Perdeu o juizo e então encontrou-se.
Por que precisa dizer sempre o que pensava, o que queria fazer?
Por que não podia usar uma camiseta de bola e uns sapatos listrados?
Por que precisava sentar-se sempre na primeira fileira e prestar atenção na aula de cabo a rabo?
Para agradar a quem?
Ao professor que nem sabia seu nome?
Perdeu o recato e enviou bilhetes.
Bilhetes em tempos de SMSs e quetais?
É, bilhetes, quem se importa?
Dias divertidos, convites para um vinho.
Por que precisa tomar vinho quando quer mesmo é uma cerveja tomada a goladas no gargalo?
Perdeu o juizo e então encontrou-se.
Precisava apenas ser educada.
Precisava apenas cumprimentar o porteiro.
Precisava apenas dar um sorriso para quem já estava no elevador.
Precisava apenas dizer: é, pensando bem, você tem razão!
Precisava apenas dizer: não quero visitar sua tia, quero ficar dormindo...
Precisava apenas ligar para sua mãe.
Precisava apenas responder o email da sua amiga querida.
Precisava apenas existir na simplicidade das letras de música: ...eu não preciso de muito dinheiro, graças a deus...
Perdeu o juizo e então encontrou-se, três quilos acima do peso, dois centimentros mais baixa, com o açúcar descalcificando os ossos seus.
Meus?
terça-feira, 6 de julho de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Manhã de sol
Olhou demoradamente para as crianças que brincavam na rua.Um cachorro passeava pelo sol, sem rumo, rabo sempre acenando.
Viu a roseira com brotos novos e uma vez mais pensou que roseiras parecem plantas cultivadas sempre por velhas senhoras.
Mas de onde vem tantas, de tantas cores, nas bancas de flores?
Dos roseirais. Nunca viu um roseiral.
Deixou-se ficar no sol.
Uma tristeza tamanha que mal cabia dentro do peito.
Os pés enfiados na meia velha tão quentinhos que tudo o mais poderia esfriar.
Olhar para o azul do céu... tão bom porque luz tão forte borra tudo e nada mais se vê a não ser manchas com formato de nossa íris.
Íris é um nome de mulher.
Se tivesse nascido Íris, que destino teria?
Uma lenda antiga lhe segredara que quando morremos vamos para uma outra dimensão e preparamos nossa volta com um plano que inclui até a escolha do nome... Não podia acreditar.
Teria escolhido outro nome, seguramente.
Nomes tatuam nossa alma, não, não pode ser, teria escolhido um nome mais simples, um nome mais curto, um nome igual a milhões de outros para desaparecer entre eles.
As crianças na rua nem a viam no sol. Lagartixa.
O cachorro não lhe pedia nada, passeava indiferente, um poste a mais.
O que fazer com aquela tristeza?
Fechou os olhos, imaginou a tristeza um papel rabiscado, amassou, jogou no lixo e recolheu-se.
A casa gelada, há tantos anos habitada, simplesmente a absorveu.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Palco
Sou tímida quando estou sozinha ou com mais um.Sou uma personagem quando há mais que dois.
Alguém me disse um dia que tijolo para mim é palco.
Já estive no palco.
O palco nos ofusca a vista e não nos deixa ver mais ninguém.
O palco cresce de maneira que a platéia parece confortavelmente instalada em um fosso muito distante.
O balé que dancei.
A personagem que interpretei.
A menina queimada de sol que substitui no tango que sabia de cor porque mais descansava olhando o ensaio do casal do que lanchando ou recuperando as pernas. Premio e castigo.
O canto que esqueci.
O canto que esqueci.
O pai que fui.
O operário de capacete verde.
O olho roxo como quem leva um soco do encontrão do primeiro ensaio com luz estroboscópica.
O gesso do pé esquerdo que não me impediu de dançar em um programa de televisão.
O guaraná que derrubei em Ney Matogrosso quando dançamos e cantamos em pleno comício de Fernando Henrique tantos anos atrás, quem há de se lembrar?
Meus amigos espantados:
- viu o que fez?
- virei, trombei com o moço, derrubei guaraná mas pedi desculpas...
- não é um moço, é o Ney Matogrosso
Minha eterna dificuldade em reconhecer os famosos... tão menores sempre, e depois, no palco, ele piscou pra mim! Desculpou-me!
Eu sempre me divirto sozinha, mas gosto de contar as minhas histórias.
Eu, boneca de pano. Desengonçada. Recheio de histórias e grossas costuras que vão abrir buracos no tecido frágil.
Colorido misturado. Estampa nem sempre de bom gosto.
... não subo mais nesse palco, tão pouco minha alma cheira talco como já cantou o Gil, ou não...
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