sexta-feira, 4 de março de 2011

Quietude

Quando está tudo muito quieto é que tenho medo.
Ontem tive um cansaço que não previ.
Um cansaço que tirou a agilidade dos dedos para procurar palavras que estão nos teclados, nos lápis, nas tintas das canetas, mas que não se entregam a mim.
E por isso, não escrevi.
Tenho medo de mim quando não escrevo.
Perco o norte.
Nosso norte tem sol.
Perco o chão.
Nosso chão tem flor.
Quando está tudo muito quieto é que tenho medo.
Por que não paro nunca.
Quando paro não sei o que fazer.
Quando o silêncio me cobra quietude, tenho medo.
Cai uma chuva fina.
Malas prontas.
Fantasias ansiosas.
São dias de paz, dias a mais
Dias que não deixaremos
Para trás, como diz a música do Jota Quest
Será?

quarta-feira, 2 de março de 2011

Um tantinho mais

Casa de madeira
Quintal de terra
Balanço de corda no abacateiro
Chinelo havaianas
Compras com caderneta no armazém
Coca-cola de domingo
Bolo de milho
Polenta frita
Pijama de flanela costurado pela mãe
Muro baixo
Gato solto pelas redondezas
Pudim de pão
Bola e boneca de Natal
Almanaque de farmácia
Biotônico Fontoura
Casa de madeira
Pai e mãe presentes
Irmãs e irmão, quartos e cadeiras
Tios e Avós distantes
Telefone de lata
Carrinho de rolemã
Pé de pitanga no quintal
Quintal de terra
Cheiro de terra molhada
Fecho os olhos e, enquanto balanço,
Posso sentir o vento acalmando o calor 
De janeiro na carinha
Sardenta e banguela que trago
Até hoje, bem escondidinha
Porque acho que hoje sou um
Tantinho mais bonitinha

terça-feira, 1 de março de 2011

Fim moderno

- Oi, tudo bem?
- Tudo, quer dizer, eu acho que tudo
- Em quanto tempo você chega?
- É por isso que tô ligando, eu não vou chegar
- Sério? De novo em reunião?
- Não, não é uma reunião
- O que foi? Seu carro quebrou?
- Não
- Então o que é? De novo sua irmã quer que você faça não sei o que?
- Não é que...
- Mas eu já estou quase pronta, que saco!
- Escuta, eu não vou chegar nunca mais
- Como assim?
- Não tá dando certo, melhor a gente dar um tempo
- Espera aí, você tá terminando comigo pelo celular, pouco antes da festa?
- Bom, pelo menos eu tô conseguindo falar, não é a primeira vez que tento, é isso, eu não vou chegar
- Eu não tô acreditando nisso, é uma brincadeira, você já está na porta não está?
- Na da minha casa, onde vou entrar e ficar bem quietinho, descansando
- Olavo isso não é possível!
- É possível sim, depois que passar sua raiva você vai ver que é melhor, não tá dando certo
- Que raiva? Quem disse que eu tô com raiva? Você tá sempre achando alguma coisa!
- Pois é, agora eu tô achando que vou desligar o telefone e uma hora dessas a gente fala direito
- Eu não quero falar com você nunca mais seu retardado!
- Lígia... eu