segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Caronas

Sempre tenho assunto. Às vezes para escrever aqui não exatamente, me fogem as palavras, uma ideia quer se sobrepor a outra. Muitas vezes uma história fica chateada porque ainda não foi contada e outra não me desculpa por ter sido assim, aberta sem maiores cuidados.
E talvez por isso eu me pergunto: quem são os caronas que dormem nos carros dirigidos por outrem?
Faço um longo trajeto e não posso deixar de observar um motorista entediado, com olhar fixo na frente, mas que nem sempre é atenção, é pura falta de opção.
O carona dorme em poses variadas.
Muitos com fones de ouvidos. Outros com a cabeça apoiada no vidro, a boca amassada sorrindo torto para mim.
Travesseiros improvisados. Óculos escuros ocultando a pestana caída.
Eu teria tanto assunto! Reformaria uma casa inteira.
Discutiria a última rodada do campeonato.
Pensaria em nomes para a reinauguração da farmácia.
Contaria uma tirinha do Calvin. Pensaria na próxima produção de Garfield.
Listaria alguns livros que ainda não li.
Contaria um causo da minha infância.
E faria perguntas, claro. Não estamos falando de um monólogo.
E observaria as respostas do interlocutor conforme o assunto. E mudaria de tema se não tivesse eco e aprofundaria o tema se percebesse entusiasmo.
Mas jamais dormiria enquanto alguém dirige para mim, por mim, comigo no carro.
Apesar de conhecer gente que paga para o carona ficar calado.

É, isso dá outro texto.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Marafona: a história dela e a minha

A marafona é uma boneca sem olhos, boca, nariz ou ouvidos. Sua armação é uma cruz de madeira revestida com tecido colorido.
A palavra marafona tem origem árabe e quer dizer mulher enganadora. Mas, no caso das bonecas de Monsanto, são utilizadas para celebrar a fertilidade e a felicidade conjugal. As marafonas fazem parte da tradição de Monsanto na Festa das Cruzes, celebrada no dia 3 de Maio se for domingo, caso contrário, no domingo seguinte.
Durante a festa, mulheres casadoiras bailam com as marafonas. Depois da festa as bonecas são deixadas em cima da cama onde têm o poder de livrar a casa das tempestades de trovoada e de mau olhado. No dia do casamento guardam-se debaixo da cama (como não têm olhos, orelhas, boca, nada vêem, nada ouvem nem nada podem contar) para trazer fertilidade e felicidade ao casal. As marafonas estão associadas ao culto da fertilidade.
Pois bem, a história da marafona é essa e a minha conta que
em agosto de 1998 meu pai nos deixou, em menos de 15 dias adoeceu e se foi e nem tive tempo de entender o que aconteceu.
Tinha programado uma viagem de férias para Portugal em setembro e, apesar de muito triste, resolvi não cancelar. Muitos recomendaram como ajuda para acalmar o coração.
Voamos para Madrid e de lá fomos de carro para Portugal.
Nossa primeira parada foi em Monsanto. Já tinhamos reservado uma pousada e chegamos a noitinha. A primeira pessoa que encontramos foi uma senhora vendendo Marafonas, para quem pedimos indicação do endereço da pousada.
Ela me pegou pelo braço, me indicou a pousada, mesmo tendo reserva me disse que se não desse certo eu poderia dormir na casa dela e, me ofereceu uma marafona.
Diante de tanta gentileza eu não podia recusar. Comprei sem saber o que era, para que servia e fui cuidar de admirar a pousada, tomar banho, jantar, descansar e, no dia seguinte, depois de ver em todas as lojinhas a tal da marafona, me informar do que se tratava.
Voltamos para casa vinte dias depois.
E, pouquíssimo tempo depois, fiquei grávida da minha primogênita.
Já estava casada há mais de 8 anos, nos últimos 3 querendo muito um bebe que não vinha.
No primeiro momento fiquei tão desconcertada com a idéia de que tive que deixar de ser filha para ser mãe... mas, depois, pensei que talvez meu pai tenha negociado esse meu encontro com a marafona para transformar a minha vida para melhor para todo o sempre!
As histórias se misturam e não temos muito controle sobre elas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Preciso mais do que isso?

Diante da folha em branco, um desenho.
Diante dos olhos brilhantes, um sorriso.
Diante da sede, uma cerveja gelada que não há poesia que possa resistir a uma tarde quente, a areia grossa, ao pé na água.
Uma água de coco depois, um sonho daqui a alguns minutos.
Transformar a incontinência verbal em algo que não machuca.
Em algo que pode ser bom.
Contar histórias...

- mãe, quando o papai do céu me mandou pra você, tinha acabado as crianças obedientes lá, e aí ele me mandou eu mesma...

Inocência. Prudência. Talento para se proteger da vida.
Ser simples não é simplificar, é compreender o complexo.
É administrar um ser que quer dormir mais meia hora mas que quer chegar no horário ao trabalho.
Que quer olhar a lição a noite, mas tomar um vinho e jogar conversa fora.
Ter um gato no colo, um livro e uma folha em branco.
Preciso mais do que isso? Crianças dormindo em paz...