudei para São Paulo - porque eu não estava mais lá para responder.
E mesmo sem canções ou livros meu pai perpetuou-se.
Em mim, nas minhas irmãs e irmão, nas histórias que contamos sobre ele quando nos reunimos, nas histórias que contamos sobre ele para nossos filhos.
Perpetuamos-nos se amamos e não é nenhum consolo, apenas uma constatação!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Compras

O que vai querer moça bonita?
Eu?
Um pouco de sossego.
Um pouco de compaixão.
Quero que as pessoas sejam felizes, assim me deixam em paz.
Mas, pensando bem, algumas podem ter um pneu furado na marginal, fará bem.
Também quero um pouco de alegria.
Mas não muita, se não fica parecendo aquela música, sabe aquela? Rir é bom, mas rir de tudo é desespero?
Então.
Quero também um pouco mais de horas para dormir e um pouco de mais horas para ler.
Pesa também um pouco de paciência.
Falei que não ia mais precisar, mas acabou toda a que eu tinha reservado. Está fresquinha?
Também quero um pouco de amor, estou devendo para algumas pessoas, tenho recebido mas não tenho dado o suficiente de volta, feio né?
Acho que é isso.
Tem alguma novidade?
Chegou alguma coisa diferente?
Economizei ironia, até sobrou um pouco, economizei sorriso amarelo, mas estão passando da validade, acho que vou descartar.
E você tá bem? Vendendo bem?
É, agora que vai chegando o Natal as pessoas compram muito paz, amor, carinho, compaixão, mas elas usam mesmo ou só compram por impulso? O que você acha?
É? Foi o que eu pensei.
Tchau, obrigada.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O que são 20 anos?

E o que tenho a dizer depois de vinte anos senão que estou preparada para mais vinte e que escolheria de novo o meu José?
Que me lembro da chuva forte que nos deixou ensopados em um Ibirapuera ainda puro, com uma câmara fotográfica na mão fazendo um trabalho de faculdade.
Que me lembro dos passeios de bicicleta.
De tantos filmes que assistíamos caminhando pela paulista.
Do suco na casa de sucos.
Das viagens de ônibus para o interior de São Paulo, roteiro mãe-sogra, sogra-mãe.
Da rotina de levantar cedo aos sábados para andar a cavalo na hípica de Mairiporã e depois almoço no O Velhão.
De comprar tantos CDs no Eldorado da Pamplona que agora é Carrefour que nem dávamos conta de ouvir tantas músicas.
E de termos feito uma assinatura na locadora de vídeos quando o DVD surgiu em nossa vida.
E o que tenho a dizer depois de tantos anos?
Do quanto ficamos com cara de e agora? Quando a primeira gravidez surgiu e era ano de ir à Itália depois de Espanha e Portugal.
E lembro-me de ter me casado com você muitas vezes.
E do que mais me lembro são dos dias absolutamente úteis em que ganhei café na cama, uma música, um telefonema de como você está?
E como escrever um livro ou um filme se uma grande história é feita apenas de pequenas coisas?
E a alegria que foi depois da nossa família ter três pessoas recebermos a quarta criatura que completaria tudo?
E Juca & Jaqueline nossos primeiros gatos.
E Haku nosso primeiro cachorro.
E tantas casas que moramos. E tantos objetos que eu quis comprar e você quis construir.
E a mansão de bonecas que construiu com as meninas? Dois andares, janelas com sol e estrelas, cores, piso especial.
E os pães e os jantares com os amigos.
E os silêncios e as caras amarradas inevitáveis.
E a sua mania de anotar números de telefones em pedaços quase invisíveis de papel.
E o seu tempo tranqüilo de sair enquanto fico esperando na porta com a bolsa a tiracolo fazendo caras e bocas.
Um dia de cada vez. As meninas nos revelando, crescendo, pontuando uma existência útil.
Quem há de querer saber disso tudo senão nós dois e nossos netos quando a nossa infância voltar?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sem razão

Amou um amor amadurecido e de certa forma endurecido.
Já tinha quarenta anos e nenhuma ilusão adicional.
Mas sabia entender os altos e baixos. Reconhecia o olhar de tristeza.
Sabia quando algo bom ia acontecer.
No final de semana, quando passava os olhos pelo jornal, vendo sem olhar, lendo sem entender, parava o olhar em um ponto qualquer da parede e sentia-se tranquilo por apenas estar ali.
Um amor sem pressa, sem pressão. Um amor sem paixão.
Lustrava os sapatos no final do domingo enquanto concordava com o sabor da pizza que pediriam logo mais.
Manoel nunca imaginou desposar mulher tão bonita. Tinha medo de ponderar e de perder.
Qualquer gesto adicional poderia desmanchar aquele castelo de cartas.
Casa limpa. Flores sempre frescas na mesa da sala. Toalha alinhada, ainda que não de linho.
Cada vez que ensaiava um gesto mais carinhoso, visualizava uma cena de repulsa, uma conversa dura e fim.
Amou um amor amadurecido e de certa forma endurecido, por puro medo de perder.