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quarta-feira, 11 de março de 2015

Verbear

Pensou que pensava sem já fazer muito sentido.
Gostava de transformar as palavras em verbos. Qualquer palavra que já não fosse um verbo.
Verbear palavras é sempre tão mais fácil quando se sabe o que dizer, mas as palavras se escondem, escapam ligeiras. Elas não querem a responsabilidade de corroborar o que há entre o olhar e a boca, o fígado e o coração, as mariposas do estômago e o balançar dos pés.
Inventar palavras também já não é desse tempo que é tempo só de reduzir.
Não a pó, a vc, tá, tbém, pq. Palavras cortadas, magoadas.
Pensou que pensava, mas já não passava de um desfilar de sentimentos.
Embrulhado quando frio.
Esparramado quando calor.
Amar é mais. Pensar é pouco.
Verbear ajuda a transitar pela indelével tarefa de ser.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Verbar

Verbar é o ato de dar poder às palavras. Os substantivos principalmente, que são concretos, pasmados de suas existências sem ação.
Uma mulher poderia, ao levantar-se do seu croché, dizer: vou panelar.
E entenderíamos que ela iria cozinhar.
Os verbos são arrogantes, sempre em movimento, sempre determinando quem vai quem fica e nunca quem para.
Há preconceito entre as palavras, os adjetivos sempre taxados de fúteis.
Ah sim, há muito injustiça entre as classificações. Os substantivos abstratos ficam sempre em cima do muro porque são um estado. Entre os comuns, aqueles que convêm a todos os seres da mesma espécie, os que mais anseiam por um verbar.
É próprio de um substantivo querer apropriar-se.
Verbar é o ato de arrebatar, de subverter a função das palavras.
Palavra: s.f. vocábulo provido de significação.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

How

O silêncio faz a palavra recolher-se sem alarde.
Ele impera, domina sem imposição.
O silêncio não precisa de coroa, de trono, de nada além de silêncio.
As palavras se atropelam.
As palavras se confundem.
As palavras se perdem.
As palavras nunca andam sozinhas.
Mesmo as más sempre estão acompanhadas.
As palavras transformam um pequeno tijolo em palco.
As palavras buscam a luz como faz o girassol.
O silêncio acompanha e quando decide que é seu momento
não tem palavra que o demova dessa ideia.
As palavras estão por toda parte. Visíveis.
Quem consegue enxergar o silêncio não tem palavras para descrever.
How can we find the silence?
As palavras não querem contar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Palavra simples

A palavra simples não diz nada, apenas faz sentir.
A palavra simples não magoa, apenas faz a mágoa emergir e depois desaparecer.
A palavra simples não é aprendida nas aulas de português ou no dicionário, mas sim no coração.
A palavra simples não tem sotaque. Uns arrastam o r, outros o esmagam entre as vogais, mas nada disso importa.
A palavra simples conforta.
A palavra simples não precisa ser gritada, nem sussurrada, a palavra simples simplesmente alcança os sentidos do outro na medida exata.
A palavra simples não afronta o medo, mas conforta quem está assustado.
A palavra simples não acoberta a mentira e nem enfeita a verdade.
Quem diz a verdade não depende de sua boa memória porque terá sempre a mesma história para contar.
A palavra simples é simples, não precisa de negrito.
No papel, não precisa de marca texto.
Na conversa do dia a dia a palavra simples dá a dimensão exata da nossa existência.
A palavra simples chama para ver a lua no céu.
A palavra simples dá bom dia mesmo quando o tempo amanhece chuvoso e frio.
A palavra simples escreve um bilhete dizendo só que tem saudades e quer um almoço.
A palavra simples, às vezes, vem de longe em um recadinho no Facebook, por email, SMS, um like, um concordo, um rs – mais que um riso uma presença.
A vida está cheia de palavras simples.
Elas nos protegem daquelas frases mais duras que em alguns momentos pensam ter o poder de acabar com essa graça.
A palavra simples tem um poder que nem todo mundo pode ver.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Desconforto

Se vai quebrar o silêncio e invadir o mundo alheio que seja o mais suave possível.
Se não é uma festa, se não é um desabafo não tem porque usar as palavras como ferramentas – ora de construção ora de destruição. Quase como tortura.
Se vai quebrar a rotina e revirar vidas que seja de maneira branda, como a última espuma que vem com a onda depois da arrebentação.
As palavras precisam ser melhores que o silêncio.
Pelo menos na maioria das vezes.
Como calculamos o resultado do que vamos esparramando pela vida?
Hora de cuidar disso. Tarde seria se não compreendesse que quase tudo se pode resgatar.
Fiquei sem palavras por um momento.
Depois que o momento passou, palavras ruins quiseram escapar.
Melhor sufocar que entristecer tudo ao redor.
Melhor acolher que abandonar.
Melhor esperar do que desesperar.
Se vai rezar, que seja para um santo que pode te transformar.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Preparação

