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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Tempo

O tempo é o senhor do tempo e de ninguém mais.
Cada um é senhor de si mesmo se souber o que senhor é.
Se não souber, passará o tempo tentando economizar tempo, matar o tempo, correr atrás do tempo, ignorar o tempo.
Cada passada um passo passado.
Cada segundo, minuto, hora em suas perspectivas já melhor descritas por melhores poetas e pensadores. Para um corredor de velocidade, diferença enorme! Para um voo atrasado, para uma noiva atrasada.
Atraso é o riso contido do tempo.
Brincadeira de mau gosto, de bom gosto.
Ninguém é senhor do tempo.
Tempo não é palíndromo como reler.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Considerações

um tempo de considerações e reconsiderações
um tempo sem tempo de apenas abraçar e ouvir o coração bater
um tempo de dizer não
de sentir a explicação longa e dolorida
ser respondida com uma frase curta e aborrecida
um tempo de cartas ao papai noel
um tempo vermelho
um tempo de luzes

um tempo de respirar para não sucumbir nesse mar de gente
um tempo de correções
um tempo de olhar calmamente o tempo que passou
e esperar pelo tempo que virá
os olhos enxergam mais do que querem ver
o coração disfarça o sorriso que quer chorar
um tempo de repartir o pão
considerar e reconsiderar
um tempo de alucinação

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Tempo perdido

ah perdeu algumas horas que o tempo lhe reservou para perder mesmo
perdeu olhando uma margarida
tão branca no meio de mato tão seco
perdeu olhando a avó esperando pelo neto
quem mais lento que o olhar que perdia?
perdeu algumas horas
folheando revistas na banca de jornal
se a banca é de jornal porque as revistas abundam?
perdeu o trem porque demorou comendo
devagar o pão na chapa com café quentinho
perdeu algumas horas porque trocou
o pneu da moça que saiu com o carro do pai
ah perdeu algumas horas que o tempo lhe reservou exatamente para isso mesmo
para perder
deixar escorrer
deixar a formiga passar
deixar a tia contar toda a história de novo daquele moço que arruma panelas
deixar a jaboticaba amadurecer
deixar o vento dessarumar o jornal
ah perdeu algumas horas escutando o garoto do vizinho aprendendendo violão
e porque era exagerado essas horas não foram mais que minutos
e minutos assim o tempo separa na vida de cada um
pra que ela floresça e cresça sem piedade
das horas que tanto se quer economizar
pra que?

sexta-feira, 25 de março de 2011

Pressa

Tenho pouco tempo para escrever
Não porque vou morrer
Não porque o trem vai partir
Não porque tudo vai desaparecer
Tenho pouco tempo apenas porque tenho pressa
Eu sempre tenho pressa
E por isso contemplo um futuro esburacado
Já que o agora vai sendo vivido aos trancos
Sempre esperando que o futuro vai consertar
O que hoje não está funcionando
E então tenho pouco tempo
Tenho pouco tempo porque vivo recolhendo
Histórias do passado e isso consome o tempo
Que eu tenho para viver agora
O passado são fotografias em sépia
O futuro é apenas uma projeção sem alta definição
Tenho pouco tempo para escrever
Porque vou reler Tabacaria
Lá posso mergulhar nos versos que não fiz
Mas que podem descrever a minha pressa
De viver o futuro para conferir se vou mesmo
Estar lá e enfim apaziguar meu coração:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
... (Álvaro de Campos)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Tempo

Quero um tempo mais ameno.
Um tempo de respostas mais rápidas.
De almoço mais lento.
Um tempo para ver um filme novo.
Quero um tempo mais enquadrado
no que precisa ser modificado.
Uma resposta que me tire da cadeira.
Um tempo sem pernilongos.
Quero dias de descanso para os pensamentos.
Um tempo de frases curtas,
mas de sorrisos longos.
Quero um tempo de mãos que acenam
na chegada.
Quero um livro novo.
Quero uma poesia de duas linhas.
Um suco gelado, mas sem pedras de gelo.
Um jantar quente e um despertador desligado.
Quero um tempo mais ameno.
Se eu ficar quieta ele vai chegar.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Perdida

