sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Útil. Inútil.

Útil. Inútil.
Feio. Bonito.
Novo. Velho.
Feliz. Infeliz.
O que é um positivo sem o seu negativo e vice versa ou versa e vice?
Fim. Começo.
Escrever em todos os dias úteis. Por que?
Se não são inúteis os dias que passo sem escrever.
A matéria que contempla as letras, as letras que contemplam a matéria.
A história que vai sendo escrita nos segundos em que se vive.
Rir e chorar.
Dizer adeus e depois voltar.
Nada é bom sem ter uma pitada de mau e ninguém é do bem sem ter feito alguma vez um pequeno mal.
O que seria das férias sem dias duros de trabalho e o que seria disso tudo sem a perspectiva de erguer as pernas pra cima e em nada pensar?
Dia útil, 18 de dezembro. Post de final de semana, final de ano e começo de vida sempre.
Aniversário da minha amiga querida Margot! Uma flor que sempre enfeita a minha vida mesmo quando ficamos tempos sem nos encontrar para um café!
Dia de não questionar. Faz não faz. Liga não liga.
Vou não vou.
Começou o Natal. Alguém se lembra que é simplesmente o aniversário de um cara que se superou?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Coisas de Pai

Uma biografia não é feita só de histórias do bem. Nem só de histórias do mal.
Algumas são meio vexatórias, como diriam alguns. Mas, não posso faltar com a verdade.
Quando eu estava no primeiro ou segundo ano do colégio, já não me lembro mais, estudava à tarde, mas acordava bem cedo porque gostava de tomar café com o meu pai, que viajava muito e nem sempre estava em casa.
Ele ouvia no rádio um programa de músicas sertanejas. E até conhecia o locutor, o apresentador do programa.
Em uma cidade do tamanho de Tupã isso é fácil, mesmo na época em que não se conhecia a teoria de que podemos chegar a qualquer pessoa em seis passos.
Certa vez, nesse programa, houve um concurso cultural, desses que se vê até hoje. Você responde alguma pergunta através de carta e se sua carta for sorteada você retira um brinde.
Bom, o brinde da vez era um estojo escolar completo. Com lápis de cor, lápis, régua, borracha e eu fiquei enlouquecida para ganhar.
Escrevi a resposta em várias cartas e dizia meu pai que deixava lá na urna da rádio.
E ele sempre me dizia que era difícil ganhar, que eram muitas cartas, que o prêmio não era nada assim tão raro, que ele mesmo poderia comprar para mim um estojo novo, com todas aquelas coisas e que eu podia escolher a cor, o tipo de régua, a cor do apontador, etc e tal.
Qual nada, nada me convencia, eu estava muito empenhada e seguia escrevendo as cartas e ouvindo o sorteio e me angustiando com o fato de que dia após dia não ouvia o meu nome.
Para desespero do meu pai.
Na última semana do concurso, praticamente no último dia, estávamos tomando café e diferentemente dos outros dias em que meu pai sugeria que ouvíssemos notícias ou deixássemos o rádio desligado ele mesmo fez questão de deixar ligado no tal programa com o volume até mais alto do que o normal, para que de repente eu ouvisse:
- e o lindo estojo completo de hoje vai para... Lusia Nicolino! É, ela é a sortuda de hoje! É só passar aqui na rádio para retirar o seu lindo brinde que vai ser muito útil e blá blá blá.
Eu não me cabia de contentamento e no final da tarde fui com um dos meus irmãos até a rádio buscar o meu tão desejado brinde.
Lembro dele até hoje, um estojo de madeira, cheio de preciosidades, tão organizado, tudo tão novo!
Tempos mais tarde soube que meu pai falou com o locutor, contou da minha ansiedade e se propôs a comprar um estojo, com todas as coisas, para que me fosse entregue como se fosse o brinde da rádio. Ele recusou a proposta em termos, disse que não era preciso comprar um estojo, que ele “sortearia” o meu nome e assim foi.
As coisas que o meu pai fez por mim... deve ter sido muito difícil pra ele fazer esse pedido. Era tão rígido em seus preceitos, desde cinco e meia é cinco e meia e não cinco e trinta e cinco até uma moeda que era preciso voltar de troco.
Te echo de menos papa!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Os vira latas

Ouço no rádio a indignação de um rapaz que assistiu a um atropelamento de cão. Levou-o para uma clínica veterinária mas não foi atendido, mesmo muito machucado, porque era uma clínica particular. Recebeu orientação para encaminhamento a uma ONG ou a um pronto socorro veterinário da prefeitura.
Fiquei com vontade de chorar. Eu choro com histórias assim.
Lembro-me de uma vez em que fomos, Beto e eu, comer uma pizza em um domingo à noite no apartamento novo de um casal amigo recém casados.
Eu estava no início da minha primeira gravidez.
Em São Caetano do Sul, não sabíamos bem o caminho, demoramos um pouco pra chegar.
Ao descer do carro vi uma gatinha na sarjeta, deitada, quieta e eu disse:
- olha, ela está prenha! acho que vai ter os gatinhos!
E o Beto consternado:
- não Lu, ela está muito ferida, deve ter sido atropelada, por isso a barriga está assim, tão grande
Não pude subir, não pude comer. Interfonei e disse que precisava do endereço de uma clínica veterinária. Eles sabiam chegar a uma mas não explicar o caminho.
Desceram, pegaram o carro e o seguimos. Ajeitei a gatinha da melhor maneira que pude na carroceria da pick-up com um pedaço de cobertor velho (outra história de socorro a feridos) em uma caixa improvisada.
A tal clínica estava fechada.
Desculpei-me com nossos amigos e disse que precisava tentar fazer alguma coisa. Conhecia uma clínica 24 horas no Ibirapuera e zarpamos pra lá.
Chegou agonizando. Não dava pra fazer mais nada e ela morreu.
Os veterinários de plantão não cobraram pelo atendimento, mas paguei uma taxa para incineração.
Não sei quanto tempo ela ficou agonizando e se teria dado tempo de salvar se tudo tivesse feito imediatamente após o atropelamento, mas pelo menos, ela não morreu sozinha e pode ver em nossos olhos que estávamos ali e que ela era importante para nós.