Confundo as pessoas. Não por mal, porque me atrapalho na vida.
Tropeço na confusão dos meus pensamentos.
Se eu soubesse como erguia uma cerca entre o lado direito e esquerdo do cérebro, separaria números e poesia e talvez a vida fosse mais fácil.
Mas eu não sei como e sigo confundindo as pessoas.
Não que eu as deixo sem entendimento, não desse jeito, eu cumprimento as pessoas erradas ou não cumprimento as pessoas certas.
É isso.
Tomava café em uma padaria com integrantes do meu grupo de teatro, esperando o diretor chegar.
Vi um moço passando e tive certeza de que era um dos nossos.
Deixei o balcão e pendurei-me em seu pescoço em um abraço de quem convidava para um café, nada mais que isso. Alegre, falante.
O moço se virou assustado. Tinha um rosto que eu nunca tinha visto antes.
Fiquei sem graça e não houve desculpa ou explicação que abrandasse o constrangimento.
E tantas vezes que pessoas me cumprimentam, me chamam pelo nome e processo milhões de informações para juntar nome à pessoa nem sempre com sucesso.
Dia desses, no Market Place, saindo de uma loja, fiz psiu, apertei o passo, até alcançar uma moça e tocar-lhe no braço, certa de que era minha amiga Eliana. Não era.
Vamos chegar a um aplicativo que nos permita fotografar discretamente as pessoas e descobrir tudo sobre elas. Eu precisaria desse recurso, mas me recuso a usar. Eu sou assim. Eu tropeço entre os meus lados e não é por mal.
Todos moram em minha memória afetiva, apenas tenho certa dificuldade para acionar.
Não faz muito tempo, em um restaurante, uma mulher e eu nos olhamos e tivemos a mesma sensação: te conheço, mas não sei de onde. Antecipei-me e disse:
- Oi, eu sou a Lusia, trabalho... De onde nos conhecemos?
Ela riu, me deu as informações e confessou aliviada que também não lembrava meu nome.
Pode não funcionar com todo mundo, mas foi divertido e me permitiu alertar: posso não te reconhecer se por algum tempo você desaparecer. Fique por perto!
