ah perdeu algumas horas que o tempo lhe reservou para perder mesmo
perdeu olhando uma margarida
tão branca no meio de mato tão seco
perdeu olhando a avó esperando pelo neto
quem mais lento que o olhar que perdia?
perdeu algumas horas
folheando revistas na banca de jornal
se a banca é de jornal porque as revistas abundam?
perdeu o trem porque demorou comendo
devagar o pão na chapa com café quentinho
perdeu algumas horas porque trocou
o pneu da moça que saiu com o carro do pai
ah perdeu algumas horas que o tempo lhe reservou exatamente para isso mesmo
para perder
deixar escorrer
deixar a formiga passar
deixar a tia contar toda a história de novo daquele moço que arruma panelas
deixar a jaboticaba amadurecer
deixar o vento dessarumar o jornal
ah perdeu algumas horas escutando o garoto do vizinho aprendendendo violão
e porque era exagerado essas horas não foram mais que minutos
e minutos assim o tempo separa na vida de cada um
pra que ela floresça e cresça sem piedade
das horas que tanto se quer economizar
pra que?
Mostrando postagens com marcador horas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador horas. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Notícia
Recebeu a notícia como quem já sabia e se comportou bem.
Por um tempo que pareceu interminável manteve um sorriso leve no rosto.
Depois desabou e chorou tudo o que estava acumulado.
Depois as horas foram escorrendo pelos relógios e o coração acertou o compasso.
Recebeu a notícia com a surpresa dos que vivem em outro mundo.
Por um tempo que pareceu interminável apertou as mãos, balançou os pés, escancarou um sorriso.
Depois gritou de alegria e rodopiou como se alguém lhe tivesse dado corda.
Depois as horas foram escorrendo pelos relógios e o coração acertou o compasso.
Entre o riso e o choro, extremos de calmaria.
Entre o medo e a alegria, um coração que comanda o fígado.
Entre os dedos que apertam marcando as palmas das mãos com unhas fortes, anéis inquebráveis.
Depois as horas foram escorrendo e ficaram fotografias em máquinas digitais.
Não há mais papel.
Não há mais nada entre os extremos a não ser uma espera que não antecipa.
Rabiscou em um pedaço de papel o trecho da velha canção... nem um santo tem pena de mim...
E riu de si mesmo enquanto as horas escorriam.
Assinar:
Postagens (Atom)