Uma palavra para cada ano de minha existência.
Explorar a vida escondida em cada significado.
Significância.
Uma palavra boa pode dizer uma coisa ruim e uma palavra ruim pode dizer uma coisa boa.
O que somos nem sempre se diz, o que se diz nem sempre reflete o que somos.
Assim como preparam as fantasias para o carnaval mesmo em meio a tragédias, eu preparo as palavras para meu quadragésimo sétimo ano.
É a minha festa e mesmo quando a arquibancada não está lotada eu desfilo minhas palavras.
existência
caminho
fala
descoberta
pergunta
curiosidade
medo
imposição
composição
poesia
disputa
realidade
medo
decisão
brilhantes
vazio
novo
incerteza
ímpar
passado
presente
par
brilho
perda
ansiedade
metade
dois
conquista
sacrifício
tempo
lugar
recomeço
desistência
luto
nascimento
detalhes
fronteira
nascimento
revisão
terço
ultrapassagem
nada
passaporte
sorte
além
refém

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quebra-cabeça

São tantas as palavras disponíveis, mas como bichinhos assustados elas se escondem.
Ficam girando na minha cabeça, desencontradas, dançando sem ritmo, sem encaixe.
Espero sempre um pouco mais, espreitando e quando alguma relaxa eu tento começar uma frase.
Preciso começar um texto que conte como tudo começou.
Que realce as coisas alegres e pontue as coisas tristes muito rapidamente e nem foram tantas assim.
Preciso lembrar detalhes.
E depois preciso guardá-los num lugar protegido, só para mim.
E se eu pudesse acelerar o tempo e contemplar todos os resultados... touché na minha ansiedade.
E já saberia que tudo deu certo aqui, ali, para mim, para ela, para ele.
Menos cansada e menos aflita.
Com mais respostas do que perguntas.
Os anos pares me espreitam com coisas esquisitas desde o meu nascimento.
Alguns me surpreendem com o mais puro lirismo, outros com o mais cruel do ostracismo.
Preciso das palavras, mas elas não precisam de mim.
Preciso de um tempo de calmaria que não tem pressa de vir.
Se eu pudesse ir e vir no espaço e no tempo eu comporia um quebra-cabeça sem tantas peças.
Não posso perder nenhum delas. Não agora.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Mais do que palavras

Algumas palavras pontuam nossa vida. Umas como se fossem uma exclamação, outras como ponto final e algumas como reticências.

Quando eu tinha uns 6 anos eu achava que amante era a palavra que definia a mulher que namorava um homem casado. E só.

E me escandalizava sozinha, olhos arregalados em uma cara sardenta com a música do Roberto Carlos que cantava na maior falta de respeito amada amante... E minha irmã cantava junto com o rádio, com a voz cheia de emoção e minha mãe, tão severa com nossa educação, não falava nada! Na minha cabeça era um escândalo e o mundo estava mesmo perdido.

Outra palavra que carrego vergonhosamente comigo é estômbago.
Percebi que todo mundo achava graça das crianças que falavam errado. Eram risinhos, mão na cabeça, apertão nas bochechas e para mim nada.
Arquitetei por um tempo e encenei: mãe, tô com uma dor de estômbago! E já me preparei para as gracinhas, mão na cabeça e que tais. Mas o que ganhei foram umas mãos na cintura, uns olhos verdes tentando fingir indiferença me indagando:
- e essa agora? desde quando não sabe falar estômago? não sabe que a sua graça é falar tudo direitinho?
Estava tudo acabado, para não se prontificar a me dar um remedinho...

E, finalmente, ribanceira.
Quando eu tinha 17 anos elegi essa palavra como sendo a mais bonita que eu conhecia, a que eu mais gostava.
Ensaiei inúmeras vezes, em frente ao espelho, a resposta do porquê caso em uma entrevista me fizessem essa pergunta.
Eu pensava que o estrelato viria rápido. Já não me lembro qual era a resposta, mas ainda acho linda, sonora, poética, e quem sabe que segredos estão lá embaixo?