um tempo de considerações e reconsiderações
um tempo sem tempo de apenas abraçar e ouvir o coração bater
um tempo de dizer não
de sentir a explicação longa e dolorida
ser respondida com uma frase curta e aborrecida
um tempo de cartas ao papai noel
um tempo vermelho
um tempo de luzes
um tempo de respirar para não sucumbir nesse mar de gente
um tempo de correções
um tempo de olhar calmamente o tempo que passou
e esperar pelo tempo que virá
os olhos enxergam mais do que querem ver
o coração disfarça o sorriso que quer chorar
um tempo de repartir o pão
considerar e reconsiderar
um tempo de alucinação
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Entorpecido
Entorpecido.
E outra palavra não tinha para descrever como se sentia.
A mão pesada.
O coração leve.
A perna tensa.
O fígado comprimido.
Entorpecido.
E outro mundo não havia além daquele que já conhecia.
Um olhar de nuvem.
Um sol de rascunho.
Um sono profundo que adiara.
Entorpecido.
E outro sentimento não tinha para curar aquela dor.
Recolhido.
Traduzido.
Confundido.
Tinha ido.
Tinha sido.
E mais não era do que um sonho adormecido.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
A reencarnação dos objetos
Algo está errado se reencarnar está associado à carne porque os objetos são coisas.
E reencarnação é o mesmo que Palingenesia – do grego palin que é igual à repetição, de novo, mais genes(e) que é igual a nascimento, portanto, renascimentos sucessivos dos mesmos indivíduos. E aí pode não ser de carne.
E os objetos sempre carregam almas, eu sei, elas estão lá.
O galho que eu recolhi no interior da Bahia e que me acompanhou por toda a viagem - e depois comigo pelos cantos dos armários até que em uma mudança despedi-me dele com dor no coração do desapego - reencarnou no galho que minha caçula recolheu na beira da praia.
Ela o chamou de Rei Arthur e por todos os dias em que passamos entre sol e preguiça ela cuidou dele como quem cuida de um animalzinho.
Um galho tem alma.
As pedras que meu pai e eu recolhemos por nossos caminhos carregam muito do carinho que nos uniu.
As pedras não têm filhos.
As pedras não têm lágrimas.
As pedras não têm alma para quem não sabe olhar.
O Rei Arthur ainda não reencarnou em nenhum outro galho que tenha cruzado nosso caminho em um passeio ou viagem de férias. Pode ser na próxima vez.
E é a reencarnação porque não é qualquer galho.
Um galho nos salta aos olhos e nos fala ao coração.
Por desapego não podemos colecionar e porque não os colecionamos enfeitam nossa existência e assim vamos acreditando nas coisas que nos ensinam os nossos corações.
É uno.
Mas me vejo em meus iguais.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Auto estima
Olhou de lado como quem desconfia do espaço que ocupa.
Depois manteve os olhos no chão como quem não esconde a timidez.
Mas dava para sentir o coração palpitando.
Então atravessou a rua e esbarrou no camelô que vendia óculos.
Alguns caíram, outros ficaram pendurados como quem olha a cena de cima para baixo.
Desculpou-se, mas não esperou para ouvir os impropérios do trabalhador informal.
Entrou rapidamente no bar e declarou:
- é um assalto!
- ah, é? e vai levar o quê? uma média com pão requentado?
- tô falando sério
- sua voz nem sai e tá aí tremendo que nem vara verde, tú tá é com fome... o isso é coisa de droga?
- é um assalto! me passa a grana senão vai dá merda
- olha aqui filho, se quiser um emprego, pode ir lá dentro trocar essa camisa por um avental que o Juventino deixou e me ajuda a limpar as mesas
Saiu desconcertado.
No dia seguinte chegou pelo mesmo lado da rua e entrou com passo decidido, mas ainda com a cabeça baixa, olhos erguidos como quem espia por cima dos óculos, mas ele não usava nenhum.
- e aí, vai assaltar o quê hoje?
- onde é mesmo que fica o avental que o tal Juvêncio deixou?
Com o dinheiro da primeira semana comprou um óculos no camelô que não o reconheceu e passou a andar de cabeça erguida.
Depois manteve os olhos no chão como quem não esconde a timidez.
Mas dava para sentir o coração palpitando.
Então atravessou a rua e esbarrou no camelô que vendia óculos.
Alguns caíram, outros ficaram pendurados como quem olha a cena de cima para baixo.
Desculpou-se, mas não esperou para ouvir os impropérios do trabalhador informal.
Entrou rapidamente no bar e declarou:
- é um assalto!
- ah, é? e vai levar o quê? uma média com pão requentado?
- tô falando sério
- sua voz nem sai e tá aí tremendo que nem vara verde, tú tá é com fome... o isso é coisa de droga?
- é um assalto! me passa a grana senão vai dá merda
- olha aqui filho, se quiser um emprego, pode ir lá dentro trocar essa camisa por um avental que o Juventino deixou e me ajuda a limpar as mesas
Saiu desconcertado.
No dia seguinte chegou pelo mesmo lado da rua e entrou com passo decidido, mas ainda com a cabeça baixa, olhos erguidos como quem espia por cima dos óculos, mas ele não usava nenhum.
- e aí, vai assaltar o quê hoje?
- onde é mesmo que fica o avental que o tal Juvêncio deixou?
Com o dinheiro da primeira semana comprou um óculos no camelô que não o reconheceu e passou a andar de cabeça erguida.
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