Passou o tempo. Passou tão rápido.
Nenhum truque leva a melhor.
Nenhuma onda vem mais devagar só para recolhermos a toalha.
Nenhum raio espera até que estejamos abrigados.
A chuva não se importa com os cabelos recém penteados.
Passou o tempo. Passou tão rápido.
Os tempos verbais se perdem na construção da escrita.
Uma obra inacabada. Uma obra inalcançável.
Uma obra interminável como a reforma da cozinha.
Tudo se atropela. A vida não se organiza.
Quando eu escrevo enquanto penso tudo parece muito claro.
Mas bastou pousar o lápis, a caneta, abandonar o teclado para tudo voltar ao caos.
Começo e não termino.
Assim como essa reflexão sobre o tempo.
Ele passa, ele passou.
Eu tinha tanta pressa e ainda tenho, mas para que?
Para onde é que eu vou?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mandriar

Não tenho mais moeda de troca com o tempo
Ele tolera minhas preguiças, ele me espreita na esquina
E não se importa com meu passo mais lento
Porque não tenho mais moeda de troca não consigo
Ensaiar uma coreografia de madrugada, em um
Teatro emprestado, e no dia seguinte seguir sorridente
Hoje coreografo apenas palavras
Procuro par para cada uma delas
Não gosto de palavras vazias
Não gosto de palavras sozinhas
Nem daquelas que se valem das reticências porque não tem coragem de abrir caminho para a companheira que diria toda a verdade
As palavras doem
Não posso mais mandriar porque não tenho mais moeda de troca
Não tenho mais dezesseis anos e talvez por isso as palavras me
Respeitem mais, me acompanhem com menor pudor
Mas não valem nada para o tempo
Ele é zombeteiro, tolerante apenas porque sabe que vai ganhar

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Nunca estamos prontos

Nunca estamos prontos e aí reside a graça da vida, mas por que demoramos tanto para aprender?
Nunca estamos prontos para perder um grande amor, para perder um grande amigo.
Pais jamais estarão prontos para perder filhos, filhos não esperam e não estão prontos para perder os pais.
São leis praticamente naturais da vida, todo mundo sabe, todo mundo observa, todo mundo lê ou escreve sobre o tema.
E não estamos prontos quando damos ou levamos uma batidinha no carro, quando nos roubam o celular ou o notebook.
Não estamos prontos para nada, nem para as coisas boas. Não estamos prontos quando recebemos um telefonema de quem mora do outro lado do mundo.
Não estamos prontos quando nasce um bebê na família, quando alguém se casa sem avisar.
Nunca estamos prontos.
E porque nunca estamos prontos é que tudo é vivido intensamente, fortemente, algumas vezes deixando na alma, no coração, na lembrança uma imagem não como cicatriz, mas como uma tatuagem desenhada caprichosamente.
Dói muito. Mas depois que passa está lá, indelével, bonita às vezes, algumas de maneira que todo mundo pode ver, outras tão nossa que nem quando partimos fica exposta.
O fato é que nunca estamos prontos.
Não há ensaios, não há reprises, pode ser refeito, mas nunca será do mesmo jeito.
Algumas variáveis não controlamos.
E se não controlamos porque sofremos por elas?
Nunca estaremos prontos e aí reside a graça da vida, mas por que demoramos tanto para aprender e por que não conseguimos ensinar? 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quebra-cabeça

São tantas as palavras disponíveis, mas como bichinhos assustados elas se escondem.
Ficam girando na minha cabeça, desencontradas, dançando sem ritmo, sem encaixe.
Espero sempre um pouco mais, espreitando e quando alguma relaxa eu tento começar uma frase.
Preciso começar um texto que conte como tudo começou.
Que realce as coisas alegres e pontue as coisas tristes muito rapidamente e nem foram tantas assim.
Preciso lembrar detalhes.
E depois preciso guardá-los num lugar protegido, só para mim.
E se eu pudesse acelerar o tempo e contemplar todos os resultados... touché na minha ansiedade.
E já saberia que tudo deu certo aqui, ali, para mim, para ela, para ele.
Menos cansada e menos aflita.
Com mais respostas do que perguntas.
Os anos pares me espreitam com coisas esquisitas desde o meu nascimento.
Alguns me surpreendem com o mais puro lirismo, outros com o mais cruel do ostracismo.
Preciso das palavras, mas elas não precisam de mim.
Preciso de um tempo de calmaria que não tem pressa de vir.
Se eu pudesse ir e vir no espaço e no tempo eu comporia um quebra-cabeça sem tantas peças.
Não posso perder nenhum delas. Não agora.